15 de junho de 2012

... nas dobras do lobo

Peter O. Sagae


Para leitores mais exigentes, a história dos três porquinhos emergirá inédita na paisagem que se esconde atrás dos muitos parágrafos da obra de Nelson Cruz – Os herdeiros do lobo (Edições SM, 2009). É um livro para viajantes de todos os feitios, como o menino e a menina que desejam apenas uma aventura bem contada, a respeito de um imigrante italiano que busca pelo amigo, o fotógrafo Cosme Zanone, desaparecido nas matas tropicais de nosso país, e cujas únicas pistas eram algumas reproduções dos quadros de Camilo Amarante Lobo...

“... vô João recolheu apressadamente seus apetrechos e montou no cavalo. Antes de receber qualquer comando, o animal deu meia-volta e seguiu por uma trilha escondida, sem marca de uso, mas que ele parecia conhecer bem. Quando surgia algum abismo à sua frente, estancava por alguns segundos e retomava logo em seguida, como se obedecesse a orientações que só ele ouvia. Pássaros enormes sobrevoavam desaparecendo na neblina, enquanto, ao longe, era possível distinguir uivos ecoando pela montanha. De vez em quando, o cavalo parava para beber a água dos riachos e seus movimentos sugeriam que meu avô fizesse o mesmo. Ele então apeava, enchia o cantil e montava novamente, submetendo-se à inquietação do animal. No meio da tarde, saíram enfim da imensa nuvem. “Foi, com certeza, um alívio”, dizia vô João. A paisagem se modificara. A trilha nesse momento se transformou num caminho entre rochas e vegetação. Estavam no meio de uma esplendorosa floresta de árvores enormes e uma profusão de grossos cipós. Seguiram a estrada e várias encruzilhadas foram surgindo. O cavalo passava de uma a outra, sucessivamente, virando ora à direita, ora à esquerda, transformando o caminho num complexo labirinto aparentemente concebido com a intenção de confundir quem ousasse passar por ele. Seria impossível sair dali sozinho! Vô João desconfiou...”

Para os viajantes de textos, em busca de novas-velhas aventuras, acostumados à montaria de intrigantes metáforas galopando florestas, trilhas e ribanceiras da intertextualidade, a obra desdobra-se sobre o processo da leitura, um segredo sempre debaixo da próxima página...


As ilustrações de Nelson Cruz não devoram apenas El Greco e outros pintores. Há Hamlet, na leitura que esboço, no convite à observação do próprio texto. A imagem = um teatro com sua cortina branca, sem mácula, sangue, tinta, tipografia, tão à espera do leitor sentar-se diante de si para escutar o seu conto, como se fosse pela primeira vez. Mais que um livro de ficção, temos, lemos, vemos, sofremos aí a fixação do próprio livro e das muitas outras histórias que ele contém, não contém, em um jogo de sombras e aparições. Quem são os herdeiros?

Um comentário:

  1. Livro muito bom. Texto e imagem constroem um clima de suspense incrível. A gente lê com um misto de curiosidade e medo (bom, pelo menos eu sentí medo haha) ... muito boa a postagem!

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