14 de setembro de 2014

outros brasileirinhos

Peter O'Sagae


Todos os meninos de rua são diferentes – ainda que passem através da gente tão iguais no compasso imóvel do rinoceronte da cidade. Dizia Maria Dinorah (1986) que o abandono tem pés de cimento e o peito de ferro. E pergunto qual a ponte entre os negros, loiros e pardos... Talvez seja “um ar de pouco tempo sobre a idade”, porque o problema não é mesmo a cor, é crescer. Na rua. E arranjar um lugar para ficar, passar o tempo e dormir. E, então, um pedaço de papelão para se arranjar. E mais outro pedaço de algo para matar. A fome. E tomar cuidado com ela. A fome. E não folgar demais. Que ela devora...

Um livro de retratos – para todo mundo não esquecer de olhar as ruas – escreveu Délcio Teobaldo com os olhos tardonhos e flagrantes de Pivetim (Edições SM, 2009) Prêmio Barco a Vapor 2008.

Não se trata de um moleque de oito anos, somente. Talvez ele tenha onze, não dá para saber, corpo pequeno, onze anos e meio, sem registro de identidade. Um dia, viu a família dar as costas e fugir. Sim, às vezes a família é quem foge da gente, do primeiro campo de visão e afetos. É assim, vivendo hoje em situação de rua e – que dirá se amanhã vai dar para contar com confusão ou trabalho. Vender flores para os casais nas mesas dos restaurantes. Ou castanha, ou amendoim. Pivetim, Pivetim, acostumado a entrar pela porta dos fundos, um bico aqui, outro ali, rumo à cozinha, lavando pratos, ganhando o possível e o devido, entregando metade do dinheiro nas mãos do guarda, que é a coisa erroneamente certa que se faz pra continuar vivo. Na paz, sem inimigos, em trânsito.

E eu digo: não é apenas um. Tem Pivetim, tem a comuna – Carol, Maravilha, Bala Perdida e Dimba. Mas poderiam ter quaisquer nomes de guerra: Dora, Professor, Sem Pernas, Gato ou Pedro Bala. Que diferença faz? Se é Carol, essa ou aquela menina, a violência não amaina. Poucas sobrevivem. Maravilha é esperança e fé, comprou um álbum para guardar os pais que encontrava nas bancas de jornal e revistas. Bala Perdida mostrava sempre a cicatriz no alto da cabeça para inibir. Dimba logo, logo vira sujeito-homem e terá muito mais a perder...

Em um estilo cinematográfico de capítulos curtos, os retratos adquirem movimento e expressão; os diálogos são rápidos, por vezes incompletos ou cifrados com as gírias que podemos ouvir nas praças e debaixo das marquises no Rio de Janeiro, São Paulo ou Salvador. É um livro cheio de vozes e afetos, um romance que acaba chamando o leitor para dentro das cenas. É uma roda viva, máquina viva das cidades com seus rinocerontes de cimento e ferro, pedra e navalha, fazendo desaparecer afetos, fazendo ressurgir um rosto mais adiante... Estamos todos à espreita. E muitas histórias que não vemos, pressentimos entre os intervalos desses novos encontros.

O primeiro romance juvenil de Délcio Teobaldo não toma apenas meninos de rua como personagens, contudo vem dar voz e presença à fome. Não sinto que o autor tenha pensado apenas em uma alegoria literária. Ela é espírito vivo, má conselheira que assedia o corpo e a alma, mastigando os pensamentos de Pivetim, manobrando seus passos. E é, na subordinação da fome aos problemas econômicos, que se permite a visão de uma psicologia social totalmente à espera por libertar-se de toda forma de exploração e das obsessões que se transfiguram na violência contra a educação, as oportunidades de trabalho e as referências familiares das crianças. Afinal, já somos muitos buscando o caminho. Outros brasileirinhos.

E então eu digo: não é apenas um. Tem Pivetim e todos nós.

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