10 de julho de 2015

Browne’s on the table

Quando o carteiro chegou... 4


Sempre é bom voltar à década de 1980 e reencontrarmos os heróis, as canções, os brinquedos, os seriados e as novelas e, com toda certeza, os livros que lemos e outras tantas coisas que não temos em casa, na estante, mas permaneceram nalguma parte da lembrança... Ora, vou abrindo os envelopes e hoje eles me levam a viagens que não fiz – livros que não li... Sob o logotipo que é como uma onda, ondulante, da Pequena Zahar, encontro, em primeira leitura, dois títulos de Anthony Browne: Gorila (1983) e O túnel (1989), ambos com tradução de Clarice Duque Estrada (2014).

É interessante descobrir algo sobre Anthony Browne. Quando criança, ele sonhava ser jornalista, cartunista, até mesmo lutador de boxe – mas se tornou um importante autor britânico que escreve e ilustra seus próprios livros. Um selo na capa da edição brasileira cala a atenção dos olhares leitores para o fato de Browne ser “Ganhador do Prêmio Hans Christian Andersen”. Porém, nem mesmo a pequena biografia da Zahar informa que isso se deu em 2000, como ilustrador – no ano em que também Ana Maria Machado fora reconhecida como escritora. Anthony Browne ainda guarda consigo duas Medalhas Kate Greenaway (1983, 1992) para ilustradores, além de ter sido nomeado ao comissionamento do Children’s Laureate, ao longo de dois anos, entre 2009 e 2011. Indiscutivelmente, ele tem algo para nos ensinar.

O trabalho em aquarela de Anthony Browne pode ser admirado pelo suave colorido e uma profusa riqueza de detalhes, conduzindo sutilmente a narração. Daí, um contraste entre a visão realista e osonho fantástico, sem margens que os separem. Certa magia mescla ambos os elementos em uma só atmosfera – de afetos – como um registro fotográfico. Os requadros e também as páginas funcionam, muitas vezes, para isolar e opor os personagens em seus universos particulares; no entanto, será exatamente nesses espaços que o encontro deve acontecer ao longo das histórias que se quer contar e expressar...


No livro Gorila (1983), Hannah e seu pai vivem distantemente. Ambos na mesma casa com seus silêncios, ela detrás dos livros, ele detrás do jornal. Uma ilustração mostra a cozinha e ali é tudo geométrico, azul, cinza, frio, calculado como um jogo de xadrez em preto e branco, uma luta (interna) está sugerida pela perspectiva renascentista e a estranha sensação de centro e estabilidade. Hannah, a menina apaixonada por gorilas, porém, veste vermelho... Saltemos algumas páginas para encontrar a influência da história em quadrinhos sobre os livros ilustrados, mas – o mais importante: a narrativa, a transformação fantástica do boneco em um símio gigantesco, selvagem, vermelho e negro na pelagem de reflexos castanhos – um escândalo de sensível com olhos meigos. Nada, depois, escapa dessa fronteira larga da fantasia e advém a solução confortadora no retorno à convivência familiar.



No livro O túnel (1989), Rosa e o irmão João vivem distintamente. Ela dentro de casa, sozinha, enquanto ele brinca lá fora. Juntos, sempre brigavam o tempo todo – até que a mãe empurra a filha para fora de casa, com seu vestido de capuz vermelho. A rua é a nova floresta para que ambos aprendam a conviver, a recorrência aos velhos contos aí está, forte e óbvia, devoradora dos maus sentimentos, o medo de tudo. A boca do lobo está no muro de pedras disfarçado de verde. O túnel escuro, úmido, com lodo, assustador...


Anthony Browne e seus dois livros #onthetable. Para colecionadores.

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