7 de setembro de 2009

O jogo do era uma vez


Glaucia Lewicki
il. Gonzalo Cárcamo

Era mais uma vez Outra vez
Edições SM, 2007

ISBN 9788576751595
12 x 19 cm 64p.


De repente, o narrador de uma velha história sente uma nova emoção: o livro de conto de fadas onde mora, anos e anos esquecido e empoeirado na estante, é decididamente retirado dali por uma pequena leitora. Já não era sem tempo! Relembrar e contar mais uma vez a narrativa da casa! E, como o narrador é quem deve fazer tais honrarias e abrir porta da história para os leitores, ele bem sabe que deve conferir se tudo está em seus devidos lugares e os personagens prontos para entrar em cena. À saída das primeiras linhas, no entanto...

O narrador logo compreende que o "era uma vez" não era mais coisíssima nenhuma do que fora, outrora, e deveria ter sido para todo o sempre. Pulando de página em página, antes que o livro seja aberto pela futura leitora, Sir Narrador desbrava um mundo totalmente diferente daquele em que havia deixado os personagens. Está armada a confusão: cada um se arranjou com o próprio destino, criando uma história diferente... O famigerado Dragão de Sete Asas — na verdade, nem sete eram suas asas! — optou por comprar o castelo do rei e mudou o nome do reino!
O rei, ora essas, está muito bem, obrigado, numa praia tropical. A Princesa Priliana de olhos adoráveis tem ainda os olhos adoráveis — mas onde foi parar? Somente Sapristo, um monte de músculos e pouco cérebro que era o príncipe, continua tão inteligente e forte quanto antes...

Glaucia Lewicki atrai o leitor para uma história descontraída em que os personagens cansados dos papéis tradicionais de um conto de fadas, dão tratos à bola para viver com bem entendem — um jogo literário que retoma uma tendência da década de 1970. Questionando os valores do passado, à sua vez, Lewicki dá também ao texto a irreverência da metalinguagem, ironiza o status do narrador, põe em cheque sua onisciência, re-considera o lugar que o leitor ocupa em relação às obras e dá evidência à existência material do livro, ora como cenário, ora como suporte.

Sir Narrador é visto, nalgumas das ilustrações de Cárcamo, correndo para as margens da página como quem irá saltar para fora do livro. Mas o inverso acontece igualmente: uma sombra insinua a passagem do leitor “para dentro” da história, em diálogo com os personagens que estão sob seus olhos. Viu?

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