15 de março de 2012

a beleza doce e branca não hesita

peter o'sagae*


Quando decidiram abrir as tumbas da família Medici, em 1857, em meio aos sepulcros da Capela dos Príncipes, na rica cidade de Florença, ninguém certamente esperava encontrar o corpo intacto de uma bela jovem. O ar imóvel preencheu-se com uma deliciosa fragrância, o chamado ‘perfume dos santos’ e, aos pés da moça, outro corpo diminuto e branco dormia: um arminho. No entanto, em um rápido piscar de olhos, essa mágica visão transformou-se inteira em pó...

Este é somente o prólogo de um delicado romance a respeito de Bianca, filha do amor ilegítimo do grão-duque Cósimo I e uma aldeã. Com extrema acuidade para combinar História e fantasia, o estilo da crônica e do diário pessoal, poemas e adágios de inspiração popular, o escritor galego Xosé Neira cria o retrato vivo de uma personagem que poderia passar praticamente despercebida no rol dos grandes feitos renascentistas do século XVI, permanecendo para sempre no silêncio das antigas pinturas expostas na Sala della Tribuna da Galeria della Uffizi.

Contudo, a Literatura quis dar outro destino a essa jovem.

O enredo conta que, após a morte de sua mãe, Bianca passou a conviver mais proximamente com a figura distante do pai, a frivolidade austera de sua madrasta, irmãos e amas com quem aprendeu a relacionar-se e descobrir seu próprio enigma. Por que ela nutria tamanha afeição pelas coisas macias e selvagens, enfrentando, com os olhos corajosos que não se inibem, a fraqueza de caráter e ambições humanas, sem jamais desistir de sua própria liberdade? Em meio às intrigas familiares e às raras oportunidades de gestos generosos, a doce Bianca encontra conforto nos símbolos revelados pelo pintor da corte, mestre Bronzino, nas histórias que escapam na voz das amas, nos festejos de Carnaval...

Revelando um mundo de convenções e contraordens, beleza e lógica, coragem e vilanias, O arminho dorme, de Xosé A. Neira Cruz com tradução de Nilma Lacerda (Edições SM, 2009), foi considerado uma dos dez melhores livros juvenis do mundo pelo Banco do Livro da Venezuela, em 2006, conquistou o prêmio Raíña Lupa e integra honrosamente a lista White Ravens, mantida pela Biblioteca de Munique.

* Para a Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil 2009, produzida pela BIJ Monteiro Lobato de SP.

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