6 de julho de 2012

III


E quem está no livro de Angela-Lago? Uma princesa, a Divinha – diminutivo de Diva, divina e deusa, dádiva... E, do som que se transforma na relação da boca ao ouvido, seja ela princesa ou donzela, mesmo santa ou alteza, a personagem conquista a simpatia não apenas pela sabedoria-que-sabe, mas igualmente pela vitória inesperada, de que tanto gostamos nas histórias, do mais frágil sobre o mais forte. Em uma personagem, estão todas as outras em potência e possibilidades do passado: Tawaddoue, Teodora e Catarina-Dorotéia, cuja vitória se fez proclamar sobre o tribunal de sábios doutores; contrariamente, Turandot – ai, seu coração de gelo tremerá sob o fogo de uma paixão, quando o amado revelar seu nome em um beijo pousado em seus lábios... E o que acontece à Divinha, então?

Ora, a adivinha... Está por toda parte, nos jogos de linguagem d’o que é, o que é, nas palavras cruzadas, nos enigmas imaginados desde o tempo da Esfinge, entremeando-se, desde as rodas infantis aos fios da novela e do romance policial. O ponto de partida é sempre a pergunta. Contudo, mais que alcançar a resposta, importa o caminho-exercício para desvelar o que foi cifrado em segredo. Algumas adivinhas admitem dupla solução, são ricas na experiência com a linguagem, diga-se: uma linguagem especial, como nas famosas perguntas capciosas. Neste jogo, quem pergunta sempre oferece uma alternativa diferente, rebatendo a resposta que lhe foi dada. É, por isso, uma armadilha à qual o adivinhador deve esforçar-se para não cair. Decifrar significa, portanto, salvar a dignidade, escapar com vida. Como em um antigo ritual, ter a solução é encontrar o caminho da aceitação pública.

Pois bem: o jovem Príncipe da Tartária conquista a Princesa de Pequim, derrotando-a nos desafios que ninguém mais ousara adivinhar. As três respostas são: a esperança, o sangue e Turandot! E qual nome que ela mesma ignorava? Soam longamente os trompetes no palco da ópera e a moça, em frente a todo seu povo, responde: “Descoberto o segredo do estrangeiro. Seu nome é... Amor!” De fato, somente ele fora o único a dar as respostas-vida à princesa que tinha os sentimentos petri-trancafiados em seu coração frio... Enquanto ninguém dormia na cidade de Pequim, ele, Calaf, entrou em seu quarto para roubar-lhe o mais sincero beijo.

E a Divinha que é princesa, que é sabida, que é trocadilho no nome, também faz suas adivinhas e acaba adivinhada por Louva-a-deus, moço simplório que vai tentar a sorte no castelo... E que sorte encontra o rapaz por terras brasileiras! Há diversas variantes que apresentam o herói como João-de-Deus, o Matuto João, o Amarelo... Às vezes, esperto como ele só, parente mesmo de Pedro Malasartes, outras vezes, totalmente ingênuo, o tolo de bom coração que irá se casar com uma figura de alta importância, pondo fim à arrogância de qualquer princesa...

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