Peter O'Sagae
O que caracteriza um texto de Bartolomeu Campos de Queirós?
Em A ÁRVORE, livro com ilustrações de Mario Cafiero (Paulinas, 2010), é uma aptidão lírica para tornar presente um objeto, primeiramente por uma relação de pertencimento e uma qualidade sensível: “Eu tenho uma árvore. Minha árvore é verde e...”, acomodando, em nossa retina, uma visão rememorativa em estrutura, forma e cor. A imagem da árvore ali está: em meio às palavras.
Soma o poeta rapidamente uma metonímia, lembrando que uma árvore “suporta um mar de folhas”. Então, adensa a descrição com adjetivos e uma humanidade que só poderiam vir do próprio observador: “Minha árvore tem uma copa redonda e crespa copiando o mundo.” E, frente às demais coisas, sua árvore torna-se uma paisagem singular... “A brisa sopra nas folhas e faz ondas na superfície. O barulho das folhas parece água correndo entre cascalho.” E, da tangibilidade de vários elementos, desse roçar palpável e sonoro, Bartolomeu abre o convite e a ordenança. Claramente diz: “Para escutar, é necessário afinar as conchas dos ouvidos. Só as conchas gravam o barulho do mar.”
Em um repente, a imagem salta da palavra e parece já distante, diluindo-se... Contudo, sabendo o efeito que provocou, o escritor puxa leitor para mais perto de sua realidade: “A sombra de minha árvore se estica pela sala da minha casa. A sala fica na penumbra. Na penumbra eu penso com mais preguiça.”
A árvore de Bartolomeu torna-se, como dizem os filósofos, inteligível. Criança ou adulto pode compreender sua existência e amá-la. Deixado o primeiro parágrafo para trás, as relações da árvore com outros seres viventes fatiam o tempo, congelam-no em quadros: a árvore é casa para passarinhos, sala de esperar borboletas, esconderijo de cigarras, grilos, lagartas com vocação para rendeiras, formigas interessadas em açucares – e, mesmo tendo debruçado o homem sobre a janela, a alma do poeta voa dentro da árvore que lhe pertence. É assim que ele dela extrai a seiva e a substância ideal, buscando palavras para transmitir esse conhecimento.
Mas não é um conhecimento tecido em conceitos científicos. É uma experiência para ampliar os sentidos – da visão, da escuta e do tato, andando por lembranças de sabores, cheiros e temperaturas diversas – a fim de ampliar os significados que a mente, alerta, sonolenta, acolhe para decifrar. Quando se apercebe de si, o leitor pode ter todas as árvores em um só texto, com seus botões e flores, mistérios e perfumes, e novas relações, descobertas, desenhos que se multiplicam por um caprichoso exercício com a linguagem verbal. Já a árvore não é uma, porém milhares. Ou um milagre.
O universo tão imenso parece pequeno e verde, cheio de esperanças entre a folhagem que cresce e estampa o céu.
Mostrando postagens com marcador Mário Cafiero. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mário Cafiero. Mostrar todas as postagens
21 de setembro de 2014
11 de agosto de 2011
amados encontros, espelhos e sonhos
peter o:saga:e
É provável: este foi, há muito tempo, o primeiro Bartolomeu que me chegou às mãos. Azul, capa azul, num livro que dava beleza e musicalidade às montanhas mineiras que tanto lembravam, ao poeta, o mar, o amado nunca visto, mas todo cor e coração vindo só e imenso, no devaneio, para ser adivinhado. AH! MAR... Areia, aspas, um parágrafo amado: “Eu suspeitava o mar me buscando para levar-me marinheiro, quando as águas transbordavam os leitos e dormiam enchentes nos quintais. Vislumbrando, ao longe, fragata sufocada em neblina, oferecia-me farol, cais, ancoradouro.” Pois literatura é. Com sinais de uma devoção inédita, autor súdito da palavra. E eu me descobria leitor, assim embalado: “Sempre vou ser um desejo, se vivo ausente do mar. Não chega a ser marinheiro quem nasce longe de lá. As águas são muito frágeis para quem por sobre terra aprendeu a caminhar.”
AH! MAR..., de Bartolomeu Campos de Queirós, com projeto gráfico de Walter Ono e Mário Cafiero (Quinteto Editorial, 1985), inventa-se outro, juvenil-infantil, no arremesso de cores com André Neves (RHJ, 2007). Leio, então, que “As águas são muito abertas para quem, por sobre veredas, aprendeu a caminhar.”
É provável: este foi, há muito tempo, o primeiro Bartolomeu que me chegou às mãos. Azul, capa azul, num livro que dava beleza e musicalidade às montanhas mineiras que tanto lembravam, ao poeta, o mar, o amado nunca visto, mas todo cor e coração vindo só e imenso, no devaneio, para ser adivinhado. AH! MAR... Areia, aspas, um parágrafo amado: “Eu suspeitava o mar me buscando para levar-me marinheiro, quando as águas transbordavam os leitos e dormiam enchentes nos quintais. Vislumbrando, ao longe, fragata sufocada em neblina, oferecia-me farol, cais, ancoradouro.” Pois literatura é. Com sinais de uma devoção inédita, autor súdito da palavra. E eu me descobria leitor, assim embalado: “Sempre vou ser um desejo, se vivo ausente do mar. Não chega a ser marinheiro quem nasce longe de lá. As águas são muito frágeis para quem por sobre terra aprendeu a caminhar.”
AH! MAR..., de Bartolomeu Campos de Queirós, com projeto gráfico de Walter Ono e Mário Cafiero (Quinteto Editorial, 1985), inventa-se outro, juvenil-infantil, no arremesso de cores com André Neves (RHJ, 2007). Leio, então, que “As águas são muito abertas para quem, por sobre veredas, aprendeu a caminhar.”
Assinar:
Postagens (Atom)



