21 de junho de 2012

o mais poderoso para a mais bela

Temporada de contos e recontos, 3
por Peter O'Sagae 

Quem são os leitores das narrativas tradicionais, hoje, senão os narradores de amanhã? É essa pergunta que me voa pelos olhos, diante da capa do livro O noivo da ratinha, da escritora e ilustradora Lúcia Hiratsuka (Larousse, 2011). Veja bem, com que interesse o par de corvos observa o título e os personagens?


O compromisso palavra&imagem se constrói, desde já, por uma série de indicações da própria ilustração, com que a autora não só desenha e mostra diretamente uma cena, mas flagra a cena sendo vista por outros olhares. Com isso, denota um percurso que integra os elementos visuais e verbais, fortemente conotando significados e sugestões que não se põem a caminho apenas em uma ou outra linguagem, mas resulta de um efeito intercódigos.


Na dupla-página 4 e 5, a narração é assim aberta: “Era uma vez, no Japão... Numa certa aldeia, num certo telhado de uma casa, uma família de ratinhos.” A ilustração descortina quatro pares de asas e olhos em torno do telhado rústico de uma antiga casa japonesa, voando e pousando no galho de uma árvore. Há uma atitude metalinguística de aproximação com a história, o leitor aí inscrito na obra com seus bicos cor de laranja – e não é nada para estranhar a comparação com os corvos e sua voz portadora de notícias, tal como falam ou crocitam os leitores.

E o que veem os corvos? A silhueta da família, a filha, orelha de rata, em atitude de exibir-se vestindo quimono, leque na mão, a mais bela para os olhos dos pais. Porque é este o motivo inicial de uma fábula de longa tradição oriental e que, no Japão, dará ensejo para todos buscarem o noivo mais poderoso do mundo para a filha. Vão ao Sol, ao senhor Nuvem, ao Vento e ao Muro para descobrirem que o pretendido genro para pais tão orgulhosos era mesmo um rato do telhado vizinho... Que rata!


A velha fábula havia sido objeto de reconto por Lúcia Hiratsuka, em 1993, com o título O casamento da ratinha, e agora retorna às estantes de livros com texto novo e novas ilustrações com pinceladas rápidas, bem marcadas, em aquarela, e grafite; o resultado é bastante plástico e leve.


Em outros países do Oriente, a história tornou-se bem conhecida com detalhes que apontam figuras e valores ora universais, ora locais. No Panchatantra, conta-se que uma ratinha caiu, do bico de um falcão, às mãos de um sábio religioso e que, graças às suas orações, consegue transformar o pequeno animal em uma menina; passados anos, após a busca de um noivo para a filha adotiva, ela pede para retomar a forma original. Na Índia, pois, a fábula diz que nem mesmo o poder do homem mais santo é suficiente para alterar a destinação de cada criatura ou que ninguém escapa à sua própria natureza... Na China, o pai não aceita nenhum dos muitos pretendentes à filha, a seu ver, incapazes de enfrentar a fúria dos gatos e assegurar uma vida segura à vila dos ratos. E há uma lengalenga romena sobre um rato muito gordo que deseja uma entrevista com Deus; em seu caminho, é desprezado pelo sol, pelas nuvens, até que o vento o arremessa de volta ao velho paiol de onde saiu... Temporada de contos e recontos (de fábulas também), ah, como gostamos de tagarelar leituras ;-)

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