21 de setembro de 2014

Bartolomeu e a árvore

Peter O'Sagae


O que caracteriza um texto de Bartolomeu Campos de Queirós?

Em A ÁRVORE, livro com ilustrações de Mario Cafiero (Paulinas, 2010), é uma aptidão lírica para tornar presente um objeto, primeiramente por uma relação de pertencimento e uma qualidade sensível: “Eu tenho uma árvore. Minha árvore é verde e...”, acomodando, em nossa retina, uma visão rememorativa em estrutura, forma e cor. A imagem da árvore ali está: em meio às palavras.

Soma o poeta rapidamente uma metonímia, lembrando que uma árvore “suporta um mar de folhas”. Então, adensa a descrição com adjetivos e uma humanidade que só poderiam vir do próprio observador: “Minha árvore tem uma copa redonda e crespa copiando o mundo.” E, frente às demais coisas, sua árvore torna-se uma paisagem singular... “A brisa sopra nas folhas e faz ondas na superfície. O barulho das folhas parece água correndo entre cascalho.” E, da tangibilidade de vários elementos, desse roçar palpável e sonoro, Bartolomeu abre o convite e a ordenança. Claramente diz: “Para escutar, é necessário afinar as conchas dos ouvidos. Só as conchas gravam o barulho do mar.

Em um repente, a imagem salta da palavra e parece já distante, diluindo-se... Contudo, sabendo o efeito que provocou, o escritor puxa leitor para mais perto de sua realidade: “A sombra de minha árvore se estica pela sala da minha casa. A sala fica na penumbra. Na penumbra eu penso com mais preguiça.


A árvore de Bartolomeu torna-se, como dizem os filósofos, inteligível. Criança ou adulto pode compreender sua existência e amá-la. Deixado o primeiro parágrafo para trás, as relações da árvore com outros seres viventes fatiam o tempo, congelam-no em quadros: a árvore é casa para passarinhos, sala de esperar borboletas, esconderijo de cigarras, grilos, lagartas com vocação para rendeiras, formigas interessadas em açucares – e, mesmo tendo debruçado o homem sobre a janela, a alma do poeta voa dentro da árvore que lhe pertence. É assim que ele dela extrai a seiva e a substância ideal, buscando palavras para transmitir esse conhecimento.


Mas não é um conhecimento tecido em conceitos científicos. É uma experiência para ampliar os sentidos – da visão, da escuta e do tato, andando por lembranças de sabores, cheiros e temperaturas diversas – a fim de ampliar os significados que a mente, alerta, sonolenta, acolhe para decifrar. Quando se apercebe de si, o leitor pode ter todas as árvores em um só texto, com seus botões e flores, mistérios e perfumes, e novas relações, descobertas, desenhos que se multiplicam por um caprichoso exercício com a linguagem verbal. Já a árvore não é uma, porém milhares. Ou um milagre.

O universo tão imenso parece pequeno e verde, cheio de esperanças entre a folhagem que cresce e estampa o céu.


4 comentários:

  1. Olá Peter! Que lindo esse texto poético do Bartolomeu, que é o livro A Árvore! Sua resenha literária no Dobras da Leitura O'Blog está bela e convidativa para leituras da obra de Bartolomeu Campos de Queirós. Gostaria de compartilhar um texto que escrevi sobre o mesmo livro em

    http://thelmaregina.blogspot.com.br/2014/01/sobre-o-livro-arvore-de-bartolomeu.html

    Paz, sempre!

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  2. Ah, Thelma Regina! Entre as fotografias, encontrei um poema seu, tão breve para falar do centenário oitizeiro. Gosto também de árvore com flores amarelas e a minha memória busca uma sibipiruna que sempre parecia amontoada de passarinhos... Bartolomeu e todas as árvores, num texto só. Bonito isso, né?

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  3. Olá Peter. Acompanho suas resenhas no Dobras da Leitura, sempre muito belas mesmo. Também gosto muito dos textos de Bartolomeu Campos de Queirós. E falando em Árvores, estou nas mãos "Plantando as Árvores do Quênia: A História de Wangari Maathai" - Prêmio Nobel da Paz, 2004, texto e ilustrações de Claire A. Nivola. Uma história sensível e de muita força. Belíssimas ilustrações.
    Abraço.
    Vera Martucci de Amorim.

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    1. Também passei por esse título durante essas semanas, mas acho que só o mostrarei em novembro. Obrigado pela companhia virtual! Abraços do Peter

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