11 de março de 2014

tempo para guardar

* peter o.sagae


Alessandra Roscoe pertence a uma geração recente de escritores de livros para crianças e sua produção ainda não se definiu claramente enquanto linguagem, propósito e representação simbólica de um mundo que se quer compartilhar com os leitores. Lemos seus livros com vagar e à espera de alguma surpresa. Desta vez, conseguiu delicadezas para fazer pensar em sua Caixinha de guardar o tempo (Gaivota, 2013) que ouso chamar de livro-mensagem para crianças, em especial, meninas de todas as idades.

Existe um fio de narrativa muito tênue a costurar texto e a experiência da personagem Sofia. A prosa ecoa em alegria, fantasia, nos tecidos que a menina tecia, estendendo um quê poético ao descrever os extremos do caminho pela vida. Dos dias de brincadeiras, quando todo o tempo do mundo é vasto, sem fim, aos momentos da compreensão madura de que o tempo, afinal, passou. No caminho de Sofia, o pensamento inventou, inventou-se como caixa para guardar tudo o que ela pudesse viver do melhor. Saudade, lembrança e memória representam três faces da tranquilidade da personagem. E assim parece bom.


As ilustrações de Alexandre Rampazo revelam a dimensão subjetiva da memória: Sofia de cabelos azuis, tão solta e presa aos objetos que se espalham pelo espaço da página, como na metáfora do barco ancorado por um relógio mergulhado na areia, areia pálida, cálida, que se transforma na mão da velha Sofia. Ou menina que se guarda dentro da caixa, encaixada dentro de outra caixa e assim sucessivamente... Porém, texto e imagem buscando-se pela suavidade, encontram-se em um projeto gráfico de linhas duras que não é nem colcha de retalhos, nem páginas ladrilhadas para o meu olhar passar!


Pois, então, um livro leva a ler outro livro. E outra caixinha de Alessandra Roscoe aqui se abre: História pra boi casar (Peirópolis, 2010), com ilustrações de Mariana Zanetti, lembrando o colorido dos bordados que recobrem a carcaça do boi maranhense. Livro-CD que brinca com a tradição de brinquedos falados e cantigas folclóricas. Versos antigos são recortados e costurados numa toada nova. O que pode acontecer quando o boi da cara amarela decidir se casar com a vaca que pulou a janela? A autora inventa e canta sua lengalenga com voz de ninar o passado: a memória presente.


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