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12 de abril de 2016

Mariana abriu o livro antes de dormir e...

Peter O.o Sagae


Uma noite aconteceu: Mariana abriu o livro antes de dormir e um O correu em disparada – mas a mãe nem liga, lava louças e costura as tarefas do fim do dia, não acredita na menina que vê O O O de montão, O de tamanco, O de guarda-chuva, O palhaço, O verde doidão, O de todo tamanho e feitio pulando pra fora da página... “Amanhã tudo estará no lugar novamente.” Mas, não é nada fácil ler, nem dá para dormir quando falta uma letra na vida – e assim é o pequeno caso de O SUMIÇO DO O, de Sandra Ronca #editoraprumo (2012) #literaturainfantil #sandraronca




25 de junho de 2015

imagens com reticências

Quando o carteiro chegou... leituras risonhas 3


Todos os contos são geralmente o mesmo conto e possuem todos as mesmas imagens sábias, quase os mesmos sabores conforme foram amadurecidos pelo tempo e as terras das várias culturas, permanecendo, na casca de seus frutos, as cores e texturas locais. Esta é uma tese bastante compreensiva de quem colheu e comparou narrativas através dos continentes, desde os primeiros folcloristas, antropólogos, viajantes e estudiosos de gabinete do século XIX, e após...

Por isso, são as imagens da palavra o que me interessa na leitura de um recente reconto de Celso Sisto, BATU, O FILHO DO REI, com ilustrações de Simone Matias (DCL, 2015), a partir de uma narrativa tradicional da Etiópia, um país no chifre da África apontando o leste...

Zemene é um jovem e corajoso caçador, mas poderia ser cavaleiro, um mercador, um nobre perdido em viagens pelos contos europeus ou árabes. O nome Zemene significa ‘Príncipe’ e é como aqueles que realmente andam à frente, desde o princípio. Ele entra em uma caverna escura e lá encontra Batu, o menino, que é como um gênio, um elfo, um exu, a sorte, a parca, a fada, um animal, a alma penada de um amigo ou parente morto, que irá mudar o destino do herói se – e somente se – puder salvar o pequeno indefeso da enorme serpente de sete cabeças e levá-lo à terra distante de seus pais, onde Zemene poderá requerer um gorro vermelho que torna qualquer pessoa invisível – como Saci e Perseu – e uma lâmpada de lata, aparentemente de tão pouca valia que, no entanto, realiza todos os desejos de riqueza material em ouro e prata...

Tais imagens abrem o diálogo com diferentes saberes. E é bonito aprender a brincar por esses caminhos a fim de não perdermos nossa humanidade. Um conto são todos os outros contos, iluminando-nos a própria ignorância rumo à realização de um importante feito em nós mesmos – a resignação, a esperança e a obediência, tomar o auxílio ao próximo como uma aventura, ventura ou missão...

Das imagens tecidas pelo conto, vale abrir uma mini-galeria para a ilustração de Simone Matias. Algo que inúmeros contos tradicionais ensinam é jamais desprezar o conselho dos amigos insuspeitados...



Talvez BATU, O FILHO DO REI fosse o aguardado livro de Celso Sisto para mostrar outros títulos que há bom tempo Dobras da Leitura recebeu. Como assegura o velho provérbio – a tempestade de areia passa, as estrelas permanecem –, será testemunho da perenidade das histórias tradicionais de todos os povos o generoso volume MÃE ÁFRICA: MITOS, LENDAS, FÁBULAS E CONTOS (Paulus, 2007) com ilustrações do próprio autor. A reunião de trinta e uma narrativas seguiu principalmente o critério da beleza – da magia, da identidade, da poesia dos nomes diferentes com significados encantatórios e musicais...



Outros dois livros conduzem o leitor à África Ocidental e, mais especificamente, ao Senegal. O CASAMENTO DA PRINCESA, também ilustrado por Simone Matias (Prumo, 2009), tem cores suaves de rosa, vermelho, roxo terra, cor de laranja e o contraste do branco pelas páginas para contar visualmente a história da formosa Abena, com quem a Chuva e o Fogo desejam se casar. O primeiro pretendente chegou com seu olhar molhado e palavras delicadas como água no bico de pássaros. Porém, o Fogo ao pai da moça deu provas de seu poder... O caminho do amor às vezes são cinzas deixadas pra trás, mas mesmo o fogo do Fogo extingue-se com a Temperança...

Por sua vez, RAIO DE SOL, RAIO DE LUA, com imagens de Maurício Negro (Prumo, 2011), relata acontecimentos de um tempo em que o Sol e a Lua eram crianças, vivendo com suas famílias na Terra. É verdadeiramente um conto etiológico que explica por que, desrespeitando a ética e o tabu de não espiar a própria mãe nua durante o banho, o Sol e a Lua foram separados de suas andanças e brincadeiras...


31 de agosto de 2014

a lição do passaredo

Peter o.O'Sagae


Chico Buarque e Francis Hime certamente não pensavam em literatura infantil ou fazer uma canção para crianças, quando escreveram a letra e a melodia de “Passaredo” para o filme A noiva da cidade, de Alex Viany (1976), cuja história, a partir de um argumento desenvolvido pelo cineasta e pioneiro Humberto Mauro, tomava como cenário a cidade ficcional de Catavento, em meio à zona da mata mineira, onde uma famosa atriz busca resgatar e viver a paz de suas raízes interioranas. Contudo, os políticos do lugarejo assediam a estrela no intuito de usarem sua influência nas causas que defendem... Ora, o tema musical funde-se a esse ambiente de tranquilidade prestes a romper-se – existe, realçada pelo arranjo instrumental, uma carga de aflição entre os sons das madeiras e a percussão acelerada cheia de estrídulos e alarmes. Bico calado, toma cuidado! Só um ouvinte incauto perguntaria: que homem vem aí ameaçando a liberdade do passaredo humano?


É viva a escolha lexical na construção do poema, com o chamamento das interjeições e os verbos no imperativo: ei, oi, ai, foge, vai, xô, xô, xô, some, anda, te esconde, voa, voa... E tamanho passaredo rapidamente viria pousar, com um arranjo mais calmo e as vozes do conjunto MPB-4, na trilha sonora de O sítio do pica-pau amarelo (1978). Humberto Werneck (1989) lembra como Chico trabalhou a letra, caçando pássaros nos livros e nas enciclopédias, e comenta que
Famintos por visibilidade, alguns urubus de plantão logo quiseram vincular Chico Buarque à tão nobre causa ecológica. Profundo conhecedor desta espécie de urubus, quando indagado se havia aderido a algum movimento ecológico, o compositor, irônico, foi categórico: “Eu não entendo nada de bicho. Aliás, eu não gosto de bicho. Pra falar a verdade, eu detesto bicho.”
Pois bem: na poesia para crianças, há mais amor aos pássaros ou às palavras?
Voaram agorinha três livros para cima da mesa...


No mesmo ano de 1976, o poeta português Sidónio Muralha entregava aos leitores brasileiros A DANÇA DOS PICA-PAUS, com ilustrações de Isabel Pires, hoje com traços e cores de Eva Furnari (Global, 1997). Brincando com a repetição e a divisão de umas poucas palavras, o autor não veio apenas falar de pássaros e outros bichos; ele solfeja ritmos e dialoga com a criança nos diferentes níveis da imaginação, dos afetos e dos valores que pretende despertar.


Nos últimos anos, tem sido grande a investidura em um discurso ecológico, solicitado pela Escola, e a própria poesia muitas vezes se repete nas aliterações e paronomásias exploradas no passado. Vamos ver e ouvir a nova informação literária?


FEIRA DAS AVES, de Jorge Fernando dos Santos e Cláudio Martins (Prumo, 2010), usa de rimas paralelas e traz um desabafo frente às gaiolas de um viveiro, despertando pena em gente e silêncio, tristeza, carranca e padecimento no passaredo aprisionado. O livro faz parte da coleção Natureza Viva e coube à ilustração um papel preponderante ao exibir vinte e duas aves coloridas, ainda que os traços de Cláudio Martins tendam para a estilização, como sempre, humanizando plantas e animais com olhares e expressões várias.




PASSARINHOS DO BRASIL: poemas que voam, de Lalau e Laurabeatriz (Petrópolis, 2013) apresenta-se às nossas mãos como um catálogo ilustrado de espécies que habitam os seis biomas brasileiros – pampas, mata atlântica, pantanal, cerrado, caatinga e floresta amazônica. O nome de cada ave funciona como o título de um texto muito breve, praticamente uma frase simples para as crianças não tropeçarem na linguagem, ao modo de slogans. É Laurabeatriz quem capricha nos detalhes ao retratar as particularidades de pássaros tão belos, quanto exóticos de nossa fauna.

7 de abril de 2013

macacos me abracem

peter o.sagae... escafedeu-se!


O que as pessoas não sabem é que já fui macaco. Não em outra vida, Deus me livre de acreditar numa coisas dessas... Foi mesmo no rádio, há vinte anos, enfrentando onça no meio do mato – e, no jogo estereofônico, ela de um lado, eu do outro, alertando que, logo, logo, ia dar a pior tempestade. Só mesmo se amarrando nas árvores com cordas e cipós, nó bem forte, pra vento não levar bicho ou gente voando pelos ares. Coisa terrível! Toda a família já estava amarrada, mas, se a comadre quisesse, arrumava corda para amarrá-la também. Ninguém podia imaginar quem era o macaco na caixa do alto-falante como, na fábula, dona onça mal desconfiou da verdadeira identidade do guri disfarçado de Bicho-Folharal.


Trocando macaco por gato, coelho, raposa, esta história universal tão ao gosto brasileiro do Bicho-Folhas, Folha-Seca ou Folharascal do Monte, já foi contada por muita gente africana, europeia, espanholeta, portuguesa, costa-riquenha, mexicana, chiquitita e panchita bacana... Constantemente reencontro o macaco esperto e extravagante nos livros, como O BICHO FOLHARAL, de Angela-Lago (Rocco, 2005), ou


DONA ONÇA É MUITO SONSA, de Maurício Veneza (Prumo, 2009). Nesta pequena coletânea de três fábulas, o ilustrador surpreende pelo contorno... das frases! O texto é extremamente agradável para leitura em voz alta, balançando o macaco bem humorado de fala em fala... Pula depressa o macaco pro galho, desmascarando onça que se fazia defunta: “Ué, vocês não sabem? Minha avó, quando morreu, deu três espirros. Só aí todo mundo teve garantia do falecimento.” Pula também depressa o gato que dá ares da graça na última narrativa do livro. Agora, quem gosta de texto com acentos ligeiros, vogais abertas, consoantes fortes, ritmo de baião com foxtrote e – além de tudo, pensa que é macaco na leitura para pular vírgulas, sem errar, nem tomar fôlego – você, meu amigo, minha amiga, não pode deixar de conhecer A ONÇA E A CABAÇA, de Daniela Chindler com ilustrações de Mariana Massarani (Paulinas, 1998). A confusão assim começa:

O macaco, que, cá entre nós, não é flor que se cheire, se meteu numa encrenca das boas. Foi mangar da onça, apoquentar-lhe o juízo a troco de nada, ou melhor, a troco de uma piada e umas boas gargalhadas. A onça estava lá, deitadinha, tomando a fresca, aproveitando a gostosura que é o final da tarde, quando apareceu o macaco com a cabeça cheia de ideias. Ele foi logo anunciando, para quem quisesse ouvir:

__ Dizem que sou pequeno, mas assanhado como o demo. Perturbo igual mosquito no ouvido de quem quer dormir. Atazano tanto quanto marido ciumento, incomodo mais que tachinha na cadeira. A ruindade é minha vocação. Adoro mexer em casa de marimbondo, jogar água em formigueiro e perturbar onça dorminhoca.

Depois, mirou bem miradinho e tum...




2 de abril de 2012

Andersen em cordel

Dobras da Leitura recebeu...


João Bosco de Bezerra Bonfim reconta O SOLDADINHO DE CHUMBO EM CORDEL e A PRINCESA E A ERVILHA EM CORDEL, sextilhas ilustradas por Laerte Silvino (Editora Prumo, 2009 e 2011).


31 de julho de 2011

a bola que passa tinindo...

peter o'sagae


Seria difícil escolher um livro que fosse um verdadeiro show de bola. No entanto, Hardy Guedes consegue por as palavras em campo para vencer – e convencer o leitor mais perna-de-pau a jogar no time da poesia. Com desenhos de Renato Moriconi, O BAILADO ESPORTIVO (Prumo, 2009) faz a bola e a rima rolarem terra, cimento, areia e gramado, descrevendo passes ousados e gols quase impossíveis, num clima de pura euforia. A ilustração é um drible em duas cores no movimento ligeiro da palavra com a imagem.


Como se faz gol de bicicleta?
Com Moriconi e Maurício Negro.


* Imagem extraída do [livro abaixo].

8 de junho de 2010

três vezes anna

Dobras da Leitura recebeu...

[textos condensados a partir de para-textos e divulgação]



DRAGA-MOR E DRAGUINHA, il. Rubem Filho (Zit Editora, 2009). Dois monstrinhos devoradores de comida podem viver escondidos em qualquer casa. Eles são terríveis e devoram tudo o que encontram. Mas será que eles são malvados? Ou só estão com muita fome?





O FADO PADRINHO, O BRUXO AFILHADO E OUTRAS COISINHAS MAIS, il. Tatiana Paiva (Prumo, 2009). Luar deseja se transformar em fado padrinho, afinal, quem decidiu que só meninas podem se tornar fadas madrinhas? Sua vontade de ajudar as pessoas é tanta que ele decide sair pelo mundo à procura de pessoas que estejam precisando de ajuda. Luar passa por muitas confusões até conseguir o seu primeiro afilhado!


O MENINO DAS ÁGUAS, A MENINA DOS VENTOS, il. Ricardo A. (Larousse, 2009). São tantas possibilidades de ser... Meio menino das águas, meio menina dos ventos como muitas crianças espalhadas por este mundo afora. Crianças que têm os olhos abertos para o deslumbramento do tempo. Quantas crianças cabem nesse menino das águas e nessa menina dos ventos?