8 de dezembro de 2015

Ler e ouvir Alice Vieira.

Peter O. Sagae*


Portas fechadas, corredores sem cores e as sombras a esconder os olhos de uma presença invisível e misteriosa. Talvez viesse a ser a própria Alminha-da-Senhora, ou a Outra-Pessoa de quem ninguém ousa falar. O silêncio retumba mais que outro ruído qualquer — e invade a infância de Marta. Seria preciso a ela permanecer imóvel como uma boneca de porcelana posta à exibição para as visitas posto que os seus passos pequenos, por mais leves que fossem, despertam sempre a casa e as crises de Flávia que-todos-diziam-ser-sua-mãe. Fato. A menina se convenceu de que houve uma troca, a acontecer coisas de mau destino que fez Flávia correr ao hospital como quem busca remédios para a dor de cabeça e, de lá, no entanto, retornaria com uma criança nos braços. Flávia jamais dizia seu nome, jamais saía de casa, nem durante as férias.
« Leonor costumava dizer que eu tinha nascido em berço de ouro, ao mesmo tempo que enchia a minha cabeça de pavores com a Alminha-da-Senhora querendo sair das paredes assim que anoitecia. Lembro-me de ter passado muito dias a espreitar pelo buraco da fechadura dos quartos fechados para ver se descobria, nalgum deles, o tal berço de ouro. Mas o ângulo da visão era fraco, e sempre o mesmo. Acabei por desistir. De resto, de que me serviria um berço de ouro? De certeza não iria poder brincar com ele, como acontecia com as bonecas de porcelana que o pai me dava no Natal e no dia dos meus anos. »
Envolta por uma atmosfera de segredos e histórias, iniciadas muito antes de seu nascimento, Marta refugia-se nas cantigas e nas aventuras do Príncipe Graciano pelas sete partidas do mundo tiradas pela velha e calorosa Leonor. Havia um tempo em que diligências cortavam planícies pelos corredores da casa e seu pai não era Martim, mas Touro Sentado, em conversações sobre alianças e emboscadas com o Coiote Vermelho. Leonor contava o passado quando sentia saudades ou quando se zangava com Flávia...

Em um texto que reflui tempos e nomes, Alice Vieira orquestra sombras e personagens com acordes distintos, humanamente possíveis, belos e densos, na pauta de sua escrita. O fraseado é todo melódico e até mesmo as palavras mais estranhas ou expressões desconhecidas acomodam-se dóceis e ingenuamente bem humoradas. É neste embalo que lentamente o prisma de emoções adquire movimento e refratando vai um espectro de luzes sobre os moradores, uns vivos e outros ausentes, da casa. Variados enredos ressoam iluminados pela maestria da autora e articulados pela narração de Marta, em diálogo muito próximo com alguém que não se vê (“Sabes como era Leonor: às vezes as palavras saíam-lhe da boca e, quando ia por elas, já elas estavam ditas.”) — e o leitor bem poderá sentir-se tentado a ocupar o incômodo lugar de ouvinte igualmente observado pelos olhos vigilantes de Ana Marta.

* Extraído de Dobras da Leitura n. 50, nov. 2007. O Vitrina Mundi: Portugal. Alice Vieira. OS OLHOS DE ANA MARTA, capa: Yili Rojas (Edições SM, 2005).


Ler e ouvir Alice Vieira. “Quando estou triste, gosto de ter flores perto de mim. Mas não é preciso que tenham perfume ou que sejam daquelas de caules muito altos, que dormem na vitrine das floras. Só preciso que estejam perto de mim. Que eu olhe para elas e sinta que estou tão acompanhada como se elas fossem pessoas.” Pois família é uma sintonia delicada, releio hoje ROSA, MINHA IRMÃ ROSA (1979) #editorapositivo (2014) #alicevieira #odilonmoraes


Ler e ouvir Alice Vieira, mais o verso de Adriana Calcanhoto e o rumor de Gil Vicente por uma estrada que são as muitas casas de Branca. “De repente caíam em cima de mim todas as lembranças daquele dia na Feira – ontem? há uma semana? há um ano? sonhei? –, eu a perguntar porque a minha mãe não respondia... e toda a gente a dizer coisas sem sentido.” MEIA HORA PARA MUDAR A MINHA VIDA #editorapeiropolis (2014) #alicevieira #annacunha

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