21 de maio de 2010

Insone com(o) Alice

por Peter O’Sagae

Longos cílios e lágrimas se confundem num traço líquido; escuro é o contorno dos lábios frágeis e nervosos — e as olheiras da loura Alice são belas e lilases, nas surpreendentes ilustrações de Camille Rose Garcia. Sem dúvida, um visual gótico e algo subversivo (que) rejuvenesce Alice e faz igualmente reviver o clima expresso pelo título original da obra de Lewis Carroll, conforme o manuscrito de 1862 — ‘Alice in underground’, Alice no submundo, em um lugar clandestino, secreto, pessoal e oculto que se tornaria o país das maravilhas na primeira edição impressa.

E a forma e a força das imagens de Camille Rose Garcia enterram, de vez, ou desterram as representações edulcoradas de Alice, como uma crítica às convenções de beleza, corroendo os símbolos da puerilidade que, diferentes vezes, nos vestem os olhos. A artista degenera os signos mais usuais à qualidade de índice, descobrindo-os, num quê de nostalgia, nas cores que o tempo ou o próprio sonho esmaeceu.

Tal como a personagem parece enxergar a paisagem subterrânea e seus incomuns moradores, o leitor aí se depara com uma figuração constantemente insone.

Lewis Carroll
trad. Tatiana Belinky
Alice no país das maravilhas
ilustrado por Camille Rose Garcia
Saraiva, 2010

ISBN 9788502095311
160p.


Numa caprichosa edição, o livro imita um volume que tem envelhecido, pouco a pouco, mas ainda resiste, com o papel que se deixa oxidar e vem amarelando desde a borda das páginas. Ao texto integral, nenhuma gota, mancha, nada atinge — e chega-nos em uma tradução enxuta de Tatiana Belinky.

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