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17 de dezembro de 2025

um catálogo de gestos

dobrasdaleitura | SIMPLESMENTE
Querida amiga, um dia nossas mãos se entrelaçaram e ouvi o silêncio que vinha de seu coração vaidoso, assustado, forte e intempestivo. Você me leu o destino nessas linhas que carregamos na própria palma... Não, não era você, era uma cigana de nome sonoro. Rimos. Porque talvez fosse o reencontro de outras vidas ou mesmo um desses jogos que inventamos para afastar o medo que habita o mundo e, de repente, vem e nos pega no colo.

Se existia muito antes essa espécie de amor, a devoção que se traduzia nos assuntos em torno dos livros para crianças, houve, naquele instante, a certeza de que seu sorriso era uma linguagem de longa data apreendida para nos curar. No lugar de Angela Lago, era possível vislumbrar outras psiques à beira da vertigem encantada pelo nascer, morrer, viver além das fronteiras comuns. Você, querida amiga, como quem escolhe dizer-se nau frágil, agora contudo evolui rumo ao sem limites.

Aguardarei notícias, claro – sei que os recados chegarão de imprevisto, assim que puder vir e contar alguma coisa do Eterno. Mas penso também: qual outro segredo você guardaria que não estivesse já nas histórias que recontou e desenhou, nos seus poemas e reflexões? Jamais deixarei de ouvir Bach sem ter o acompanhamento de suas imagens. E suas mãos agora celestiais, suas mãos me dirigem hoje a esta fotografia com sua figura tênue e tenaz, passageira entre os cânticos amáveis.

Também tenho palavras suas para compartilhar com outros amigos, minha amiga. Que possamos responder com alegria a esta viagem que é uma folha, uma abertura entre duas páginas. Simplesmente.

“Tenho a impressão que o conto O Livro de Areia, de Borges, adivinhou a Internet. Adivinhou também meu trabalho, que começa aos sete anos, assim que aprendo a escrever, e vai se transformando vida afora, sem nunca se concluir. Há uma beleza e um fascínio no livro de Borges que sei que não irei alcançar... Basta que ao final a folha se perca na floresta. Que é o melhor lugar para perder uma folha. E meu livro se perca na biblioteca que não termina.”

#umcatalogodegestos
80 anos de nascimento de Angela Lago
45 anos de histórias e livros ilustrados
poemas de ADMIRAR NÃO É SEGREDO

#angelalago
#B17DAC


28 de julho de 2015

voltas e revoltas

Dobras da Leitura, 47*


Nem sempre voltar para casa, depois de seis meses no hospital, é a melhor coisa da vida — ainda mais sabendo o que você já sabe e precisará enfrentar: os vizinhos, os parentes, os amigos dos amigos de seus pais e da escola também. Sim, os olhares curiosos, silenciosos e falantes! Seria ótimo evitar as visitas, seria ótimo evitar qualquer forma de exposição... Será mesmo que ninguém percebe, você não é mais a menina que costumava ser? Não, por fora — shit, shit, shit! Todos apenas olham a careca, mas não enxergam a diferença que vem por dentro.

Voltar para casa dói... Papai parece não entender que o carro deve ir mais depressa, pois Marina não ’tava com a mínima vontade de olhar a rua em câmara lenta, muito menos ver Sanya e Ivana brincando na praça – e ser vista igualmente por elas. Mamãe também jamais entende que seria melhor parar de andar pela casa com seus agasalhos ridículos e queimá-los urgentemente, porque isso não a deixa mais nova, e não entende nem uma palavra quando ouve Marina dizer: “Se você continuar babando em mim, vou acabar vomitando. Ou desmaiando. Ou as duas coisas ao mesmo tempo! E não me chame de ‘alminha’. É como se eu fosse um fantasma. Porque, como você pode ver, ainda estou viva!” E Darko... Darko precisa... Darko não precisava nem mesmo ter nascido para se achar o cara mais inteligente do mundo. Decididamente, Marina sente que não precisava voltar para casa.

Realmente, toda a família Bakaritch passa a viver em estado de alerta. A novela Pula-elástico, do croata Zoran Pongrašic, escrita em 2001 e que chegou a nós através do texto em francês, com tradução de Heitor Ferraz Mello (Edições SM, 2006), evidencia uma série literária que se descortina por temas delicados, situações-limites, textos fortes — e uma aposta na virtude curativa das palavras.

Depois do tratamento contra a leucemia e a experiência de pressentir a morte todos os dias, observando as camas da enfermaria amanhecerem com novos rostos ou simplesmente vazias, Marina está de volta à casa. Talvez Gvozden e Lyerka, seus pais, não consigam ainda pensar quanto a nova lição que se apresenta seja bastante simples, porque é preciso dar um passo adiante após a doença e ir à vida... Quais os desejos de uma menina de doze anos?

Marina naufraga, simplesmente naufraga sem uma imagem em que possa reconhecer-se diante do espelho e diante dos outros. Este é o verdadeiro centro dramático do texto, dividido em sete capítulos como são sete as etapas do jogo de pula-elástico: canelas, joelhos, quadris, cintura, costelas, axilas e céu. «É comovente, em Pula-elástico, a obstinação amorosa com que os pais evitam abordar o medo da morte com sua filha caçula.», escreve Maria Rita Kehl, no posfácio ao livro. «Mas, ao escolher conduzir sua novela a partir do ponto de vista de uma pré-adolescente furiosa com a inabilidade dos pais, Zoran Pongrašic desliza agilmente do comovente ao cômico.»

Assim, antes de oferecer um texto pesado pelo assunto de que trata, o autor estabelece uma narrativa que flui através de bons diálogos e mudanças precisas quanto à voz que domina o discurso. Ora é Marina, abrindo registros de seus sentimentos no diário, ora um narrador intruso capaz de assimilar a fúria e a ironia tão próprias da personagem.
Ela tinha a impressão de estar sentada numa sala de teatro cujas cortinas esqueceram de levantar e onde o espetáculo já havia começado. Dito de outra maneira, sentada no seu lugar, ela olhava para a porta do banheiro e escutava as vozes do outro lado.

TIO MITCHO: Gvosden, ainda tem ameixa?
BOYANA: Onde tá a Malina?
TIA ROUJA: Mitcho, deixe-os em paz.
BOYANA: Onde tá a Malina?
TIO MITCHO: Estou atrapalhando? O que você acha, Lyerka?
BOYANA: Onde tá a Malina?
MAMÃE: Não, não, jamais! Claro que você não está atrapalhando ninguém!
PAPAI: Imagina.
DARKO: Prefiro não dizer o que penso.
BOYANA: Onde tá a Malina?
TIO MITCHO: Mas, realmente, onde ela está?
DARKO: E se você tentar adivinhar?
(Pausa prolongada)
* Texto apresentado no site Dobras da Leitura, Ano VII n. 43 (março de 2007). Pertencem também à coleção “Estado de Alerta”, os títulos Se até as árvores morrem, de Jeanne Benameur, As duas mães de Mila, de Clara Vidal, e O desafio, de Marie Leymarie.

22 de outubro de 2017

SIMPLESMENTE



Querida amiga,
um dia nossas mãos se entrelaçaram e ouvi o silêncio que vinha de seu coração vaidoso, assustado, forte e intempestivo. Você me leu o destino nessas linhas que carregamos na própria palma... Não, não era você, era uma cigana de nome sonoro. Rimos. Talvez fosse o reencontro de outras vidas ou mesmo um desses jogos que inventamos para afastar o medo que habita o mundo e, de repente, vem e nos pega no colo.

Se existia muito antes essa espécie de amor, uma devoção que se traduzia nos assuntos em torno dos livros para crianças, houve, naquele instante, a certeza de que seu sorriso era uma linguagem de longa data apreendida para nos curar. No lugar de Angela Lago, era possível vislumbrar outras psiques à beira da vertigem encantada pelo nascer, morrer, viver além das fronteiras comuns. Você, querida amiga, como quem escolheu dizer-se nau frágil, agora contudo evolui rumo ao sem limites.

Aguardarei notícias, claro – sei que os recados chegarão de imprevisto, assim que puder vir e contar alguma coisa do eterno. Mas penso também: qual outro segredo você guardaria que não estivesse já nas histórias que recontou e desenhou, nos seus poemas e reflexões? Jamais deixarei de ouvir Bach sem ter o acompanhamento de suas imagens. E suas mãos celestiais, suas mãos me dirigem hoje a esta fotografia com sua figura tênue e tenaz, passageira entre cânticos amáveis.

Também tenho palavras suas para compartilhar com outros amigos, minha amiga. Que possamos responder com alegria a esta viagem que é uma folha, uma abertura entre duas páginas. Simplesmente.

“Tenho a impressão que o conto “O Livro de Areia”, de Borges, adivinhou a Internet. Adivinhou também meu trabalho, que começa aos sete anos, assim que aprendo a escrever, e vai se transformando vida afora, sem nunca se concluir. Há uma beleza e um fascínio no livro de Borges que sei que não irei alcançar... Basta que ao final a folha se perca na floresta. Que é o melhor lugar para perder uma folha. E meu livro se perca na biblioteca que não termina.”

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* Foto de Angela Lago (17 de dezembro de 1945 - 22 de outubro de 2017) durante a abertura da exposição Linhas de Histórias, realizada no Sesc Belenzinho, em São Paulo, 12 de julho de 2011.

** O depoimento da autora, quase sempre desejando ser breve ao falar de si e de seu trabalho, tomei em entrevista em 2014 para introduzir o artigo “O livro ilustrado, uma invenção que nunca termina”, reunindo três outros textos seus.

14 de abril de 2016

a leitura, simplesmente

O’ABRE ASPAS


I

“Para além das dificuldades de percurso em nosso país, de um mercado editorial ainda deficitário e muitas vezes perverso com seus livros caros, poucas livrarias e raras bibliotecas de verdade; para além, ainda, das políticas às vezes equivocadas, muito além mesmo, está este desejo de servir e de ser útil ao que deveria ser óbvio: divulgar os benefícios de uma prática muito elementar: a leitura, simplesmente.” (Suzana Vargas) LEITURA: UMA APRENDIZAGEM DE PRAZER, fevereiro 2009 p. 17

II

“Ler literatura significa ler a vida, e não se pode aprisionar a vida entre metáforas e metonímias, classificações de narradores ou de personagens, estilos de época etc. Descobrir que leitura de prosa ou de poesia é conhecimento da vida e significa perceber, por meio da ficção, nossa história e o que o homem pode formular em torno disso tudo. Significa também descobrir a linguagem do imaginário e seu poder transformador, de como nos diria Roland Barthes, descobrir a margem móvel do texto, o retorno da cultura por meio dele.” (Suzana Vargas) LEITURA: UMA APRENDIZAGEM DE PRAZER, 2009 pp. 42-43.

III

“O entendimento da ficção requer também a compreensão da história lida como um todo. Essa compreensão exige uma prática já um tanto esquecida, mas muito comum no meu tempo de escola: o resumo. Os resumos me parecem importantes na medida em que, com eles, posso reduzir a narrativa a sua unidade mínima e, com isso, mostrar a simplicidade dos enredos. Chegamos, dessa forma, a diversas conclusões e entre elas a uma descoberta essencial: o que importa na narrativa é o que nos é revelado durante o tempo de narração.” (Suzana Vargas) LEITURA: UMA APRENDIZAGEM DE PRAZER, 2009 pp. 53-54.

*

14 de janeiro de 2015

dentro da alma

O’ABRE ASPAS, crônica com poesia


Eu gostava de pensar como sou corajoso, nos finais de tarde. O céu vinha cinza carregado de nuvens e vento e logo caíam uns pingos grossos, de tanto em tanto, duros e gelados. Tocavam os meninos a correr. Até hoje o som de trovoada me agrada como o som de uma artilharia de água do Céu contra a Terra, eu estava lá... Talvez fosse emboscada, tão certa quanto a hora de buscar o cavalo. Ainda o vejo. Um tordilho velho com a pelagem branca, cinzenta, manchada, as quatro pernas negras. Ele era a própria imagem da Tempestade.

Alguns anos depois, quando lia os versos de Henriqueta Lisboa que, por todas as letras do seu nome só poderia ser uma pessoa antiga o bastante, me intrigava pensar se escrevia conhecendo-me. Ela tinha a resposta que eu daria em casa...

“Eu não sou feito de açúcar
para derreter na chuva.
Eu tenho força nas pernas
para lutar contra o vento!”


Sei que versos são imagens, cadência e pensamentos que passam dentro da gente, e essa leveza cor de chumbo, assim que a chuva chega batendo o tropel, leva-me para longe. Abandono as leituras com alegria. Já não sei como resenhar. O granizo desce no verão.

Atrelo assim a vontade às palavras de Renata Farhat Borges, apresentando a mais recente edição de O MENINO POETA, com 66 poemas, prefácio de Bartolomeu Campos de Queirós e um estudo em pós da poeta chilena Gabriela Mistral. Para colecionadores de todas as idades.
 Em 1941, Henriqueta Lisboa, poeta mineira com quem Mário de Andrade manteve uma de suas mais ricas correspondências, recebe do modernista uma carta, pela qual esperou por dois meses, com o seguinte comentário: “são simplesmente um encanto pros ouvidos, pros olhos, pro corpo todo. O menino poeta, isso achei maravilha integral”.

Os versos a que Mário se refere, aqui reunidos em edição especial, foram publicados pela primeira vez em 1943 e marcaram para sempre a história da literatura infanto-juvenil no Brasil. Embora, como definidos pelo próprio modernista, não sejam feitos para criança nem tampouco versos interessados, os poemas milagrosos em ritmo, melodia e encantamento coincidem com a imagem da infância, cheias de pureza, cristalinidade, alegria, melancolia leve, graça e sonho acordado.

São poemas da plenitude da poeta, que encantam a todo leitor, de qualquer idade.

A obra foi apreciada por escritores contemporâneos da autora e pelas gerações seguintes, crianças, jovens e adultos que, como Mário de Andrade, encontraram na poesia de Henriqueta Lisboa acalento para o menino poeta que mora e brinca dentro da alma.

Murilo Mendes, logo após a leitura do livro publicado, assim escreveu a Henriqueta: “O menino Murilo gostou muito dele”. Que o seu menino se encante também.

Um novo ano + poético para você, com
Henriqueta Lisboa, O menino poeta: obra completa
Ilustrações de Nelson Cruz (Peirópolis, 2008).

15 de março de 2013

guardo segredo ou faço uma postagem?

Três ideias visuais que se apresentam


Pode uma imagem resenhar um livro de imagem ou, ao menos, desenhar seu perfil? Tentemos um diálogo quase mudo, à boca pequena. A extensão da fofoca: “Gossip”, de Norman Rockwell, na capa da revista The Saturday Evening Post, 6 de março de 1948. Afinal,


Foi em fevereiro de 2006... Tânia Piacentini presenteou os amigos do site Dobras da Leitura (Ano VI, n.30) com um artigo e o cartaz-publicitário do jornal Leia, apresentando uma galeria de autores em secretas conversas. Em sua coluna Alinhavos, explicava a amiga da Barca dos Livros, na nota de rodapé: “O cartaz está emoldurado na parede de meu escritório-biblioteca e muitos exemplares, encadernados, me trazem de volta pessoas, artigos, fotos e fatos, discussões, teorias e fofocas, vidas, a vida literária do país e do mundo. Retrato ainda vívido e substancial da cultura do fim da década de 70 e grande parte dos anos 80.” – Cultura também se fofoca.


Então, o livro de imagem de Renato Moriconi em parceira com Ilan Brenman, TELEFONE SEM FIO (Companhia das Letrinhas, 2011). Pintura ou argumento? Para cada um desenhar suas próprias relações...

Pode uma sequência de imagens resenhar um livro?

***

P.S.1. Das mais curiosas lições para escrever uma rádio-ficção, aprendi que não é importante revelar os segredos de um personagem: basta simplesmente contar ou indicar que uma pessoa os tem a fim de despertar o interesse da audiência. Com Harri Huhtamäki (YLE), 1994.

P.S.2. Você aí viu García-Marquez, Kafka, Borges, Clarice Lispector, Brecht, Shakespeare, Mário de Andrade, Simone de Beauvoir, Pessoa, Joyce, Beccket, Proust, Amado, Ernest Hemingway, Doris Lessing, M. Duras, Sartre e... novamente o Gabriel?

8 de março de 2013

ciranda dos bichos

Três livros de May Shuravel


Já é quase madrugada.
Não há mais ninguém na rua, 
nem mesmo pra ver a lua, 
que está só e abandonada. 

Sem querer ficar sozinha, 
ela entra, lentamente, 
pelo vidro transparente 
da janela da cozinha.


Os livros da antiga coleção Viola Quebrada voam para cima de minha mesa e as páginas vão se abrindo lentamente, nesse ritmo cobalto, para fazer sonhar e cantar a memória das cantigas de roda. Eis um rato desafinado que passa atrás de um pedaço de pão bolorento, fazendo coro com três formigas: “A barata diz que tem/ sete saias de filó...” A lagartixa estica a língua e cantarola: “A barata diz que tem/ um anel de formatura...”


Pouco a pouco, a casa se enche de muita música!

Pois esta era a proposta de May Shuravel, ao criar uma delicada moldura narrativa para cantigas tradicionais brasileiras. A coleção publicada originalmente nas Paulinas, em 2000, passou a integrar o catálogo da Salamandra como Ciranda dos Bichos, em 2005. Cada livro apresenta uma história inventada pela escritora e ilustradora, mais a letra e a partitura da respectiva cantiga. Além de É MENTIRA DA BARATA!, o pequeno leitor e ouvinte pode conhecer a ladainha da gatinha parda “que em janeiro me fugiu” com o livro CADÊ MARICOTA? Você sabe, você sabe, você viu?


Tem também O PAPO DO SAPO que conta e encanta sofrimentos do verde cururu na beira do rio. Num bonito espelhamento entre gente e bicho, vai segredando o narrador:

Não é frio que o sapo sente
quando solta o vozeirão. 
Ele canta, simplesmente, 
porque sente solidão. 

Quem sente frio é Seu Bento, 
sem casaco nem sapato, 
cantando, ali ao relento, 
a moda maluca do sapo. 

Josefina, na janela, 
escutando a cantoria, 
logo, logo, desconfia 
que alguém canta pra ela.


Ó, maninha, May Shuravel... Quanta rima singela, rima rica, intercalada, que vai da mesa à porta e à janela, vai à lua, Argentina, Rio de Janeiro, Fortaleza e já volta nos brincos da intertextualidade. E a resenha assim termina, com licença, andando eu vou...

11 de maio de 2010

da Terra do Nunca para nunca esquecer

por Peter O’Sagae



O primeiro Peter Pan veio-me através de um pequeno livro que comprei por reembolso postal: era um reconto RECONTO de Paulo Mendes Campos, a partir do original de James Mattheu Barrie (Ediouro, 1972). Depois de outros voos, incluindo a ADAPTAÇÃO de Monteiro Lobato, o último pouso: na edição em capa dura, com as ilustrações de Eric Kincaid (1990) e a TRADUÇÃO de Dinah de Abreu Azevedo (Edições Loyola, 1995). Além do tilintar de asas na Terra do Nunca, interessam-me os flagrantes da metalinguagem e seus jogos, pouco ou jamais explorados numa leitura crítica do texto que migrou do roteiro teatral (1904) para a narrativa em prosa (1911).

É exemplo curioso todo o capítulo 11 — “A história de Wendy” que resume, sob o ponto de vista da menina, a própria história de PETER AND WENDY — porém, apagando o companheiro no relato de suas aventuras, pois ela não invoca o nome do menino como personagem nesta versão particular. “Vejam vocês”, explicita Wendy aos pequenos ouvintes a seus pés, “a heroína dessa história sabia que sua mãe deixaria a janela do quarto sempre aberta para as crianças poderem entrar, quando voassem de volta.” Em sua própria narração, Wendy faz um interessante convite a todos: “— Vamos dar uma espiadinha no futuro... E quem é essa linda senhora que vemos descendo do trem na estação de Londres?” Simplesmente, revela a menina, é ela mesma.

Na mesma cena, o diálogo de Wendy com os meninos perdidos é um indicativo da consciência que o pequeno grupo tem sobre o fato de serem apenas personagens e como cada um sente a necessidade de reconhecer-se através de um nome, em meio às aventuras, garantindo a própria mágica da existência. “Wendy, um dos meninos perdidos”, vai perguntando Caladinho, “era chamado de Caladinho?” Sim, responde carinhosamente a narradora, claro que sim. “Estou numa história, estou numa história!”, grita excitado o pequeno — de fato: ele não mais se encontrava perdido na criativa trama da escritura.

A questão do nome também é importante para o Capitão Gancho não se confundir totalmente com um bacalhau — embora aí entre mais uma das brincadeiras de Peter. Na lagoa das sereias, próximo à Pedra dos Abandonados, o aparvalhado pirata nem pisca, quando Pan imita sua voz e afirma ser James Hook, o verdadeiro Gancho. “Se você é o Capitão Gancho, quem sou eu?” Enxugando o suor da testa, sem enxergar a si mesmo e sem o testemunho de seus homens inteiramente calados a respeito de sua identidade, ele sente a desconfiança de começar a enlouquecer, “que o Capitão Gancho estava abandonando o Capitão Gancho”, que o papel que acreditava desempenhar abandonava seu próprio ser — tão inesperadamente roubado lhe foi o nome por uma estranha voz. Ao final da tensa brincadeira de adivinhação, Peter Pan grita Pan! Peter Pan! num estampido de ataque, e o Capitão Gancho pode tornar-se, outra vez, quem era.

21 de abril de 2016

poemas e paisagens

Peter O'Sagae


Angela Leite de Souza escreve e ilustra poemas e paisagens que tem conduzido o leitor de todas as idades a breves visões de nossa História, paralelamente a um dedicado resgate de brinquedos falados e poesia de tradição oral. Após cinco anos de pesquisa, trabalho com as palavras, com bordados e colagem em tecido, surgiu o livro UM VERSO A CADA PASSO (2009). Vamos espiar e ouvir, além do mar de ondas azuis, dos minérios e das águas preciosas das montanhas, os versos que homenageiam a cidade e o patrono cívico que percorreu outros caminhos, em procissão, em uma manhã de 1792. 
“Se alguém fala
em Tiradentes,
o pensamento
já vem rimado:
foi um valente
inconfidente
foi um soldado
que simplesmente
tinha o desejo urgente
de libertar sua gente.
...............................”

* * *
Saiba mais...
<> O passado e os nossos dias

29 de julho de 2020

a ema e outras cabeças de pássaros

Há duas semanas uma ave marrom-acinzentada, a ema – também chamada nandu ou xuri – tornou-se o símbolo de nossa brasilidade reprimida. Foi na tarde de 13 de julho: rejeitando agrados, a Rhea americana bicou o homem que ninguém (com um mínimo de discernimento) já não engole mais. Bicou, bicou bonito.

De outro lado, quarentenava comigo outra linha de pensamento a respeito dos gêneros narrativos mais apropriados para o ambiente emocional em que vivemos – uma reflexão incerta que nasceu após tomar parte do júri de um concurso literário. Que histórias desejamos retirar do passado, quais outras propor no presente e, afinal, o que esperamos lembrar no futuro? Temos agora necessidade de realismo ou visões românticas, contos curtos ou novelas que nos enredem, anedotas ou ditirambos? Ainda que não seja minha intenção compartilhar as breves escolhas a que cheguei intimamente, digo que a fábula aparenta ser um dos gêneros mais fortalecidos e favoráveis para o momento.


Arrisco-me a pensar como a fábula foi um gênero que nasceu letrado e fortuitamente imiscuiu-se às tradições orais e anônimas, talvez porque simplesmente um ouvido e outro mais capturaram a breve forma de narração e sem dificuldades a transmitiram de viva voz e orelhadas a outrem... Gênero narrativo em que a linguagem se dobra sobre si mesma, articulando divertimento e uso prático, elementos da ficção e a autenticação de conselhos sobre a experiência e o previsível, a fábula exige, graças às vozes de animais em seu discurso, ler a aparência e a essência, o dito e o não-dito, a intenção e o que denominamos acaso, a perda e o ganho. É tanto um gênero verbal quanto visual que administra a fala e o gesto; a autoridade de uma fábula se dilui em fabliaux, uma forma da poesia narrativa francesa medieval que escapa ao didático-moralizante, mas jamais menos moral ou instrutivo! Mas a fábula também é tableau, uma alegoria, uma imagem do pensamento. O espírito da coisa, eu dizia nas aulas, é mesclar em seu genes o que é da crônica e da fotografia como nós conhecemos talvez com maior proximidade.


Podemos sempre discutir o que é a verdade ao longo da história da evolução humana, desde a mais alta antiguidade, presos que estamos nas múltiplas malhas de fazer corresponder os fatos e o discurso sobre os fatos. Este é o problema comum a muitas tradições filosóficas que fizeram uso do conceito travestido em imagem. Veja só, mesmo a identidade de um dos mais importantes sábios e sacerdotes no Egito, tal era Thoth, vivendo por volta de 2,500 a.C. não escaparia, após a morte, à confabulação de seu legado em uma divina imagem animal.

Eterno escriba dos deuses, portador da verdade, Thoth mostra-se com cabeça de íbis no panteão do tempo dos faraós. A ele eram atribuídas as invenções da geometria e da astronomia, e particularmente o poder de cura. Às ciências abstratas e às ciências da observação, entre os filósofos do passado, ligava-se o domínio da medicina. Todas essas matérias pertenciam a Thoth e ele teria afirmado: “O homem nada sabe, mas é chamado a tudo conhecer.”

Da cabeça de Thoth, nossa memória pode carregar séculos e repensar se um signo religioso ou filosófico pode ou não estar na remota raiz das fábulas, convertendo-se em usos novos, signo político, signo estético e finalmente signo utilitário em diferentes épocas.

Vejamos isto: as colagens de Max Ernst.


A vida de um artista equivale à sua obra, como um recorte de seu sistema de pensamento, uma dobra de fala e imagens na ilusão de que podemos “abocanhar” o todo por uma parte? Ora, ora, se abrirmos a Wikipédia, nos deparamos com dados biográficos do autor de UNE SEMAINE DE BONTÉ (1934).

Max Ernst, aos 25 anos, fora convocado para lutar na Primeira Guerra Mundial pelo serviço militar alemão. O horror à guerra faria o artista escrever: “Max Ernst morreu em 1º de agosto de 1914. Ressuscitou em 11 de novembro de 1918, na forma de um rapaz que queria ser mágico e pretendia descobrir os mitos de seu tempo”. Torna-se assim curioso seu processo de despersonalização através do discurso, colocando-se na terceira pessoa, deslocando a si mesmo para o campo das coisas-que-se-vê: é impossível ao homem reconhecer-se como sujeito em uma realidade caótica. Esta é sua crítica.

Também através da arte, Ernst tornou intenso o seu fascínio por pássaros. Em algumas pinturas, ele apresenta um alter ego sob o nome LopLop e chegou mesmo a sugerir que este personagem pictográfico era uma extensão de si mesmo, a partir de uma confusão entre aves e humanos em sua infância: Max Ernst conta que, numa noite, acordou e descobriu que seu querido pássaro havia morrido; alguns minutos depois, seu pai anunciava que sua irmã havia nascido! Afinal, onde nos encontramos e encontramos nossos rostos?


Voei livremente dos livros para crianças para o surrealismo prenhe de dadá e ao passado que invento para as fábulas como fórmulas mágicas de cura. E tenho em mãos um poema de Maria Elena Walsh (1964), com boa tradução de Gláucia de Souza e as iluminações de Angela Lago, em ZOO LOUCO (Projeto, 2011)
Caso as Cobras fossem tão gabolas,
se usassem calças, luvas, cartolas
e lenços de seda feitos
não haveria jeito:
ficariam tão feias como outrora.

A redução da fábula à forma do limerique não diminui o desnudamento do homem sob a máscara animal. Ao virar a página, encontro um comentário visual sobre nossos hábitos que extrapola em alguns decibéis a escuta do poema. A narrativa é clara; a crítica necessária é nutritiva de leituras como a gema de um ovo, uma novidade renovada.


Em outro livro, as contradições humanas são evitadas desde o ninho. Com o texto verbal de Ana Rosa Costa e as ilustrações de Odilon Moraes, CASA DE PASSARINHO (Positivo, 2018) promove um reforço à vida organizada e amena, por todos os cômodos da imaginação.



Da provocação da arte ao signo utilitário da literatura em prosa e imagens, a realidade da fábula permite pequenos reflexos, grandes reflexões. E o acaso-sem-esforço me traz um parágrafo do manifesto dadá 1918
*** Toda obra de pintura ou plástica é inútil; que ela seja um monstro que faça medo aos espíritos servis, e não adocicada para adornar os refeitórios dos animais com roupas humanas, ilustrações desta triste fábula da humanidade.
Fragmento extraído do livro organizado por Gilberto Mendonça Teles: VANGUARDA EUROPEIA E MODERNISMO BRASILEIRO (1975, 17.ed. Vozes, 2002) p. 140 e destas e outras cabeças de aves e pássaros, eu volto a ema e a memefacção da fábula.



3 de setembro de 2014

a lição dos mares

Peter o.O'Sagae


“... hoje, apresenta-se uma bela oportunidade de vos contar, a todos vós, as minhas sete viagens”, disse generosamente o marujo Simbad aos convivas de sua casa e, com especial atenção, ao outro mercador, o que ainda não se fez aos mares: “não vos arrependereis de ouvir-me, porquanto há nelas, além de seus aspectos maravilhosos, uma lição de audácia e uma lição de fé no destino dos homens.”

Tais palavras recorto do prólogo da adaptação de Alaíde Lisboa de Oliveira para SIMBAD, O MARUJO, uma edição para o leitor juvenil como se nota pelo contorno e a extensão do texto, com ilustrações de Angelo Abu (Peirópolis, 2014), quando comparada à proposta de Quentin Gréban: SIMBÁ, O MARUJO, com texto adaptado por Gudule (a escritora belga Anne Duguël) e a tradução de Ricardo Lísias (Pequena Zahar, 2014).

A velha narrativa do século X já fora considerada parte de As mil e uma noite, após as artimanhas literárias de Antoine Galland, especialista em numismática, manuscritos e línguas orientais que viveu entre 1646-1715. Mas é um fato que a história de Sindbad, Simbad ou simplesmente Simbá, possui uma organização particular para ser considerada uma obra autônoma, sob a tríplice chave de um maravilhoso romance de aventuras, uma novela formativa sobre os valores que os jovens devem herdar dos mais sábios ou uma espécie de conto mágico possuidor de ensinamentos a respeito do esforço rumo ao trabalho, à autonomia, ao descanso e à liberdade existencial do espírito.

Sob a proteção do onipotente Allah, acompanhamos como o velho marujo conduziu sua vida, constituiu fortuna e coloca-se finalmente na direção do outro, seus conterrâneos. Encontramos, na cena de enunciação de suas aventuras, o bem mais precioso que Sindbad pode e sabe compartilhar perante o mais pobre que passou debaixo de sua janela lamentando o destino: a palavra que dinamiza a compreensão sobre as coisas do mundo.



Em algumas versões, como o mercador marítimo, também o mercador terrestre é chamado Sindbad – mas Alaíde Lisboa preferiu dar-lhe o nome de Himbad. Entre os dois personagens, há um evidente espelhismo, imagem e reflexo, entre o passado de uma condição pouco próspera de onde partira o marujo e a futura bem aventurança a ser objetivada pelo mísero ouvinte. Essa e outras dobras da leitura podem ser abertas a partir de traduções ou versões que resgatam os diálogos, por vezes, longos e intrincados do texto original...

Com a suave aquarela de Quentin Gréban, flagra-se uma narração para leitores principiantes como um resumo informativo sobre as proezas do herói. Assim começa a adaptação: “Todas as noites, quando o sol se põe sobre Bagdá, um senhor de barbas brancas conta a seus hóspedes, sentados diante de um jantar suntuoso, as viagens de sua juventude. Ele se chama Simbá e viveu aventuras impressionantes pelos sete mares e os cinco continentes. Você quer conhecê-las? Então, faça silêncio. Aproxime-se na ponta dos pés, sente-se perto e escute.” Na mesma página, a ilustração representa o leitor implícito do texto – eis, lá, um menino que espia a janela, furtivamente...

11 de abril de 2013

simplesmente: que beleza!

peter o’sagae


Mais que comentar livros, aprecio respirá-los aos poucos. Em silêncio, acredite, olhando para as dobras sutis da palavra e da imagem. Um livro sempre pode ser uma casa, ensinou Walter Crane (1896). Do pensamento e da visão. É preciso completar. Também do riso, como nesta fábula visual mágica e séria, elegante e infantil: O GRANDE LIVRO DOS RETRATOS DE ANIMAIS, de Svjetlan Junaković, pintor, designer e escultor croata, traduzido por Marcos Bagno (Positivo e OQO, 2010). Para leitores de qualquer idade, sem dúvida.


Porque não há nada mais afeito à criança que essa desobediência... principalmente, se não há preceptores por perto! E Junaković convida-nos para um passeio aos velhos mestres da pintura, entre eles, holandeses, flamingos, ops! flamengos, venezianos, franceses, alemães... Abra uma página qualquer. Aprecie, sem mediação. Acompanhe as legendas, a descrição das poses e dos detalhes das roupas, as relações possíveis entre os personagens e seus retratistas, cada comentário sobre a importância desse conjunto de vinte e seis obras para os historiadores. Uma dúvida é por que pintar, outra é a necessidade de saber o que há para jantar.


E pode ser que você descubra algo encantador ou estranho ali se elevando, ironicamente, fazendo curvar suas sobrancelhas. Todos os retratos olham firmes o seu próprio espectador, num jogo de símbolos, ambições, delicadezas entre o gótico escuro e o efeito luminoso. Que os escritores mais famosos ou menos famosos deveriam entender. Os ilustradores também. Afinal, a lição da arte é para todos, sem distinção. Mas, diferentemente ecoa. Um livro belo e leve.


“A semelhança que pode ser encontrada com alguns dos mais famosos retratos da espécie humana é puro acaso.” (Svjetlan Junaković)


As pinturas d’O GRANDE LIVRO DOS RETRATOS DE ANIMAIS espalham-se pela [internet], mas exigem suas legendas e comentários para chegarmos mais perto da irreverência de Svjetlan Junaković, repaginando a história da arte, dos campos, estábulos e galinheiros.

2 de junho de 2009

Ler e ver o que sei por ouvir dizer...




SEI POR OUVIR DIZER
Bartolomeu Campos de Queirós
il. Suppa (Edelbra, 2007)



Bartolomeu vem contar o interessante caso de uma mulher com três nascimentos, consigo vivendo sempre três diferentes possibilidades, como sorrir de forma intrigante por três ângulos distintos de seu rosto único, ou morar na terra do ontem, na vila do hoje e na capital do amanhã. Três e bons eram seus aniversários que aconteciam no dia de são nunca, no feriado de nossa senhora do sempre e no dia da mentira.

É também Bartô autor narrador quem se divide nos papéis de inventor, ouvinte e crítico da própria escritura criação sugestão. Teria sido simplesmente por não-ter-nada-para-fazer que o fizera pensar na existência de tão enigmática senhora? Talvez sim... Mas os vizinhos alertam — em especial, o senhor Trindade — que ela ali chegara, num mês sem semanas e fizeram por bem construir uma casa três vezes pequena, numa ilha chamada Tríplice...

Tirando-nos assim daqui — rumo a lugares onde a crônica vira sonho, Bartolomeu Campos de Queirós desalinha de invenção um cotidiano diáfano, frágil com vidro e lentes de cristal. Pois é para sentir e para pensar que a mulher deixa-lhe três pares de óculos: um para ver o perto, outro para ver o longe e o terceiro para procurar os dois. O narrador ainda garoto os usa, depois os perde — quem agora poderá descobri-los?


O livro intercala páginas ilustradas e duplas-páginas só imagem — a ilustração de Suppa, intervalando a prosa poética, dá tempo pra fazer suspiro e pegar de volta o pensamento perdido, nuns matizes de sensação bem fauvista nalgumas figuras que poderiam ser mais Matisse para desalinhar o leitor com o mesmo feitio que o novelo verbal.

« Senti pesar. É que muitas coisas que estavam perto, eu queria que continuassem perto. Não gostava de óculos que me roubavam preciosos bens: gato, cachorro, vaga-lume, a doce formiga, a melada abelha e as saudades do ontem. É que saudade só existe quando o tempo foi bom... Eu guardava tantas saudades. »