19 de junho de 2012

o enigma Rapunzel

Temporada de contos e recontos, 2


Há muitos anos, interesso-me pela história da jovem presa no alto da torre, vendo aí uma imagem axial céu-terra que constitui o centro da narrativa, entorno do qual gira o velho refrão: Rapunzel, Rapunzel, jogue-me suas tranças! Contudo, a história da moça de longas madeixas não parece ser das mais populares entre crianças ou mesmo especialistas de literatura infantil. Por quê?


Lembrando as lições de Propp a respeito do conto maravilhoso, conto de fadas ou conto de encantamento, talvez “Rapunzel” não seja exatamente um conto, uma vez que, nele, não se encontram os objetos mágicos com a função de ajudarem a personagem a vencer obstáculos e inimigos em seu caminho.

Na versão dos Grimm, de 1812, a jovem e o príncipe certamente sofrem influência da velha má, ou Senhora Gothel, mas não a vemos usar qualquer forma de magia contra os protagonistas: ela usa apenas a força, cortando os cabelos de Rapunzel e arremessando o rapaz contra os espinheiros ao pé da torre; ela também não é morta ou destruída... e sua permanência, após o final feliz, provoca grande inquietação. Os encontros amorosos sob o manto prodigioso da noite não se escondem sob a superfície do texto e o príncipe, ainda que vagando anos e anos, às cegas, encontrará a amada na companhia dos filhos gêmeos que deixou em seu ventre: um menino e uma menina. Vertidas dos olhos dela aos olhos dele, duas lágrimas recuperam milagrosamente a visão do moço, o caminho para o castelo e a possibilidade de viverem juntos para sempre.

 Aventurando-nos rumo ao passado, em 1634, no livro de Basille, encontraremos um conto napolitano chamado “Petrosinella” que apresenta toda sequência desde o nascimento da menina até a prisão na torre, mas termina de um modo bem diferente: com a perseguição mágica de uma ogra feiticeira aos dois apaixonados. Por sua vez, outro conto da mesma coletânea, “Tália, Sol e Lua”, anterior à versão francesa de A Bela Adormecida, traz elementos que ressurgem na Rapunzel alemã, como o isolamento nupcial na floresta e as duas crianças que, no deserto, nascem. São figuras que pertencem a um arquivo cosmogônico da memória humana, falando-nos da Ordem, a divisão do tempo, em um território iluminado pela alternância do Sol e da Lua, em volta do eixo amoroso que uniu a donzela e o príncipe. De fato, o nascimento do menino e da menina, em pleno deserto, simboliza e promete continuidade ao tema do casal céu-terra e dos ciclos da natureza exuberante...


De outra parte, sem lenda, sem tanto mito, ou medo de arriscar-se na noite das narrativas, Rapunzel é um texto, ainda hoje, sem fortes marcas de fixação artística. Tudo no conto me obriga a pensar em reminiscências, às quais ainda faltam uma forma e sequência conclusiva. Os motivos flutuam, o que muito favorece o exercício do reconto – como no livro de Sarah Gibb, Rapunzel, a partir da versão dos Grimm, texto de Alison Sage e tradução de Fabiana Medina (Caramelo, 2010).


As imagens de Sarah Gibb, realizadas em computador, resgatam a linguagem dos velhos livros ilustrados de contos, revelando transparências e silhuetas que evocam as projeções da lanterna mágica e do tradicional teatro de sombras, tão rico em detalhes caros a Arthur Rackham. Objetos e móveis dos cenários, árvores e animais da floresta, até mesmo o corpo dos personagens repetem-se em diferentes combinações, sugerindo a possibilidade do movimento ao olhar. Sem deserto ou crianças antes do casamento, vem delicado e elegante o texto. “Quanto à bruxa, ela continuou amarga e maldosa e só lhe restou se esconder num assombroso castelo e nunca mais sair de lá.”

Um comentário:

  1. O conto Rapunzel também muito me encanta, assim como a Bela e a Fera. Adorei seu blog. Parabens!

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