23 de julho de 2016

dizer tudo com o mínimo

Julho Amarelo 5 Peter O.ô Sagae


Era uma vez um rei mandão... Ele morava num livro de capa amarela e na minha memória. Quando volto a um título antigo, confirmo, pelo caminho, aqueles textos que não gostaria de esquecer. E aqui se digo texto, digo UMA PALAVRA SÓ para designar o todo que é um livro ilustrado por Angela Lago à roda dos signos verbais e visuais para contar uma história e abrir múltiplos sentidos. Bem se vê, uma aula-aventura: como conversar com a tradição oral e pensar a narrativa impressa #editoramoderna (1996) #angelalago #literaturainfantil



Há um modo de fazer um livro encenado.


Os personagens passeiam pelas páginas como figurinhas em três dimensões. As sombras projetam-se à frente e atrás de um movimento do corpo, da cabeça e das mãos como que adivinhando o futuro ou sinalizando o passado. Num jogo de contornos e transparências, o rei, os três ministros e o príncipe revelam seus sentimentos e intenções, prolongando-se diante do nosso olhar...


Mas há, no livro, duas figuras femininas de suma importância. Laço de fita lilás-amarelo nos cabelos. Elas não são mera representação de novos personagens, mas a presença personificada de dois agentes literários: o narrador e o narratário. Se quiser, dispense a teoria e diga apenas: a contadora do causo e sua ouvinte, admiradas, fofoqueiras, inscritas visualmente no texto de Angela Lago.

O gesto e a corporalidade de quem conta uma história – e a quer corrigir – eram já pressentidos no discurso verbal desde o início da narração. Ouça só! “Era uma vez um rei mandão. Ou melhor: era, mais uma vez, um rei mandão. Pois é... Mandar é a sina dos reis, e muitos exageram. O nosso, por exemplo, acreditava que era o dono de tudo, inclusive da verdade. Um dia...”

Um dia, eu discutia com um grupo de autores sobre a magia da oralidade na linguagem escrita. E como construir o fio da história na meada do som. Alguns livros são exemplares e não os abandono, pois revelam as artimanhas de envolver o leitor (ouvinte e espectador) na trama das palavras e das imagens. Imagem impressa na página e imagem impressa na mente. Bacana, hein? Essa é Angela Lago.


E comentar um livro não é apenas virar as páginas pelo conteúdo, correndo pela narrativa: a história de um rei autoritário, cercado de puxa-sacos, que desejava castigar quem não concordasse com ele. Quis a sorte, porém, que o filho fosse pego por sua lei e só poderia usar UMA PALAVRA SÓ para se comunicar com as outras pessoas. Tá aí o plot para um resumo. Tá aí também o diálogo com a tradição dos contos populares. Por exemplo, a história dos três aprendizes dos Grimm.

No entanto, a fada de hoje é outra. E sua lição: contornar a dificuldade e dizer tudo com o mínimo aprendido através das letras e fonemas de uma palavra só... exclusivamente, uma palavra só, libertando muitas outras do seu interior. Este é um jogo de esperteza, uma das características das obras de Angela Lago elegendo personagens que se metem em concursos de adivinhações e devem responder três questões para salvar sua vida.


Vinte anos de encantamento e o livro permanece atual em suas múltiplas articulações. Deus nos livre das leis absurdas e dos candongueiros por aí. UMA PALAVRA SÓ recebeu o Prêmio Bloch Educação – Literatura Infantil 1996 e também o selo Altamente Recomendável, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, pela autoria e ilustração.

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