16 de setembro de 2010

meu reino por uma palavra

nas dobras do tempo, por peter o’sagae


Em 1974, Eliardo França abriria páginas e portas para uma tendência na literatura infantil brasileira: a recusa aos despropósitos de quem está no poder, ao escrever e ilustrar O REI DE QUASE-TUDO, obra que se consagrou como “O Melhor para a Criança”, conquistando o Prêmio Ofélia Fontes da FNLIJ, além das inúmeras menções honrosas em concursos dentro e fora do país (saiba mais). Conquanto a denúncia talvez seja o efeito de sentido para alguns, podemos sentir poesia nas antíteses que tratam da impossibilidade de possuir o inefável que mais nos causa prazer. Escreve assim Eliardo: “Porque tendo as flores, não lhes podia prender a beleza e o perfume. Tendo os pássaros, não lhes podia prender o cantar. Tendo as estrelas, não lhes podia prender o brilho. E tendo o sol, não lhe podia prender a luz. O Rei era ainda o Rei de quase tudo. E ficou triste.” Mas, ademais, sob o manto da figura do rei, a crítica especializada encontrou o tema de sua predileção: o desejo de liberdade contra qualquer forma de poder ditatorial e injusta.

E houve também por aqui, em nosso reino de letras e política, certo REIZINHO MANDÃO, na parceria de Ruth Rocha e Walter Ono (1978). Láureas da época, o selo “Altamente Recomendável para Crianças” e participação na Lista de Honra do IBBY. Uma fábula sobre o poder absurdo (e mesmo ingênuo, digo eu) de um pequeno déspota que silencia a todos — e acabaria a história com dor no coração e na consciência, não fosse uma menininha quebrar o feitiço com um estrondoso “Cala a boca já morreu! Quem manda na minha boca sou eu!” Sob a figura de uma criança, o brado e o tema do velho conto de Andersen, As roupas novas do rei (1837), né mesmo?

Arguta, Angela-Lago sabe como destronar um rei mandão, contorcendo exclusivamente UMA PALAVRA SÓ (Moderna, 1996), selo “Altamente Recomendável” concedido pela FNLIJ e menção honrosa no Prêmio Bloch Educação, no mesmo ano de seu lançamento. Em diálogo com o passado, a denúncia passa a vez para o lúdico, numa obra, ora, ora, ora, pra lá de shakespeareana, com a condenação do príncipe às ordens reais de seu pai! O menino não poderia mais falar tudo o que pensava, mas pensava tudo falando intimamente consigo: “Se ao menos eu pudesse ler e escrever”.


E relendo e escrevendo histórias de reis, a literatura para crianças tem se ocupado em mostrar como as coisas podem ser realmente diferentes. “Utopia, delírio, realismo fantástico ou ficção, não importa. Essa combinação de leituras não teria sentido se ela não tivesse anexado o perdão como elemento de continuidade da história”, escreve Nelson Cruz, no “pós-fácil” do livro O DIA EM QUE TODOS DISSERAM NÃO (Global, 2009), entre os finalistas do Prêmio Jabuti – Melhor Livro Infantil. Somando a inspiração via Jorge Luis Borges e Vinícius de Moraes, a obra de Nelson Cruz alinha-se ao ideário mais amplo e fraterno de democracia contra a prepotência dos mais fortes ou das formas autoritárias de governo. Ao atualizar o tema, o grito de liberdade faz-se imenso como o silêncio, quando o rei conclama o povo e demanda guerra aos países vizinhos. Mas ele há de cair do cavalo... Temos direito à escolha pela própria ordem e paz!

3 comentários:

  1. Peter,
    Não li os dois últimos, por incrível que pareça, mas a análise está, como sempre, perfeita.
    Na época em que fiz faculdade não tinha literatura comparada, acredita?
    Veja só o que sei fazer, nada parecido com o que você faz:
    http://blogstoriasessenciais.blogspot.com/2009/04/da-delicadeza.html
    Se tivesse tempo, saúde e disposição faria o mestrado.
    Já compartilhei no Twitter.
    Abraços

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  2. Peter,

    Parabéns por desdobrar tão bem estas leituras, histórias e metáforas preciosas. Gostei muito,
    Marilda

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  3. Peter,
    Teus textos estão cada vez mais precisos. Resultado deste tue empenho em tratar a literatura infantojuvenil com muita seriedade. Ela merece. Estou gostando dessas dobradinhas, das tríades, dos enlaces de literatura comparada.

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