23 de outubro de 2013

para aprisionar uma canção

Peter O’Sagae


Se me fosse dada a ordem para fazer uma antologia para falar de meninos e pássaros, começaria com os versos de Carlos Queiroz Telles encontrados em seu Relatório de viagem (SECSP/Livraria Martins, 1983), livro comemorativo dos 25 anos de poesia do autor que me chegou pelas mãos de Rita Okamura em outubro de 1993. Coincidência ou não, releio “Primeiro, primário” com suas metonímias e imagens que jamais poderia esquecer:
Para aprisionar
a canção de um pássaro
cautelosamente
o menino arma seu laço
– mas o pássaro
desprezando o laço
vem pousar no seu braço
e o coração do menino
canta mais
do que o coração do pássaro.
Ao ler O menino-vazio, livro de imagem de Jean-Claude R. Alphen (Jujuba, 2012), os versos de Carlos Queiroz imediatamente vieram pousar ante meus olhos. Já na capa anuncia-se a intenção do menino, cabeça-de-laço rumo ao pássaro. A narrativa ilustra o esforço de prender o que nasceu livre e livre deveria ser – o pássaro e sua canção...


Entretanto, mesmo vindo o pássaro para dentro do menino-vazio, dando-lhe voz e asas para viver fora de sua solidão, mesmo assim, o menino não ficou satisfeito, trocando o pássaro por outro, maior, mais enfeitado e mais canoro. Voou mais alto, é verdade, voou – mas, a felicidade não lhe foi mais duradoura que a antiga companhia do pequeno pássaro.


Ao ler Tom, com texto e ilustrações de André Neves (Projeto, 2012), meus olhos se prendem e se perdem na poesia da imagem, desde a árvore de pássaros que gesta um tímido menino. O que há ali dentro é silêncio, ou canção?


E dentro da cabeça de Tom? Pois este é o desafio para o irmão do menino. Por que Tom gosta da solidão dos pensamentos, por que não brinca, nem diz o que sente? Onde vivem e voam os seus sonhos? É então que se abrem as asas da narrativa, na duplicação do espaço imaginativo: o coração do menino canta mais que mil pássaros para libertar os pés da realidade incomunicável. Tom dança completamente em uma outra linguagem, na linguagem dos sentimentos, no tom da verdadeira amizade.


É importante que todos tentem entender. “A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos a ajudar a viver.” Palavras de Tzvetan Todorov. É importante entender o tom, e outros meninos, e outros pássaros...


* TODOROV, T. Literatura em perigo (DIFEL, 2012) p.76.

2 comentários:

  1. Que texto é este??? Fiquei arrepiada....

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  2. Gostei da aproximação entre esses livros. E de conhecer os versos do Carlos Queiroz Telles. Obrigada!

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