14 de junho de 2009

Quando a aurora torna-se gris


Nilma Lacerda
il. Rui de Oliveira
Pena de ganso 

DCL, 2005

ISBN 9788536800530
144p.


Estefânia viajou a Portugal para vender as terrinhas que recebera de herança. Fora grávida e voltava com a filha nos braços. A pequena Aurora nasceu no mar, sob a desconfiança de que não veria a luz do outro dia. Daí veio-lhe o nome numa tentativa de contrariar a própria sorte... E triunfará sobre o primeiro desafio que a vida lhe impunha, não sem seqüelas. Pena de ganso, de Nilma Lacerda, principia por contar a vida da menina Aurora, desde quando se habituou a entender-se como gente, silenciosamente observando os irmãos Péricles e Augusto irem para a escola, voltando depois e completando horas de lição sobre os cadernos e os livros. Mas, para Aurora a vida era toda dentro de casa, só quintal e cozinha, ajudando a mãe nos trabalhos de cuidar das galinhas, recolher os ovos, vender dúzias, regar couves e dálias, descascar batatas para o almoço e o jantar. O pai era um homem batalhador e, um dia, os filhos homens seriam doutores. No quintal, Estevão cantava orgulhoso e bicava forte, Moleque sarneava uma companhia fiel... E era assim completa, simples e ordenada a vida daquela família.

Por ser menina, Aurora não podia ir à escola como os irmãos: era a regra. Mas a prima Isolina ia. É que os tios não tinham outros filhos com quem se preocupar. E o primo Gastão, que tem doze anos, por que não vai? Pois seu pai tem a fábrica e ele precisa ajudar. Mas, e ela mesma: por que não poderia ir também? Porque tinha os deveres domésticos e aqueles ataques pavorosos, um ponto escuro no olho apagando o mundo, a língua enrolando, poderia sufocar... Era preciso ser assim, era preciso viver ao pé da mãe.

A duras penas, ela há de escrever Eu sou Aurora — num desejo só, forte feito tudo, a movimentar o delicado romance de Nilma Lacerda que resgata, com extrema emoção, o plural das casas, dos costumes e das tramas familiares em uma época em que criança não partilhava as conversas entre adultos, em fins da década de 1920, no Rio de Janeiro. A textualidade transborda vozes e o enredo é então perpassado por diversos planos, como bem soa e sói acontecer à literatura inventiva: refluem e cruzam-se a memória particular de cada personagem junto à memória histórica sobre a resistência da escrita — a leitura, a caligrafia, o pensamento escapando-refugiando-se do dedo ao papel, ao bordado, também à tela digital...

A linha do tempo é assim uma sobreposição, um novelo de coincidências e sonhos. E, entre esses fios, a narradora habilmente projeta-se na escrita literária, ultrapassando as barreiras da ilusão e do afastamento com a matéria que narra. Evidentemente, não é Aurora quem poderia narrar-se, nem mesmo a velha Casemira, nem Nilma: o que aqui se lançou é a cerda de um mistério, pena de ganso ao branco do papel, como nova cor, "carinho de vida no canto escuro da alma".

Os antigos consideravam a pertinência como uma qualidade de semelhança — e esta relação, quem dirá, alquímica entre o texto e a ilustração, é plena: Rui de Oliveira utilizou lápis litográfico, grafite e crayon para representar a aspereza da qual emergem os sonhos de Aurora. Muitas imagens são desdobradas em trípticos ou mais páginas, dramaticamente revelando cenas.

Nenhum episódio vem sobrar à leitura, somente uma esperança: por Aurora e nossa própria necessidade de querer continuar, querer mais: capítulos que uma carência íntima pede — e só podemos intuir.

Ilustração extraída de www.ruideoliveira.com.br

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