13 de abril de 2018

O chão é o mapa de tudo

Peter O'Sagae


Um livro sempre começa em outro livro, ponte para a vida e para os sonhos semeados na vida de um autor. Isso posso dizer do universo poético visual de Lúcia Hiratsuka, refazendo seus passos de um desenho para uma confissão, de uma palavra breve a uma novela, dos antigos ideogramas às suas próprias ilustrações, das antigas lendas à própria voz, enfim, de um conjunto de gestos familiares de sua infância à constante reelaboração de um quintal, sob o signo do imaginário...

Aí já não se tem mais a vida, mas a sugestão sobre ela.


O livro CHÃO DE PEIXES (Pequena Zahar, 2018), tão longamente esperado e conhecido em forma de esboços e rascunhos por diversos amigos de Lúcia Hiratsuka, possui uma gestação de muitas estações, paradas e volteios. Podemos anunciar que virá a ser o primeiro livro de poesia da autora, porém desconfio que isso não seja verdade.

extenso chão verde
ouço um mugido ao longe 
eterno domingo 

Abro o livro, ao acaso, para encontrar um haicai. Em outras páginas, a estrutura rígida da tradição poética japonesa se desfaz no acento lento de uma voz que arrasta, que sabe, um graveto pelo quintal de outras combinações de som e imagens. Lúcia sempre quis contar histórias com seus traços e não escapou à fabula: eis, então, um apólogo sobre a exuberância, a cor, a forma, a simplicidade, numa predileção por vários domingos, entre a abóbora e a berinjela.


Mas onde tudo isso começa? Qual o mapa de seus livros?


Mudemos o tom: em outubro de 1997, Lúcia havia terminado de ilustrar o livro Batiyan, vem brincar! do casal Marilda e Guilherme del Campo.


O desenho era ainda bem suportado pelo contorno contínuo, a aquarela que descia sobre o papel em meio a tinta acrílica e pontos opacos de guache. Mas era, na biografia na quarta capa, que Lúcia Hiratsuka começava a traduzir afetivamente suas vivências:
“Meus avós chegaram ao Brasil 70 anos atrás e se instalaram próximo à cidade de Duartina, interior de São Paulo. Nessa região chamada ASAHI, que significa sol da manhã, plantaram café, caqui, laranjas e criaram bicho da seda.

“Eu também nasci e morei lá até os 9 anos. Meu Dityan me ensinava a ler e escrever em japonês e minha Batiyan me ensinava a fazer origamis e contava as lendas do Japão que ela ouviu da Batiyan dela.

“Naquela região ainda não havia luz e quando começava a escurecer, nossas brincadeiras prediletas eram contar estrelas e caçar vagalumes. A minha Batiyan, hoje com 96 anos, ainda vive e fica feliz em ver meus trabalhos, pois ela sempre se lembra do primeiro peixinho que desenhou para mim no chão do terreiro e que me despertou para o desenho.” 
Acredito que aí estejam as primeiras sementes, pista e peixe, germinando no chão. E talvez nem pudesse ser de outra maneira: o primeiro poema do velho/novo livro intitula-se “Quintal” fazendo referência a um tempo mágico, lendário e pessoal, à lua e ao coelho que lá habita fritando bolinhos. Contudo a tradição oriental cede a um imaginário diferente. No lugar de bolinhos de arroz, o eu-lírico de Lúcia aguardaria bolinhos de chuva!!!



A descoberta dos ideogramas e da própria imaginação se apresenta em contraste e complementariedade, acerca dos valores ancestrais japoneses e de sua necessária atualização a um modo brasileiro de ser. Aos filhos e netos de orientais, isto é muito claro: o rosto, a língua, o código, um lugar no passado que não nos pertenceu. Para superar a ambivalência, Lúcia Kyoko, como a personagem de Os livros de Sayuri (2008), requer para si outro modo de reconhecer-se:
“Vou rabiscando no chão do quintal. Uso uma vareta, faço riscos bem grandes, lembrando o que ensinou o professor. Cada jeito de fazer os traços. De cima para baixo, da esquerda para a direita. Traço reto, traço em curva, traço que parece um pingo de chuva. Um bom jeito de estudar, assim, no chão, pena ter que apagar depois. Gosto de olhar para a minha letra. Torta, mas minha [...] Já sabia escrever: casa, pássaro, peixe, manhã, caminho, capim. Depois apagava e riscava de novo.” (pp. 59-60) 
A escrita-desenho revolve não apenas o chão de terra batida. Traz silêncios que falam e “mais rabiscos e rabiscos mil”, persistência em possuir o inefável da criação singela, efêmera, de pouca de extensão. Mas... como não ver que o quintal vira mar?



Sim, o quintal, na obra de Madame Hiratsuka (como brincam os amigos), é um lugar de transposições simbólicas. Entre a casa e as estradas do mundo, o quintal se define como um lugar onde se deseja permanecer e, simultaneamente, que se deve atravessar. Em muitos livros da autora, podemos encontrar sua fixação aos meios móveis: desde a travessia de uma menina, ao modo de Chapeuzinho Vermelho, na narrativa visual Um rio de muitas cores (1999), o outro barco que afetuosamente balança a memória da avó materna Orie (2014), os bisavós barqueiros, caminhos líquidos que alcançam novas paisagens e cidades; por terra, roda, linha de ferro e asfalto: a bicicleta de O guardião da bola (2015), o fusca de A visita (2011), Na janela do trem (2013), O caminhão (2017), este último com a dedicatória: para aqueles que carregam o cheiro da terra e as cores de longe.


Os caminhos todos já estavam desenhados, numa distração numa corrida de caracóis ou no parentesco sem fim das formigas... Sabe o segredo de Drummond? No meio do caminho tinha uma pedra, uma montanha! E ela teve de subir, subir muito alto. Em seguida, descer e descer... O objeto da percepção transfigura-se em um objeto da imaginação.


Assim, as páginas de CHÃO DE PEIXES são quadros de outra memória. Cada abertura apresenta um fotograma em palavras e sumi-ê, o desenho gestual que não admite retoques, expresso tradicionalmente com tinta negra. Nas pinceladas de Lúcia Hiratsuka, no entanto, adaptou-se e absorveu cores. São vinte composições, ou registros, terminando com uma outra sorte de amadurecimento: metalinguagem.


Imagens

Pinturas feitas de instantes,
de chuvas e luas,
entardeceres e noites escuras,
de toques e flores
na memória.

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