21 de julho de 2009

Farejando palavra e imagem





Barrigudinho e sonolento, este amoroso basset hound vive uma verdadeira noite de cão-fusões, em um livro de imagem narrativo bastante risonho e criativo. A começar pelo título — quem não se lembra de uma noite mal dormida, uma tradicional noite de cão? Mas aqui vamos farejar o rumo do humor, quando a expressão, levada ao pé da letra, nos levará ao pé das imagens. Porque o cãozinho passará uma noite daquelas, com o clarão da lua atrapalhando o escurinho bom para dormir. O que ele pode fazer? Subir até o topo do mundo para desligar a luz...

Para contar a sua história, Graça Lima desloca códigos das histórias em quadrinhos e dos desenhos animados, organizando-os no espaço gráfico das páginas. A cercadura retangular,

O primeiro chamado, em diferentes edições do livro de Graça Lima: será que ele quer que a lua desça?

1, 2, 3 ações, o basset passeia: mais do que a cercadura, o espaço em branco herdado das HQs.

Fragmento da dupla-página que solicita um movimento circular de leitura, no sentido dos ponteiros do relógio: ao todo, o personagem é representado cinco vezes e a última figura fareja metalinguisticamente o outro lado da página!
por exemplo, não apenas delineia ou limita a visão dos lugares por onde o cãozinho apronta das suas, mas torna-se um índice da passagem do tempo à medida que os cenários modificam-se. E compreender o ritmo dessas transformações é acertar 50% da marcha narrativa.

Graça brinca com a simultaneidade de ações do personagem, como no exato momento em que estando a lua tristonha, ferida, amuada, com cara de nem-te-ligo-farinha-de-trigo, o esperto basset dança, joga bolinha, oferece flores e pensa em que mais poderia fazer — no melhor estilo "tudo ao mesmo tempo agora", desdobrado em quatro para mudar os ânimos da oclusiva lua. Assim, mais que estar habituado com a representação gráfica das onomatopéias, o leitor de HQ deve ter aprendido igualmente como a figura duplicata de um personagem, ou mais vezes repetida, sinaliza sua própria movimentação.

Tão comuns nos desenhos animados da televisão, as sucessivas mudanças do cenário rompem com a lógica dos ambientes lineares ou cotidianos: estamos nos movendo por espaços que mais pertencem à fantasia: ora tudo parece muito plano, aí existe uma montanha, depois um mar azul azul... — Um mar que se fez, aliás, do rio de lágrimas que o pobre basset chorou! Ou ainda quando, soltando fumaça pelo topo da cabeça, o cãozinho tira uma escada enorrrrrrrrrme e ninguém sabe de onde — e a escada vai pegando um jeito interrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrminável.

Diversos códigos promovem criativas fusões da pantomima com a poesia — e, no final de tudo, a noite de cão terá parecido curta demais para o olhar dos leitores ;-)

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