11 de dezembro de 2014

o vento é sempre bom

Dezembro, tempo de verso


Não me canso de dobrar os ouvidos sobre as Cantigas de ninar vento, de Gláucia de Souza, um livro com ilustrações de Cristina Biazetto, acompanhado de um disco com quinze faixas musicadas por Jorge Hermann (Kalligráphos, 2004*, Paulus, 2007). Não me canso, porque elas me chegam sempre novas!


Sabemos que sons, imagens, palavras são. Signos luminosos, e Gláucia de Souza trova brinquedos, doçuras, tristezas, e retrata a tradição em muitos versos ao modo das redondilhas em sete sílabas. Às vezes um pouco mais, às vezes menos, a forma vem livre. Livre no sabor doce-fácil, e vai brincando, trovando vai. Suas imagens brotam de uma inspiração em azul como a claridade e as cordas que tangem a noite, o dia, o céu, entre castelos e mosteiros, nos caminhos maravilhosos de um sonho...


A cantiga-título diz: para ninar vento que corre, uma trança de cabelo voando a mil e um lugares: quem poderá assim capturar o vento para dormir? Na página, um imenso pássaro com penas cor de fogo a carregar uma menina tal qual Rapunzel. Vai ela agora firme às asas, a longa trança laçando a distância e a vencer trovoada. Alegre – lá, lá... Gláucia de Souza reinventa príncipes e princesas de nosso imaginário, um tempo de acalanto, senhas e sinais, Cristina Biazetto cria reflexos bons de olhar, tomando dos voos e dos movimentos que todos guardamos no baú da memória.
“Cantiga quase sem som”

Tua voz correu lá fora,
bem em dia de virada.
Quase que ela não demora
a fugir da chuvarada...

Tua voz correndo ao longe,
não se ouve quase nada.
Parece prece de monge,
surda, leve, demorada...

Tua voz no meu ouvido
fica rouca, abafada...
Mas só nunca que eu duvido
dessa voz em mel lavada...

Trovar é assim. Trovar é encontrar uma ideia, inventar, criar. E a linha do desenho encontra a linha da melodia: os poemas tão logo nasceram, foram acolhidos no feitio de uma roda, entre cantigas de amor e de amigo, cantigas de ninar e ronda ao modo medieval. Suave é a cantiga da partida, com afetos e desejos de mãe. Em um verso, encontro um anel mágico, é a benção para a viagem que irrompe neste barco de papel, galante e musical entre a viola e o violino, bandolim, piccolo, cello, um arguto oboé, a serena flauta e uma festiva percussão, deixando bailar as vozes do barítono, um tenor, a jovem soprano e também o mezzo-soprano... Jorge Herrmann compôs gostosas melodias, Marcelo Nadruz trovou atmosferas em seus arranjos medievais. Vale a pena ler-ver-ouvir. Encantamentos para o ano inteiro.

* Dobras da Leitura 22, outubro de 2004

Um novo ano + poético para você: 2015 com
Gláucia de Souza e as Cantigas de ninar vento,
livro-CD com músicas de Jorge Hermann
il. Cristina Biazetto (Paulus, 2007).

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