13 de dezembro de 2014

coisas íntimas, segredos

Dezembro, tempo diverso


O final do ano trouxe-me três oportunidades para reler Augusto dos Anjos. Poeta inclassificável – para muitos dos estudiosos em história e crítica literária, não teria ele pertencido a nenhuma escola ou movimento artístico, dizem. Talvez bem pouco interesse o poeta alimentasse em fazer-se junto aos simbolistas ou parnasianos de ocasião, enquanto podia observar – inequívoco em seu modo – a carne podre dos versos e dos próprios homens.

Poeta da dor, afirmam, poeta da consciência da morte, Augusto proparoxítono, exagerado nas hipérboles, científico, filosófico, Augusto publicou um único livro, em 1912, com o título singular – Eu – reunindo textos que, anos antes, circulavam pelos jornais, familiares e colegas do liceu, faculdade e magistério... Augusto criou um lírico-eu, mais das vezes, escatológico, aos olhos de uns, porém, renovador, portanto.

Uma exposição bem aqui perto onde moro – Esdrúxulo! 100 anos da morte de Augusto de Campos, na Casa das Rosas, em São Paulo, evoca a leitura do espanto, do verme, do espírito pessimista, da boca que beija, véspera do escarro. Em diferentes espaços do pavimento térreo do casarão, a sala dedicada à cronologia do poeta é cenograficamente oclusa e preta, com letras e algumas figuras brancas – talvez, para atrair jovens leitores, alunos de cursinho – com uma byroniana rosa vermelha de gosto acetinado e veludo duvidoso. Vale, no entanto, dar um passo adiante, conhecer pela primeira vez ou reler seus versos provocativos.


As outras oportunidades para ter o poeta mais próximo, chegaram através de dois livros. Neide Medeiros Santos escreveu Era uma vez menino chamado Augusto (Ideia, 2014) e conta que, atrás da casa-grande do engenho onde nasceu o menino, havia um pé de tamarindo. No final do dia, embaixo da árvore, Augusto lia seus livros prediletos. “Gostava de ler, principalmente, poesia. Seu pai adquiriu alguns livros de poetas portugueses, entre eles o ‘Romanceiro’, de Almeida Garret, e o livro de poesia ‘Só’, de Antônio Nobre.”

Em quatro breves capítulos, a autora registrou a infância no Engenho Pau d’Arco, a juventude e os estudos em Recife, as andanças ao Rio de Janeiro na idade adulta e, por fim, o magistério exercido em Leopoldina, MG – um retrato “falado” do mestre memorável com o depoimento de seus alunos e outros contemporâneos. O que vai ganhando contorno é também uma faceta doméstica, religiosa, amigável e até mesmo singela da pessoa que foi Augusto de Anjos. O livro apresenta nove ilustrações de Tônio, em páginas solteiras, intercaladas ao longo do texto.


Neide Medeiros Santos também me presenteou com Eu e outras poesias, em uma edição especial preparada pela Academia Paraibana de Letras em convênio com a editora do Senado Federal, para a qual ela elaborou um roteiro de leitura com alguns poemas de Augusto de Anjos (MVC, 2014). “Este livro”, comemora Neide, “será adotado no Estado da Paraíba e destinado aos alunos de ensino médio das escolas públicas. Procurei fazer um trabalho interdisciplinar, fugindo dos padrões que aparecem nos livros didáticos. A música e a pintura estão presentes nesse roteiro de leitura. Minha intenção foi levar o aluno a sentir a poesia de Augusto dos Anjos sem preocupação com a gramática e com o literário. É ler e sentir.”


Poeta da vulnerabilidade, sinto Augusto dos Anjos assim, poeta dos afagos íntegros que não se completam, que se desejam completos, da sombra que passeia com suas memórias. Orgânico, ontológico...
“Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem...”
Em diálogo com as correntes do pensamento materialista e a metafísica, um homem híbrido, asperamente transcendental, era também – apesar do vocabulário, linguagem e temas, um poeta popular, envolvido nas próprias questões do ser e do existir. Que sabia a si próprio eterno, quando pegou do espelho em seus últimos momentos e olhando sua última imagem, exclamou: “Esta centelha que não se apaga jamais.”

AO LUAR

Quando, à noite, o Infinito se levanta
À luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha táctil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o espaço com a minha plenitude!

Um novo ano + poético para você,
2015 com o centenário Augusto dos Anjos!

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