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11 de junho de 2015

imagens de infância, no entanto

Quando o carteiro chegou... leituras risonhas 1


O primeiro envelope da pilha foi o último a chegar.
Edições SM. Começo com três livros para pequenos leitores.


Espaguete, de Davide Calì (2008, trad. Belisa Monteiro, 2015) remete às primeiras brincadeiras com as comidas à frente do bebê. Um prato de macarrão não apenas alimenta, mas servirá de motivação para jogos com as formas e a linguagem. O fio de espaguete enrola-se no garfo como um ninho de passarinhos, ou estica-se como as cordas do violão. O fio do macarrão é como. O fio do macarrão eu como. No jogo sonoro da paronomásia, como ocorre no discurso publicitário, tudo o que antecede a conjunção comparativa ou o verbo permanece oculto. Mas a função apelativa é inequívoca, com o desenho de uma boca devoradora, ao final do livro: Como espaguete! Para alegria e alívio dos pais.


Festa à fantasia, de Inés Trigub (2007, trad. Graziela Costa Pinto, 2015) retoma um tema bastante comum dos livros para crianças: animais que se transvestem de outros animais. O efeito é o trocadilho visual, apoiado em uma frase legenda e o jogo é proposto em quatro pares de páginas. Mas... sempre aparece um mas para iniciar uma narrativa simples: a minhoca também queria ir à festa, mas não sabia que fantasia usar. Para tirá-la do buraco, do problema, da aflição, formigas enfileiradas erguem a minhoca e a ajudam transformar-se em uma centopeia. Pronto, a festa foi superdivertida...


Tá tudo bem, neném!, de Emmanuelle Houdart (2009, trad. Fabio Weintraub, 2015), resgata a fala cadenciada da antiga fórmula da parlenda, com perguntas percorrendo o cotidiano da criança, entre os objetos que lhe são próximos e um inequívoco sentimento de perda que começa a nutrir. Quem pegou minha mamadeira? E as respostas surgem regadas de conforto e seres mágicos. Tá tudo bem, neném: foi a sereia de mãos ligeiras. As ilustrações de traços edulcorados e suave colorido vão revelando o imaginário povoado da primeira infância com dragão empilhando cubos, diabinho gorducho no trono atrás da cortina do banheiro, dona unicórnio lendo os livros do neném...

Três livros para pequenos leitores, três traduções.


Recebo também e outra vez a antologia de contos selecionados e comentados por Luiz Ruffato, Leituras de escritor, com ilustrações de Mariana Zanetti em página inteira intercalando-se às narrativas ao modo de abertura (2008, 3.ed. 2015). Um parágrafo escolho, com muitos temas e imagens:
Yunque entediou-se. A que horas iria para casa? Mas Humberto bateria nele na saída da escola. E sua mãe falaria ao menino Humberto: “Não, pequeno. Não bata em Paquito. Não seja tão mau.” E não diria mais nada. No entanto, Paco ficaria com a perna vermelha pelo chute de Humberto. Paco choraria. Porque ninguém fazia nada a Humberto. E porque o patrão e a patroa gostavam muito de Humberto e Paco Yunque sofria por apanhar tanto de Humberto. Todos, todos, todos tinham medo de Humberto e de seus pais. Todos. Todos. Todos. O professor também. A cozinheira, sua filha. A mãe de Paco. Venâncio com seu avental. Maria que lava as bacias e que ontem quebrou uma em três grandes pedaços. O patrão bateria também no pai de Paco Yunque? Que coisa feia essa do patrão e do menino Humberto. Paco queria chorar. Quando o professor acabaria de escrever na lousa?

O'ABRE ASPAS* (César Vallejo, trad. Reynaldo Damazio, 2015: 95)

11 de março de 2014

tempo para guardar

* peter o.sagae


Alessandra Roscoe pertence a uma geração recente de escritores de livros para crianças e sua produção ainda não se definiu claramente enquanto linguagem, propósito e representação simbólica de um mundo que se quer compartilhar com os leitores. Lemos seus livros com vagar e à espera de alguma surpresa. Desta vez, conseguiu delicadezas para fazer pensar em sua Caixinha de guardar o tempo (Gaivota, 2013) que ouso chamar de livro-mensagem para crianças, em especial, meninas de todas as idades.

Existe um fio de narrativa muito tênue a costurar texto e a experiência da personagem Sofia. A prosa ecoa em alegria, fantasia, nos tecidos que a menina tecia, estendendo um quê poético ao descrever os extremos do caminho pela vida. Dos dias de brincadeiras, quando todo o tempo do mundo é vasto, sem fim, aos momentos da compreensão madura de que o tempo, afinal, passou. No caminho de Sofia, o pensamento inventou, inventou-se como caixa para guardar tudo o que ela pudesse viver do melhor. Saudade, lembrança e memória representam três faces da tranquilidade da personagem. E assim parece bom.


As ilustrações de Alexandre Rampazo revelam a dimensão subjetiva da memória: Sofia de cabelos azuis, tão solta e presa aos objetos que se espalham pelo espaço da página, como na metáfora do barco ancorado por um relógio mergulhado na areia, areia pálida, cálida, que se transforma na mão da velha Sofia. Ou menina que se guarda dentro da caixa, encaixada dentro de outra caixa e assim sucessivamente... Porém, texto e imagem buscando-se pela suavidade, encontram-se em um projeto gráfico de linhas duras que não é nem colcha de retalhos, nem páginas ladrilhadas para o meu olhar passar!


Pois, então, um livro leva a ler outro livro. E outra caixinha de Alessandra Roscoe aqui se abre: História pra boi casar (Peirópolis, 2010), com ilustrações de Mariana Zanetti, lembrando o colorido dos bordados que recobrem a carcaça do boi maranhense. Livro-CD que brinca com a tradição de brinquedos falados e cantigas folclóricas. Versos antigos são recortados e costurados numa toada nova. O que pode acontecer quando o boi da cara amarela decidir se casar com a vaca que pulou a janela? A autora inventa e canta sua lengalenga com voz de ninar o passado: a memória presente.


6 de agosto de 2013

afronta de flores vermelhas

* Peter O. Sagae, em agosto


Um singelo apólogo de Índigo, com sua linguagem bem humorada, Casal verde conta com as ilustrações de Mariana Zanetti (Hedra, 2009, 2.ed. Caramelo, 2013) e conta a respeito de mais um desses casos de amor que se passam na calçada das cidades, mas ninguém desconfia do sentimento no ar... Ninguém, não! Sabia muito bem um bem-te-vi chamado Benjamin que Sílvia Pereira, tão pequena e certinha, amava Walter Nogueira, tão espalhafatoso e grandão.

O interessante é que Sílvia Pereira não dá peras, porque é uma fícus de copa redonda, sempre aparada, sem uma folha que o vento possa desalinhar, assim quanto é intrigante o fato de Walter Nogueira não dar nozes, porque é um senhor flamboyant que cresceu a perder de vista rumo ao céu, deixando cair folhas, sementes, flores desordenadamente por cima das pessoas e dos carros.


Tão bem exposto o conflito de um amor (aparentemente) impossível, a narração entra numa tentativa de despistar o leitor sobre o que seria óbvio demais contar. Ora, pois! Todos veremos palavra&imagem e compreenderemos como Benjamin e outros bem-te-vis muito fizeram para levar um pouco de Walter para os galhos de Sílvia. E ela, alegre – toda coberta de flores vermelhas – torna-se alvo da incompreensão e do preconceito fácil de pessoas (realmente) difíceis: o síndico do shopping, o segurança e sua equipe, o paisagista soberbo. Todos esses, aponte bem-te-vendo a resenha, sempre dando ordens para um confuso jardineiro, são verdadeiros jardinheiros!

E o texto vai chegando ao fim previsto desde o começo da história. Um desses casos de amor que se passam na calçada das cidades, obrigado a manter-se no sigilo das aparências para não ofender aos circunstantes, em um apólogo apoplético de Índigo.

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