26 de outubro de 2013

“A fé, o olhar para o céu”

Peter O’Sagae


Contar estrelas, MIL E UMA ESTRELAS, com Marilda Castanha (Edições SM, 2011), e depois sonhar histórias. Mil e uma noites, mil e uma aventuras, e uma menina de pijama, livro ou travesseiro debaixo do braço, tanto faz, na direção de um sonho ensolarado. Chô, tutu e jacaré, chô, pavão! A menina equilibra-se sobre um cavalinho de asas e voa no seu próprio carrossel, de olhos fechados, confiante.

“Mas uma noite, quando foi contar as estrelas... não encontrou nenhuma.”

Entre essa noite e o dia seguinte, ocorre um instigante intervalo. Como é dormir sem estrelas e sem histórias? O narrador não se deteve na dúvida ou qualquer comentário a respeito dos sentimentos da menina, sobre o medo ou a certeza de encontrar uma solução assim que acordasse. A pergunta engancha-se apenas no leitor, de acordo com seu perfil, ao virar a página da noite para o dia...


Pois a menina pegou o caminho tosco, torto e torturante até uma gruta escura onde morava o Ogro Gigante, único capaz de alcançar a lua. E não que ela estava certa?


As estrelas todas do céu lá estavam para seu espanto, na gruta do ogro, pois ele, sim, tem medo, medo, medo do escuro. E aí está o segredo da delicadeza e da solicitude: a mão da menina estenderá uma flor para o gigante, mas seus pensamentos estendem muito mais porque o entendem. Assim, quando anoiteceu, a menina contou as estrelas, travesseiro ou livro debaixo do braço, melhor ela faz, na direção da noite reluzente, no caminho torto, ela toda confiante, entrou na gruta para compartilhar histórias – e o Ogro Gigante ouviu e dormiu, sonhou com mil e uma estrelas!


Sim, sim, sim, o resumo do livro aí está... com as palavras mais simples que consegui encontrar. Minha criança está feliz, meu espírito também. Marilda Castanha narra e brinca com as figuras da palavra e da ilustração com extrema facilidade, levando-nos por uma história que se utiliza de recursos poéticos tão fortes e precisos e, quem diria, tão caros ao barroco. Signos visuais e verbais reverberam e espelham-se entre si, pela repetição e pela substituição, pelas oposições que dão origem ao quiasmo, ou cruzamento, que é um ponto de encontro/equilíbrio entre o que se vê aparente, mas conduz a uma descoberta.


É assim que jogamos com a leitura de um retângulo que ora é travesseiro, no início, ora é um livro, nas páginas finais. Repetição de geometrias, montanha-trama ou cama, substituição da estamparia da fronha toda xadrez por letras diversas. E vem mais. Oposições temáticas: noite e dia, azul e amarelo: oposições cromáticas, compartilhamentos que sustentam a existência de sombras na luz, de brilhos no escuro... Contar estrelas e contar histórias, como uma atividade essencial e interminável.

Ora, o diálogo na literatura para crianças deveria sempre vir com essa multiplicação de cantos e vozes por onde as crianças pudessem entrar e ouvir a travessia dos significados. Entrar, ouvir e aprender sem lições de escola ou análises... MIL E UMA ESTRELAS, o livro, traz uma narrativa simples em seu tema e linguagem, confiante, porém, na experiência dos leitores mediante ao uso da ilustração, da melodia e da palavra, permitindo uma atividade de reflexão livre e sonhadora, da narrativa ao céu onde habitam nossos pensamentos. Para vencer o escuro medo da solidão.


P.S. O título da postagem, entre aspas, vem de Santo Agostinho.
P.S. 2. Infelizmente, o livro já aparece como "produto indisponível" na Livraria Cultura e não foi localizável dentro do site de Edições SM, em 26/10/2016. Nossa sugestão é usar o link para a Estante Virtual.

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