18 de dezembro de 2014

cinquenta e cinco

Dezembro, tempo diverso


Leitura e memória, poesia e política. Um livro de capa branca. O título e o desenho em traços pretos simples, a expressão de tristeza no rosto de duas crianças, o nome de Bertolt Brecht e, antigos, outros versos me sopram o afeto de uma esperança, ecoam e ricocheteiam das páginas de outro livro para este agora...
Pequena caixinha que carreguei quando em fuga
Para que suas válvulas não pifassem,
Que levei de casa para o navio e o trem
Para que os meus inimigos continuassem a falar-me
Perto de minha cama, e para a angústia minha,
As últimas palavras da noite e as primeiras da manhã
Sobre suas vitórias e sobre meus problemas
– Prometa-me não ficar muda, de repente.
De repente, a leitura adiante impõe uma certa acústica e uma inquietação: o texto presente terá os mesmos encanto e silêncio a serem percebidos a cada linha percorrida?


Polônia, ano de trinta e nove. As cidades eram só chamas e rumores de uma estranha história. Tropas de crianças nas ruas, pequeninos retratos com frio.
Escapavam às batalhas
e deixavam a dor pra trás,
desejavam só descanso
num país cheio de paz.

Havia um pequeno chefe
que animá-los bem queria,
porém algo o preocupava:
o caminho não sabia.

Procurando um lugar entre os lugares desolados e perigosos, na neve infinita, ora marchando contra o vento, a fome, ora aprendendo as lições de caligrafia, todo dia a lição da amizade, ia o bando dos cinquenta e cinco pequeninos atrás de uma cidade sem bombas aonde ninguém sabia. Tarra-ta-ta-tá, o solitário som da caixa alta do tambor. Incansavelmente, eles, sempre com medo...
Quando fecho os meus olhos,
vejo-os perambular,
vagando de sítio em sítio
sem nenhum auxílio achar.

A partir da ascensão e o domínio do nazismo na Alemanha, em 1933, Bertolt Brecht viu-se obrigado a percorrer outros países. Embora fugindo aos perseguidores, o poeta e dramaturgo sempre escreveu seus textos como uma expressão de resistência e esperança. O contorno de suas palavras claramente testemunhou a crueldade, as injustiças, a dor, porém com acentuada ternura pelos pobres, infelizes, soldados mortos, viúvas e órfãos da guerra, e todos os demais abandonados em uma trajetória sem casa, sem descanso.

A cada página, o livro impõe o encanto e um silêncio a serem percebidos: certa vida percorre duplamente voz e imagem. É o presente mesmo que segue adiante, sem indicações seguras, apenas vibração, um golpe de vista... O poema narrativo A CRUZADA DAS CRIANÇAS apareceu publicado pela primeira vez em 1948 e foi acolhido pela ilustradora espanhola Carme Solé Vendrell, em um projeto bastante pessoal em 2011. Bertolt Brecht, assim, hoje ainda, poderá cativar novos leitores, por sua força, beleza e simplicidade. Por que somos pequeninos. Necessariamente.


Um novo ano + poético para você: 2015
com A CRUZADA DAS CRIANÇAS, de Bertolt Brecht
trad. Tercio Redondo, il. Carme Solé Vendrell
(Pulo do Gato, 2014).

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