2 de outubro de 2009

o silêncio e canto inestimável

por Peter O'Sagae


Um livro de imagem nem sempre narra uma história; poderá ser um portfolio de ilustrações, tal como mostra Taisa Borges ao rememorar um velho conto de H.C. Andersen: O rouxinol e o imperador (Peirópolis, 2005). Suas experiências, nas artes plásticas e na criação de estamparia têxtil, habilitam-na a sugerir cenas com riqueza de padrões coloridos, decoração farta e elementos figurativos sobrepostos, auxiliada pelos recursos e recortes da computação gráfica. Contudo, as cenas que Taisa ilustra pedem que o leitor tenha conhecimento prévio da história sobre um imperador, donos de largas terras e um imenso jardim que se confundia com as florestas e chegava até as franjas do mar. Longe de seus olhos e de seu coração, apenas os mais simples pescadores conheciam o canto de um inestimável pássaro, um pardacento rouxinol.

Nesse livro, notas e claves musicais são projetados do bico do pássaro por todos os quadros, atravessando páginas e transformando-se em flutuantes mensagens escritas na forma de ideogramas. O texto de Andersen revela que, somente através de notícias do estrangeiro, o poderoso imperador tomou conhecimento da existência do sonoro rouxinol e fortemente o desejou para si. Contudo, ninguém em seu palácio, fosse nobre, fosse conselheiro, ou qualquer outro cortesão, sabia de seu paradeiro. Apenas uma simples e jovem cozinheira o ouvira cantar...


Para os pequenos leitores talvez seja impossível adivinhar a trama que une o verdadeiro pássaro ao rouxinol mecânico, com penas de ouro e cravejado de pedrarias que o imperador recebe de presente — pois o livro de imagem de Taisa Borges não apresenta a continuidade de uma ação à outra; entre os quadros, um intervalo extenso se interpõe. O livro assemelha-se ao tradicional ‘kamishibai’, uma modalidade de entretenimento em que contadores profissionais ou missionários budistas narravam histórias e fábulas a partir de desenhos, previamente feitos, apresentados em pranchas com o texto escrito no verso, a uma platéia de populares, entre adultos e crianças. Depois da década de 1920, as folhas ilustradas do ‘kamishibai’ foram recuperadas por vendedores ambulantes de doces e também por agentes de ensino, como estratégia para garantir-lhes a venda e a atenção do público infantil. Para nós, a relação palavra&imagem, aí perpassada da voz aos ouvidos e dos desenhos aos olhos, caracteriza O rouxinol e o imperador como um livro de ilustrações que procede do texto verbalmente escrito e a ele retorna.

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