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15 de outubro de 2021

o papão tem muitos nomes

dobrasdaleitura | O papão tem muitos nomes no livro de Marcus Accioly: GURIATÃ, UM CORDEL PARA MENINO (1979), bicho-monstro, papa-figo, parente de lobisomen e outros mais tão diferentes, porém todos como um só correndo atrás do herói e do leitor pra devorar coisas e gentes, sonhos e infâncias. Com as xilogravuras de José Cavalcanti e Ferreira (Dila) e os ritmos ricos da poesia nordestina, no canto L desta aventura de Sucram para encontrar o amigo-irmão Leunam, damos de ouvido com estas belas rimas abraçadas ABBA que vão se inverter lá no final BAAB, como tem que nossa própria sorte virar, quando esbarramos com o genial Caga-Grosso que deve assim ser desafiado e enfrentado:
Existe um menino
lá dentro do poço,
Bicho Caga-Grosso
você caga-fino,
hoje bate o sino
de cair no chão,
você come amargo
mas eu não o largo
seu Bicho-Papão.

Um menino canta
dentro de um surrão,
conheço a canção
que já se levanta
(ai, que mágoa tanta
no seu coração!)
Seu Bicho-Papão
você hoje estanca
contra a folha branca
deste meu facão.

16 de fevereiro de 2021

sonhos que necessitam de um reparo



Domingo eu tava lendo CASA DE CONSERTOS, de Eloí Bocheco @eloibocheco, com os mágicos diálogos da menina Olímpia com diferentes pessoas, país afora, ao telefone. São pessoas sem rostos, mas sonhos que necessitam de um reparo e continuidade, uma vez que as histórias de vida, neste enredo, são do mesmo entremeio e substância de antigos brinquedos a serem resgatados do abandono e da solidão.

Noite, Ninfa, Primo, uma galinha dos ovos de ouro, um trem de brinquedo com uma misteriosa porta emperrada, bonecas e personagens literárias aqui e ali se confundem com versos, autores e o amplo remédio da palavra que conserta o sentido de nossas existências. Livro que relembra outros livros, diferentes abrigos e moradas, recitando poesia na medida de cada dia, fala ou freguês, ilustrado com colagens digitais, por Walther Moreira Santos (Melhoramentos, 2012).

19 de abril de 2016

lá está, naro gambá!

Comunidade Dobras da Leitura


Ciça Fittipaldi há muito tempo vem trabalhando com uma linguagem inspirada na expressão gráfica dos povos indígenas, tendo realizado inicialmente uma série de desenhos e recontos em oito livros para coleção Morená (1986-1988). Do especial convívio com a cultura yanomami, o exemplo de NARO, O GAMBÁ que preserva em ritmo-palavra e imagem o sabor mágico tradicional.
“Já estou vendo, está lá, o Gambá! Se esconde nas raízes das árvores. De gente, vira bicho, gambá debaixo das folhas secas. Agora é gente de novo, corre por um descampado... O medo faz o gambá voar. Crescem as penas rapidamente, toma altura. Olhem como voa! Não é mais que um ponto minúsculo lá em cima! Pica-Pau subia mais alto na árvore: – Desapareceu!... Apareceu de novo, um pontinho no céu. Entrou na toca do tatu. Saiu. Uma pedra o esconde... Lá está ele, vai se desviando para a Serra do Trovão. Sentou lá em cima... acho que vai ficar por lá... Não! Já se levantou! Pica-Pau tava nas pontas dos pés, no galho mais alto. Esticava o pescoço: – Lá está, Naro Gambá! A caminho do Morro Quebra-Facão. Vai parar... Lá tem uma pedra enorme, muito dura de quebrar!” 
Pela importância de sua obra, a artista já recebeu vários prêmios nacionais, como o selo Altamente Recomendável, da FNLIJ, o Prêmio Jabuti, APCA e o Prêmio Bienal de São Paulo, além de candidata ao Hans Christian Andersen em 1996 e 2016.

Viva Ciça, viva Ciça Fittipaldi!


* * *
Veja abaixo a postagem AS MUITAS TABAS DE CIÇA

as muitas tabas de ciça

Extraído de Resumo do Cenário, 19 de abril.2009




Ilustrações de NARO, O GAMBÁ (mito dos índios yanomami), O MENINO E A FLAUTA (nambiquara), A LENDA DO GUARANÁ (sateré-maué) e A LINGUAGEM DOS PÁSSAROS  (kamaiurá), respectivamente. Outros títulos da coleção: SUBIDA PRO CÉU (bororo), BACURAU DORME NO CHÃO (tucano), TAINÁ, ESTRELA AMANTE (karajá) e A ÁRVORE DO MUNDO E OUTROS FEITOS DE MACUNAÍMA (macuxi, wapixana, taulipang e arekuná).


Nas páginas pares, Ciça Fittipaldi usou imagens em sua função informativa (que descobrimos ao ler as notas no final de cada livro da série Morena). Acima, a representação de costumes dos Sateré-Maué: a festa da Tocandira de iniciação dos meninos à vida adulta, dançando com luvas de palha cheias de formigas e o beneficiamento do fruto do guaraná para transformá-lo em uma bebida, o çapó.



4 de dezembro de 2015

tem texto leve

No Instagram


Tudo que é belo, ardente e temeroso parece vir do céu, como o sol, a lua, um lampejo, os temporais e os anjos também... Muitas perguntas dançam do pensamento ao verso que Leo Cunha iluminou sobre o papel, numa delicada chuva de descobertas que caem ludicamente dentro da aquarela de Cris Eich. A MENINA E O CÉU #editoraftd (2014) #litetaturainfantil #poesia #leocunha #criseich


Tem texto leve. Não faltam histórias aos poetas, mas talvez uma preguiça venha até eles e deixem escapar os personagens através do vento, como o esboço de um enredo que jamais vai encontrar o final da escrita. Para onde vão? Essas histórias, conta Xan López Dominguez, há muito tempo vivem em sua lembrança... MINHAS HISTÓRIAS PERDIDAS #editoramelhoramentos (2011) #prosapoetica #xanlopez


Tem texto leve. Porém, longo. Tal como são as percepções, quando adentram a memória de Pê. E o vasto mundo que ele descobriu. Ainda na infância, ainda rio. Dono de afetos e árvores que ele mesmo redescobre. Em cada palavra e lance do coração desbravado em imagens, repetições, nomes e o desafio de ser o ser... PÊ E O VASTO MUNDO #editorapositivo (2014) #prosapoetica #pauloventurelli #fereshtehnajafi

18 de junho de 2015

por aí flui, por aí voltei

Quando o carteiro chegou... leituras risonhas 2


Há tanto tempo tento ler um livro para crianças de Cyro de Mattos, mas confesso: desisto a meio caminho, volto atrás, volto ao livro, persisto, insisto, volto às primeiras páginas, enrolo-me depois em outros afazeres. Um livro contava a história de um boi, outro tinha a capa verde e a palavra roda no título. Ora, bois, ora roda, têm tudo a ver comigo, e gosto também do estilo, um trabalho consistente com a linguagem, aí nenhum problema. Ou o problema, porque a voz do texto como a música guarda uma tonalidade, um ritmo. Ambos os textos não me convenciam como literatura infantil. Eram canções de velho. Para leitores velhos, como também sou.

Abro hoje O QUE EU VI POR AÍ, sim de Cyro de Mattos, com ilustrações da polonesa Marta Ignerska e o projeto gráfico de Monique Sena (Biruta, 2014), e sinto-me um pouco mais em paz. A voz do texto é igualmente mansa e soa como um convite às horas de contemplação, assim que o sol acorda, com seu olho enorme, onde o céu faz uma curva e vai empurrando as sombras, inventando leões rugindo nas ondas com suas jubas brancas... Sim, respinga, no rendilhado dessa prosa poética, um olhar de criança que, como o sol, pode se admirar no espelho que ele mesmo espalha na imensidão do mar.

Sim, a descrição do amanhecer não é um objeto novo na estante de meus livros. Nem a apreciação das nuvens que rolam acima, transformando-se. Mas existe, no entanto, uma necessidade de aprender a observar a natureza de uma maneira descompromissada, sem o agito do cotidiano. E talvez a lição comece durante a infância, ou no amanhecer de um dia.


Cyro de Mattos passeia do horizonte à mata, à chuva da tarde, às figuras da noite. Formas e formigas enfileiram-se em seu texto que soa, enfim, como uma oração que exalta a vida, incansável, de flores e insetos, cores e aves, água e pedras em uma correnteza de imagens. Olhar as belezas do mundo faz lembrar outros textos, como O MENINO MAIS BONITO DO MUNDO, de Ziraldo (1983). Porém aqui a narrativa mítica cede lugar às cenas engraçadas, quando o olhar contemplativo de menino assume a proposição de imagens imaginadas e lembranças: um jogador anão no meio do campo fazendo um gol no goleiro grandão, uma velhinha (que não assobia) mas chupa cana com um dente só, palhaços, presepadas, uma macaca (que não é caixeira de uma venda) mas faz toda a família dormir...


Desde a capa do livro, já se anunciava a posição de expectador de um grande cinema. O que há de diferente é a sugestão da criança narrar e também editar seu próprio filme, após a aprendizagem das coisas simples, leves e engraçadas. Tudo isso explica as ilustrações de Ignerska, as figuras de muitos braços e olhos que povoam as páginas do livro, sempre em movimento. Apenas o projeto gráfico poderia ser mais suave, claro e aberto à intervenção dos leitores. Os mais novos, não eu. Sempre em movimento.

* * *


P.S. Também Manuel Filho possui um livro com título bastante parecido:  
O que vi por aí: andanças e descobertas de um escritor pelo Brasil, il. Marcello Araujo (Arvoredo, 2013) para jovens leitores, que eu vi por aí, dia 1º de julho. Foto: Patrícia Machado/Facebook.

13 de março de 2014

deram os peixes a voar

O.O Sagae: Ilutrações Comparadas

O peixe do poeta se pescava com palavras dentro d’água, morria afogado no ar. Também ele dizia em verdade e prosa: “Um dia na vida de um peixe dá para viver muita coisa.” Não sei quando, em que rio onde, deram os peixes a voar pela imaginação que jamais adormece nas páginas dos livros ilustrados para crianças. Olhos são mesmo peixinhos. Do dentro de meninos e meninas agora escorrem os cardumes em algo de céu e calabouço. É tempo de melancolia.


Ilustração de Alicia Baladan realizada em 2011 para CÉU MENINO, do poeta italiano Alessandro Riccioni (Pulo do Gato, 2013).


Thais Beltrame para BENJAMIN, POEMA COM DESENHOS E MÚSICAS, narrativa de Biagio D’Angelo (Melhoramentos, 2011). [saiba+]
 

Alexandre Rampazo nas ilustrações para CAIXINHA DE GUARDAR O TEMPO, de Alessandra Roscoe (Gaivota, 2013). [saiba+]

21 de outubro de 2013

canto para uma cor só

Peter O’Sagae


No mesmo ano em que chegava para todos a imagem crispada do primeiro homem a pisar na lua, partia para lá uma cor sem par, nem pátria. Uma cor chamada Flicts, diferente e extravagante, sem a força do Vermelho, a luz do Amarelo ou a paz do Azul, uma cor que ninguém quer na caixa dos lápis de cor, nas brincadeiras da primavera, após a chuva, nas bandeiras... Aflito, triste e feio, tão só, mas cheio de it, Flicts desiste da realidade que o repele e vai subindo, sumindo, subindo, sumindo... até que a lua tornou-se toda flicts!

Lançado em 1969, o livro de Ziraldo recebeu comentários de Carlos Drummond de Andrade a Nelly Novaes Coelho que, a despeito da colorida beleza gráfica, não viu o endereçamento da obra para crianças, mas um texto de simplicidade enigmática para jovens e adultos. Uma alegoria, talvez, presa ao contexto de uma época: o narrador diz tudo o que Flicts não é, e parece-se muito com alguém que se viu e partiu num rabo de foguete, isto é, com todas as dificuldades para cumprir algo a que estava programado ou prometido.


Em outras leituras, já tentamos ser convencidos a respeito da paráfrase sobre Andersen e o Patinho Feio, tão triste e sofredor quanto Flicts. Contudo, no final, uma contradição frente ao conto do escritor dinamarquês: se o patinho ascende e voa, ao descobrir sua verdadeira natureza de cisne, com a afirmação da convivência entre iguais, Flicts vai subindo e sumindo rumo ao isolamento fantástico sobre si mesmo, à negação da convivência entre iguais... Ora, esta não é, não seria uma mensagem oportuna ou muito otimista para o público infantil, com uma imagem valorativa tão voltada para si mesmo, centrada e centralizadora, que a velha (e boa) pedagogia esforça-se por modificar. O simbolismo da lua é muito bonito e mágico, em diversas culturas, tanto representa o inatingível, quanto o admirável – e o satélite lá no alto, sozinho e insondável para o comum das pessoas. Mas... Oh, lua no golfão de cismas e solipsismo!


No entanto, ‘inda ontem, um detalhe necessário do texto novamente se apresentou: Flicts transforma-se em flicts, de personagem a uma coisa ou qualidade, ao duplo it que nos é permitido reconhecer nos exercícios de leitura. E, se queremos Andersen, ao modo das comparações imperfeitas, a Andersen havemos de recorrer mais uma vez:

“..., com olhar triste, ela fitou o príncipe, e depois atirou-se do navio ao mar, sentindo como seu corpo se desfazia em espuma. 

“O sol ergueu-se sobre o mar. Seus raios quentes caíram sobre a espuma. A pequena sereia não sentia a morte. Viu o sol claro, e, a voar por cima dela, centenas de formosas e diáfanas criaturas. Através delas, a sereia viu as velas brancas do barco e as rubras nuvens do céu. As vozes daquelas criaturas soavam como lindas melodias, mas nenhum olho humano podia ver quem cantava. Sem asas, eram tão leves que esvoaçavam no espaço. A pequena sereia percebeu então que seu corpo era como o delas, a elevar-se cada vez mais da espuma. 

“– Para onde vou? – perguntou ela.”


P.S.1 Sim, a postagem anterior me inspira a retomar o tema da postura solipsista dentro da produção literária para crianças; deveríamos diferenciar os estados de solidão dolorosa, contemplativa ou voluntária que alguns personagens sofrem como acossamento ou acabam por impor a si mesmos como busca de beleza ou desprendimento dos motivos de sua aflição.

P.S.2 A lua e as demais cores de Ziraldo reverberam na ilustração de André Neves: a capa é flicts, mas levo o olhar atento para o guarda-chuva. São as recorrências que permitem reconhecer as imagens ou representações, umas nas outras, como emblemas ou estigmas da literatura para crianças.

P.S.3 A tradução de “A pequena sereia” por Guttorm Hanssen, com a revisão estilística de Herberto Sales, do livro Contos de Andersen (Paz e Terra, 1978).

29 de março de 2012

se a bondade cultivar

peter o ;-)sagae


Muitos autores de literatura infantil ainda buscam definir seus personagens pela ação direta e inúmeros diálogos, ao recriarem o que acreditam ser o modo e o mundo da criança. Nada disso, porém, é necessário a Biagio D’Angelo que dá vida calma a um menino que já não podia jogar futebol, polícia e ladrão, nem pular carnaval... Com paz e canções de berço, ele mesmo parece viver somente lá, entre as palavras, onde o leitor é obrigado a adivinhar desenhos e música, espera de fazer adulto, escola, terremotos, serenidade...

Narrado em primeira pessoa, o escritor e seu personagem (con)fundem-se poeticamente. Afinal, quem é o autor dessas memórias ou invenções? É Benjamin, ou um menino que não se chama Benjamin e, um dia, descobriu “as chuvas que estavam atrás de poucas letras” de seu nome? Biagio, Bóris, Bernardo, Baltazar, Bento... Quem é este menino de estranhas estações, quando o vento traz aulas, já entrando abril e professoras: umas velhas são quase sempre, têm olhos de alguém que nunca dormiu, nem sonhou: trocam o nome dos meninos e jamais se importam... outras, o menino ainda não conheceu.

No ritmo das palavras que tocam as coisas, as pessoas, as distâncias, o mundo do menino é todo feito de colecionar sentimentos, pressentimentos. Um dia, uma catástrofe longe trouxe para perto Rosália, um presente de gente, a sobrinha de um pintor famoso, só podia ser, ela também sabia desenhar e sabia explicar como fazer. E o que o menino gostava era fazer barcos por onde mares e histórias Rosália inventava. E como os desenhos, a vida revela coisas novas e inesperadas, separações, certas revelações. Quando é mesmo que uma imagem esconde um som?


BENJAMIN, POEMA COM DESENHOS E MÚSICAS, de Biagio D’Angelo, é uma narrativa ilustrada por Thais Beltrame (Melhoramentos, 2011). Delicados traços, brancos amplos para respirar, bico de pena fazendo poesia sobre o que há de mais invisível e seus devaneios: peixinhos pelas páginas, pequenos, em passeio, passarinhando. No ar, no chão. Do conforto do piano, da ponte que extrema as saudades, do alçapão que se abre não se sabe para onde... E, constante, o vermelho dentro do contorno preciso. Uma beleza comandada pela confissão do narrador, em toda a sua pertinência palavra&imagem: “O meu irmão, ainda um pouco sem juízo, esparramava, por brincadeira, nos meus desenhos a geleia de morango de que ele (e eu também) tanto gostava. Era um toque escarlate no desenho. Bem, na verdade, eu não gostava, mas era o meu irmão menor, me fazia rir com aquilo, e, portanto, o que fazer?”

7 de fevereiro de 2011

e a chave caiu-lhe das mãos...

por Peter O'Sagae



“Tingindo de azul a barba do protagonista, Perrault intensificou o horror provocado por sua aparência. Barba Azul é representado como um homem contrário à natureza, seja quando sua barba se tinge como a de um luxurioso oriental, ou quando ganha um volume monstruoso sem que ele recorra a artifícios. A cor azul, a cor da profundeza ambígua, ao mesmo tempo do céu e do abismo, codifica o caráter terrível de Barba Azul, de sua casa e de seus atos.” Escreve Marina Warner: DA FERA À LOIRA (1999: 276).


Moças graciosas motejam de Barba-Azul, que tem olhos de desejo e tristeza, na perspectiva do ilustrador polonês Janusz Grabianski. Dupla página do livro CONTOS DE PERRAULT, trad. Maria José U. Alves de Lima (Melhoramentos, 1970).



Oito dias de festa, passeios, caçadas e pescaria, danças e boa comida... Ninguém lá dormia, e as noites todas transcorriam entre brincadeiras. Aos olhos da jovem, a barba do homem já não parecia tão azul — a convivência é uma chave igualmente. Traços ligeiros a nanquim, cores empastadas, fortes, como manchas indeléveis sobre o papel. Arte de Zaü para O BARBA-AZUL, de Charles Perrault, com tradução de Hildegard Feist (Companhia das Letrinhas, 2009).




Por que há sangue nesta chave? Sob o olhar cortante de Barba Azul, a jovem perde suas cores no emaranhado de não ter uma resposta para dar. Formas exuberantes, tons saturados, rosto pálido, o antagonismo representado pelos personagens ocupando páginas opostas: detalhe da ilustração de Claudia Scatamacchia para O BARBA AZUL, traduzido do original francês por Tatiana Belinky (Kuarup, 1987).

26 de junho de 2009

na inspiração dos primeiros tempos



Um olho que é sol ilumina e simultaneamente reflete tudo aquilo que olha: a capa do livro de Ziraldo, O MENINO MAIS BONITO DO MUNDO (Melhoramentos, 1983), evolve leituras dentro de nós a fim de buscarmos histórias na beira dos tempos primeiros... Entre os mitos gregos, Hélio, o Sol, filho de Hipérion, que contempla do alto, era também conhecido como aquele que tudo vê — o verdadeiro olho do mundo, testemunha de todos os feitos humanos singulares dos mais prosaicos ao mais heroicos atos. Talvez a evocação soe algo distante da narrativa contida neste livro, talvez... “Era uma vez uma noite que não acabava mais. E era uma vez um menino que ainda dormia quando a manhã finalmente nasceu.”

Em uma cantilena cheia de poesia, Ziraldo confia ao leitor sua maneira de contar a gênese do olhar, tão logo fora concluída a Criação do Mundo. O menino desperta e olha o mundo, pela primeira vez, com grande admiração: as árvores e as flores, o mar roncando e as montanhas dividindo o horizonte, a natureza diurna e as estrelas do céu. Ao mesmo tempo, tudo observa o menino e repete: — Como você é bonito! Passando os anos e tornando-se homem, este menino continua o primeiro de todos, ouvindo a grata alegria que o mundo revela em vê-lo como o mais bonito. Porque é o primeiro, o homem termina por sentir-se fatalmente só... Porém, em outra manhã, seus olhos encontram e contemplam outra forma de beleza, a primeira mulher, e vê, ao lado dela, o começo de uma nova história.


O projeto gráfico da obra divide o livro em duas seções que buscam assinalar o olhar do menino e o olhar do adulto. Inicialmente, as páginas realizam um zoom out sobre uma paisagem desenhada por Apoena Horta Medina, com 9 anos à época de feitura do livro. Na segunda parte do livro, surgem três óleos sobre tela de Sami Mattar que representam o sol recortado pelos galhos das árvores (a mesma paisagem descoberta anteriormente), um entardecer com as cores do outono e a aparição da mulher.


Para aprendermos a olhar o livro ilustrado de literatura para crianças, O MENINO MAIS BONITO DO MUNDO traz, na última virada de página, um jogo de complementaridade entre a palavra e a imagem. Talvez fossem dispensáveis as linhas finais, pois a significação se completa e expande-se inteiramente com a ilustração que funde a memória de duas narrativas — a Gênese bíblica e a cosmogonia pagã — na visão de Eva-Vênus.



Arte de Samir Mattar para O menino mais bonito do mundo, de Ziraldo.


* Revisto em 03/01/2018.