26 de junho de 2009

Na inspiração dos primeiros tempos


Ziraldo
O menino mais bonito do mundo
Melhoramentos, 1983

ISBN 9788506000144
25,8 x 20,5 cm 32p.


Um olho que é sol — por isso, simultaneamente ilumina e reflete tudo aquilo que olha... A capa do livro de Ziraldo evolve leituras dentro de nós a fim de buscarmos histórias entre os mitos gregos. Lá, na beira dos tempos primevos, o deus-sol Hélio, filho do titã Hipérion, o que contempla do alto, era também conhecido como aquele que tudo vê — o verdadeiro olho do mundo, testemunha de todas as histórias. A evocação talvez pareça algo distante da narrativa que logo se inicia: “Era uma vez uma noite que não acabava mais. E era uma vez um menino que ainda dormia quando a manhã finalmente nasceu.”

Em uma cantilena cheia de poesia, Ziraldo confia ao leitor sua maneira de contar a gênese do olhar, tão logo fora concluída a Criação do Mundo. O menino desperta e olha tudo com admiração: as árvores e as flores, o mar roncando e as montanhas dividindo o horizonte, a natureza diurna e as estrelas do primeiro céu. Ao mesmo tempo, tudo observa o menino e não se cansa de repetir: — Como você é bonito! E mesmo passando os anos, e mesmo tornando-se homem, o menino continua o primeiro de todos, ouvindo a grata alegria que o mundo revela em vê-lo como o mais bonito.
Por ser o primeiro, o homem termina por sentir-se imensamente só... Até o dia em que seus olhos encontram outra forma de beleza e o começo de uma nova história.

O projeto gráfico de Ziraldo divide o livro em dois momentos: dois olhares em movimento cinematográfico que acompanham o salto que o texto faz da infância para a vida adulta do menino. Inicialmente, as páginas realizam um zoom out sobre a paisagem desenhada por Apoena Horta Medina, com 9 anos à época de feitura da obra. Na segunda parte do livro, surgem três óleos sobre tela de Sami Mattar que representam o sol recortado pelos galhos das árvores (a mesma paisagem descoberta anteriormente), um entardecer com as cores do outono e a aparição da primeira mulher.

Para prender o olhar e aprendermos a olhar o livro ilustrado de literatura para crianças, O menino mais bonito do mundo traz, na última virada de página, um consciente jogo de complementaridade palavra&imagem. Talvez fossem dispensáveis algumas linhas finais, pois a significação se completa e expande-se inteiramente com a imagem que funde a memória de duas narrativas — a Gênese bíblica e a cosmogonia pagã — na visão de uma nova Eva-Vênus.

Um comentário:

  1. Admiro Ziraldo por este e alguns outros livros.
    Ficou ótimo o seu novo espaço.
    Abraços

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Seguidores