17 de setembro de 2014

não importa onde

Peter O'Sagae


Já não importa onde você esteja, quando possui um sonho, uma imaginação aberta para as demais pessoas, porque sonhar fechadamente é sinal de timidez e egoísmo. Mente fechada, fachada sobre a qual o tempo pousa e seca, não oxigena, não transforma o que permanece secretamente guardado no peito, na alma, na correnteza do sangue. Sonhar exige coragem. É, eu penso hoje assim. Amanhã desejo mudar. E também gostaria de ler poucos livros. Talvez você não compreenda isto, nada me fadiga tanto que um livro ser igual aos livros do dia anterior.


Pois, acordo toda manhã buscando temas de inspiração. E escrevo, quando os encontro... “Era uma vez um rei. E o rei se chamava Alexandre.” Seus olhos estão sonolentos, olhando ainda uma página que já passou... Um pássaro à esquerda, página que é rápida passagem para o pequeno e grande leitor. O pássaro, no entanto, tem o corpo vermelho e chamará nossa atenção por trás das grades de metal delicado, feito Alexandre sentado entre as colunas de mármore. O trono é vermelho, um par de asas. E isso é uma me-tá-fo-ra...

E fora do castelo, terras e terras, mares e mares, Anna Cunha pintou uma paisagem verde para o texto de Alaíde Lisboa: O AVIÃO DE ALEXANDRE (Peirópolis, 2013). Em uma linguagem simples e pausada, que as palavras se repetem sem repetir ideias, a história narra o desejo do menino rei abarcar,
 

num só lance, o vasto olhar sobre os domínios do mundo. Como muito ainda teríamos de aprender, antes que Santos Dumont pudesse inventar o avião, será um barco que Alexandre arremessará para o alto no rastro de duas águias... Sem limites para o sonho, o menino pensava, inspirava-se e pesquisava as oportunidades tão próximas de si. Sonhar o futuro é uma bela aprendizagem para o leitor.



E o vislumbre pode unir pessoas – tal é o argumento do austríaco Heinz Jansich, a bordo de O AVIÃO DOS SONHOS, registrando o diálogo de dois meninos sentados no banco de uma praça. Enquanto esperam os pais, seus olhos encontram um superjato cruzando o céu, um trem, um barco a vela, piratas, caubóis, índios, uma lesma com propulsão ultra-veloz, uma baleia voando como nuvem cheia de tempestade... Samuel e seu amigo alimentam a imaginação um do outro, é isso o que importa e aí está toda a cena da brincadeira. Com tradução de Elisa Zanetti, as ilustrações do dinamarquês Søren Jessen fundem os dois espaços: o banco da praça e o abraço da fantasia (Biruta, 2012).


Talvez o maior o sonho da linguagem seja vestir um poema. E aí podemos crer que tudo durma – cegonha, enguias, e vislumbre um futuro – fogo, aleluia, cavalinhos-marinhos – e, por fim, agite-se – tapete, coruja, rio, arranha-céu... Um dos maiores livros em minha estante, 40 por 28 centímetros, bem lembra o jornal que todo dia Oswald de Andrade abriria no Esplanada hotel: uma janela. É um livro, um livro cujo título é um convite para pensar...


O TAMANHO DO MEU SONHO, do escritor Przemyslaw Wechterowicz e da ilustradora Marta Ignerska, premiados autores poloneses, conta com uma recriação sugestiva de Bronislawa Altman Mello (Biruta, 2010).

Na língua original, Wielkie marzenia significa apenas “grandes sonhos”, e a obra poderia ser vista e lida como uma galeria exibindo o grande sonho de diferentes animais e objetos habitualmente inanimados. Mas temos aqui um pouco mais. No título em português, uma presença que diz “meu sonho” e comigo vem conversar, e vejo-me a pensar também qual o tamanho do meu sonho. Pois a tradutora personificou cada coisa, cada criatura. E o que era quase uma legenda, um verso rápido com gosto de trava-língua, virou uma pequena sequência narrativa. Se não era possível traduzir todos os sons, a escolha foi manter uma insólita visão sobre o mundo.

Jetka: 
jeszcze jeden dzien zycia.

Aleluia (ou efemérida): 
mais um dia de vida. 

A aleluia reclama:
nessa minha vida tão curtinha, eu tinha
de viver mais um dia de muita alegria.
Piec: 
chociaz na godzinke 
zamienié sie w chmurę. 

O forno: 
uma hora, porém, 
me transformo em nuvem.

O forno pede gritando:
eu queria ser uma nuvenzinha
nem que fosse por uma horinha.

* Acima, o texto original em polonês, seguido de uma tradução +/- literária/literal e as soluções narrativas de Bronislawa Altman Mello, respectivamente.

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