11 de julho de 2010

Especiarias na estante

por Peter O’Sagae


Histórias da Índia, de Eunice de Souza, il. Maurício Negro (Edições SM, 2009). Dez narrativas curtas de diferentes regiões indianas são apresentadas neste livro, entre lendas, facécias morais, curiosos casos e contos de esperteza. São narrativas originárias de antiqüíssima tradição, cujos fios entrelaçam-se aos ensinamentos do Pañcatantra e dele deixam-se diluir em regastes orais e novos registros.

De natureza etiológica, quatro lendas respondem às questões: por que o galo canta para anunciar o sol? como os homens perderam o rabo que há muito tempo tiveram? como começamos a sentir cócegas? porque os leopardos jamais devoram um agente de casamento... Outras histórias contam a respeito da esperteza de um barbeiro; de um iogue; de um cego comerciante; da sabedoria de um rei e das lições ainda necessárias para os três filhos herdeiros; da desavença entre duas vizinhas, por causa de uma galinha roubada.

Merecem ainda destaque “O falso faquir”, uma narrativa do norte da Índia que é uma variação sobre um entrecho do conto folclórico A Cidade de Marfim; e “A filha do sábio”, uma historieta do Hitopadesha que nos aponta qual o velho fundo moral de um conto acumulativo japonês chamado "O casamento da Ratinha"... As dez narrativas compiladas por Eunice de Souza foram extraídas de seu próprio livro 101 Folktales from India (Penguin, 2005), e têm a tradução de Isa Mesquita — textos enxutos buscam dialogar com os pequenos leitores, porém as ilustrações exibem sofisticada carga informativa, ainda que a muitos olhos permaneçam como mera decoração do livro.

A princesa que enganou a morte e outros contos indianos, de Sonia Salerno Forjaz (DeLeitura, 2009). Uma antologia para o jovem leitor com histórias que se desprendem principalmente do Mahabharata, mais outras narrativas que igualmente revelam toda sorte de magia e a visão sábia do folclore indiano.

São quatro as histórias estruturadas como contos, com a presença de elementos do maravilhoso oriental e a união feliz de almas que se amam — “A princesa que enganou a morte” narra como a perseverante Savitri, com aguçada inteligência, salva Satyavan do temível Yama; a bela Damayanti precisa reconhecer o verdadeiro Nala, em meio aos deuses que assumiram a aparência do jovem, no conto “O estimado”; em “A cama, a bolsa e a tigela”, três objetos mágicos ajudam o filho de um poderoso rajá conquistar a princesa Labam; há ainda “A Cidade de Marfim”, onde reina mistérios e disfarces para desvendar... O livro se completa com relatos míticos, lendas e uma parábola, com destaque, em cada gênero, para a narrativa da construção de uma arca cheia de sementes por Manu e o enfrentamento do dilúvio; como as serpentes passaram a ter a língua bífida; e a bem humorada aprendizagem de como o verdadeiro homem santo é sempre discreto.

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