25 de junho de 2015

imagens com reticências

Quando o carteiro chegou... leituras risonhas 3


Todos os contos são geralmente o mesmo conto e possuem todos as mesmas imagens sábias, quase os mesmos sabores conforme foram amadurecidos pelo tempo e as terras das várias culturas, permanecendo, na casca de seus frutos, as cores e texturas locais. Esta é uma tese bastante compreensiva de quem colheu e comparou narrativas através dos continentes, desde os primeiros folcloristas, antropólogos, viajantes e estudiosos de gabinete do século XIX, e após...

Por isso, são as imagens da palavra o que me interessa na leitura de um recente reconto de Celso Sisto, Batu, o filho do rei, com ilustrações de Simone Matias (DCL, 2015), a partir de uma narrativa tradicional da Etiópia, um país no chifre da África apontando o leste...

Zemene é um jovem e corajoso caçador, mas poderia ser cavaleiro, um mercador, um nobre perdido em viagens pelos contos europeus ou árabes. O nome Zemene significa ‘Príncipe’ e é como aqueles que realmente andam à frente, desde o princípio. Ele entra em uma caverna escura e lá encontra Batu, o menino, que é como um gênio, um elfo, um exu, a sorte, a parca, a fada, um animal, a alma penada de um amigo ou parente morto, que irá mudar o destino do herói se – e somente se – puder salvar o pequeno indefeso da enorme serpente de sete cabeças e levá-lo à terra distante de seus pais, onde Zemene poderá requerer um gorro vermelho que torna qualquer pessoa invisível – como Saci e Perseu – e uma lâmpada de lata, aparentemente de tão pouca valia que, no entanto, realiza todos os desejos de riqueza material em ouro e prata...

Tais imagens abrem o diálogo com diferentes saberes. E é bonito aprender a brincar por esses caminhos a fim de não perdermos nossa humanidade. Um conto são todos os outros contos, iluminando-nos a própria ignorância rumo à realização de um importante feito em nós mesmos – a resignação, a esperança e a obediência, tomar o auxílio ao próximo como uma aventura, ventura ou missão...

Das imagens tecidas pelo conto, vale abrir uma mini-galeria para a ilustração de Simone Matias. Algo que inúmeros contos tradicionais ensinam é jamais desprezar o conselho dos amigos insuspeitados...



Talvez Batu, o filho do rei fosse o aguardado livro de Celso Sisto para mostrar outros títulos que há bom tempo Dobras da Leitura recebeu. Como assegura o velho provérbio – a tempestade de areia passa, as estrelas permanecem –, será testemunho da perenidade das histórias tradicionais de todos os povos o generoso volume Mãe África: mitos, lendas, fábulas e contos (Paulus, 2007) com ilustrações do próprio autor. A reunião de trinta e uma narrativas seguiu principalmente o critério da beleza – da magia, da identidade, da poesia dos nomes diferentes com significados encantatórios e musicais...



Outros dois livros conduzem o leitor à África Ocidental e, mais especificamente, ao Senegal. O casamento da princesa, também ilustrado por Simone Matias (Prumo, 2009), tem cores suaves de rosa, vermelho, roxo terra, cor de laranja e o contraste do branco pelas páginas para contar visualmente a história da formosa Abena, com quem a Chuva e o Fogo desejam se casar. O primeiro pretendente chegou com seu olhar molhado e palavras delicadas como água no bico de pássaros. Porém, o Fogo ao pai da moça deu provas de seu poder... O caminho do amor às vezes são cinzas deixadas pra trás, mas mesmo o fogo do Fogo extingue-se com a Temperança...

Por sua vez, Raio de sol, raio de lua, com imagens de Maurício Negro (Prumo, 2011), relata acontecimentos de um tempo em que o Sol e a Lua eram crianças, vivendo com suas famílias na Terra. É verdadeiramente um conto etiológico que explica por que, desrespeitando a ética e o tabu de não espiar a própria mãe nua durante o banho, o Sol e a Lua foram separados de suas andanças e brincadeiras...


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