19 de julho de 2011

cordel é um belo novelo

Peter O’Saga-ê


Com sua dezena de folhetos de histórias, dentro da mala que vai aconchegada ao peito, Assum Preto lá vai aos solavancos e nas rimas assonantes de UM PAU-DE-ARARA PARA BRASILIA, cordel de João Bosco Bezerra Bonfim, com ilustrações de Alexandre Teles (Biruta, 2010) que retrata, contrastante, a magia da memória literária e a vida do destino retirante. Quantos dias de estrada, quinze ou vinte dias, nem o motorista sabe... O que muda fora é a paisagem; dentro do peito, Assum Preto leva outro sentimento: um amor por Brasília, a jovem com nome de cidade, que partiu um dia antes nessa mesma viagem.

João Bosco dá vida ao cordelista e à moça de muita coragem. Citações a outras histórias nessa história é algo que não falta, pois foi um Fausto desalmado, no horizonte da desgraça, que muito mal inspira ao cantor com nome de pássaro e canção, a ela-moça-cheirosa e sua família. O pau-de-arara atravessa Pernambuco, Ceará, Bahia e Goiás rumo a capital brasileira, cenário de uma nova-velha novela... E o canto VI é explícito em seu título: “A donzela entra na guerra”. É Brasília procurando emprego, fosse de risco ou pesado, pelejando de bravo e valente peão, ninguém notando, pois, sua fêmea condição...

Ainda que um ou outro
Se pegasse a admirar
Os seus olhinhos pequeninos,
Convites de mergulhar,
Mas logo se censurava
Frente ao desejo ímpar.


Enquanto isso, num outro canto da cidade, Assum Preto lê folheto bonito para a sua freguesia, como a Princesa da Pedra Fina ou Juvenal contra o dragão... O tempo roda, o tempo passa, e entre roda gigante e bandeiras, numa festa mais iluminada que quermesse, acontece a inauguração da cidade, recebendo toda aquela multidão. Já se sabe, não se sabe, como faz o cantador para encontrar a amada?

Melodia sem Brasília,
Para que Brasília existe?

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