19 de novembro de 2012

um abraço Brasil-Angola

Temporada de contos e recontos, 9


Jô Oliveira ilustrou A árvore dos gingongos, da escritora angolana Maria Celestina Fernandes (DCL, 2009) com os tons mais vibrantes de cobalto, violeta, magenta, os vermelhões muitos e um amarelo bastante ensolarado, para nos fazer sentir o calor e a língua portuguesa que entrelaça gentes, sabores, memórias à sombra querida de uma frondosa mangueira.


Ou, pelo menos, tal poderia ser o desejo de fazer qualquer criança estender o braço para pegar uma fruta madura e gostosa da árvore... Mas, não! Os gingongos caçulês não vão deixar.


Porque é assim: onde nascem gêmeos, vira toda a vida da casa para satisfazer as vontades dessas crianças. Que caprichosas, crescem, que danadas, mandam e determinam como as coisas devem ser! Pois, apesar dos outros sete filhos, Nga Maria e Papá Policarpo tinham grande adoração pelos mais pequeninos, uma menina chamada Eva e um menino chamado Adão, mimados e temidos pela vizinhança porque trariam azar para as pessoas, se tristes ou contrariados. É pra ter muitos cuidados, ehn!


Nascida em Lubango, Maria Celestina originalmente publicou o texto em 1993 (Portugal: Edições Margens) e dá testemunho do sincretismo que faz Angola orgulhar-se de suas tradições. A história atualiza a mitologia dos quimbundos a respeito dos gingongos ou jingongos Mpèmba e Ndèle que remotamente povoou o país. Em especial, em Luanda, onde a autora viveu grande parte de sua vida, os gêmeos são tratados com deferência, como portadores de boa sorte para as famílias, ainda que os velhos afirmem que eles possam ser potencialmente malignos, pois seus espíritos têm origens entre os antepassados ou as sereias... Ora, o nascimento duplo é uma reminiscência das antigas histórias ou real intrusão dos poderes superiores na vida cotidiana, às vezes, uma benção, d’outras, uma maldição. E a escritora revive as marcas ambíguas perante o divino, multiplicando-o com nomes bíblicos, – e fazendo surgir uma velha curandeira com amuletos, rezas, incenso, roupas de pano cru com símbolos azuis e vermelhos para Eva e Adão crescerem com paz e saúde; – e dando também às crianças o sacramento do batismo, quando receberam novos nomes, Manuel e Manuela, para homenagear, no papel, o padrinho branco.

A coesão social aí ainda advém da oralidade. Através dos pedidos, promessas e outras formas da palavra falada, os antigos mitos fazem despertar alguma razão sobre as emoções e os medos: vai um dia, os caçulês exigem a posse da mangueira do quintal e os pais, para evitar maka, birra e choro, acabam concordando. No entanto, quando as flores se transformaram em frutos... nenhum dos irmãos mais velhos, ninguém dos vizinhos, quis saber das proibições – e tempestivamente os gêmeos temperamentais adoeceram. Ah, se morrem, azar, muito azar para todos! Mas é neste ponto que uma nova acústica de consciência ilumina o respeito que os gingongos devem ter frente à própria comunidade, fazendo-os vencer o egoísmo tão infantil com que eles mesmos foram nutridos.


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