Temporada de contos e recontos, 5
a primeira resenha de peter o‘sagae* em 4 postagens
Sabemos que todas as histórias se perdem na noite dos tempos, narradas em diferentes lugares e, de repente, vamos encontrando seus personagens e enredos nas páginas de um pequenino livro: é o caso da princesa adivinhona tal e qual Angela-Lago resgata em SUA ALTEZA, A DIVINHA (RHJ, 1990), transportada para um texto deliciosamente combinando palavra & imagens ao ritmo de uma carta enigmática. Trata-se da história de uma princesa que se julga saber tudo e somente irá se casar com aquele que a conseguir derrotar em um jogo de adivinhações. Pois bem, que vieram lá os pretendentes! Todos, porém, acabaram na forca: rei, capitão, soldado, ladrão: era uma vez! Até que...
(Ah, não vou contar toda história, não. Vamos deixar o que acontece depois para depois) Interessa agora saber um pouco mais sobre essa antiga personagem...
É provável que Sua Alteza tenha nascido no Oriente, em uma terra escondida entre as mais diversas adaptações d’As Mil e Uma Noites... E lá começa o enigma: existiu, em tempos distintos, uma mulher de notável inteligência, conhecedora das artes e dos mistérios, medicina, astronomia, filosofia, lógica e toda ciência. Chamava-se Tawaddoue. Um tribunal formado por sábios e doutores foi convocado para interrogá-la, mas a moça saiu-se muito bem, formulando boas respostas. E sua fama correria mundo, apelidada Douta Simpatia através das paragens da tradição europeia.
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6 de julho de 2012
um enigma na teia de histórias, II
Chegando à Itália, encontraremos lá a história de Turandot, a Princesa de Pequim, nas mãos do escritor veneziano Carlo Gozzi que, no XVIII, traduziu e adaptou uma variedade de contos populares do Extremo Oriente. Sua beleza e crueldade fariam Turandot transformar-se em personagem de ópera, na primeira metade do século XX, através das partituras de Ferruccio Busoni (1911) e de Giacomo Puccini (1926). Então, nos palcos, Turandot canta e afasta muitos pretendentes: “Três são os enigmas, uma só é a morte!”
No pavilhão do palácio, no entanto, está um jovem estrangeiro que decifra as três perguntas-desafios: Qual é o fantasma que renasce a cada noite, morre ao alvorecer para continuar vivendo no coração do homem? Arde como a chama da febre e se resfria na morte, queima quando sonha com a vitória e seu brilho parece com a luz do sol que se deita? Qual o gelo que te inflama e se torna por isso mais frio, queimando-te? É ele o Príncipe da Tartária que, sequente, propõe à Turandot descobrir o nome que ele guarda em segredo... Por toda a noite, ninguém poderá dormir, enquanto o enigma do forasteiro não for descoberto. Esta é a ordem! Na ópera de Puccini, o estrangeiro canta a famosa ária “Nessun dorma” (e deixo aqui os enigmas para você resolver).
Na Península Ibérica, muitos conheceram a ventura da Donzela Teodora. De Portugal ao Brasil, num salto só, ela estará estampada em cordel com sua imbatível sabedoria. Fios que se cruzam, a teia é imensa 'té parece não ter fim, pois tem até santa nessa sanha: Catarina de Alexandria, mártir que viveu em meados do Século IV e é venerada no dia 25 de novembro como padroeira dos estudos. Sua identidade, muitas vezes, se confunde com a famosa matemática, astrônoma e filósofa Hipásia que viveu entre os anos 355 e 415 da Era Cristã. Qual seja! Diz a lenda que uma jovem de grande beleza e conhecimento enfrentou os magistrados da imemorial Biblioteca, venceu o debate e converteu todos ao Cristianismo nascente... Ora, nem sempre a virtuosa de Alexandria teve o mesmo nome: nascera Dorotéia e, com as águas do batismo, tornou-se Catarina. Nomes aí que configuram um anagrama, Teodora e Dorotéia significam igualmente ‘dádiva divina, pequena deusa, jovem de Deus’.
No pavilhão do palácio, no entanto, está um jovem estrangeiro que decifra as três perguntas-desafios: Qual é o fantasma que renasce a cada noite, morre ao alvorecer para continuar vivendo no coração do homem? Arde como a chama da febre e se resfria na morte, queima quando sonha com a vitória e seu brilho parece com a luz do sol que se deita? Qual o gelo que te inflama e se torna por isso mais frio, queimando-te? É ele o Príncipe da Tartária que, sequente, propõe à Turandot descobrir o nome que ele guarda em segredo... Por toda a noite, ninguém poderá dormir, enquanto o enigma do forasteiro não for descoberto. Esta é a ordem! Na ópera de Puccini, o estrangeiro canta a famosa ária “Nessun dorma” (e deixo aqui os enigmas para você resolver).
Na Península Ibérica, muitos conheceram a ventura da Donzela Teodora. De Portugal ao Brasil, num salto só, ela estará estampada em cordel com sua imbatível sabedoria. Fios que se cruzam, a teia é imensa 'té parece não ter fim, pois tem até santa nessa sanha: Catarina de Alexandria, mártir que viveu em meados do Século IV e é venerada no dia 25 de novembro como padroeira dos estudos. Sua identidade, muitas vezes, se confunde com a famosa matemática, astrônoma e filósofa Hipásia que viveu entre os anos 355 e 415 da Era Cristã. Qual seja! Diz a lenda que uma jovem de grande beleza e conhecimento enfrentou os magistrados da imemorial Biblioteca, venceu o debate e converteu todos ao Cristianismo nascente... Ora, nem sempre a virtuosa de Alexandria teve o mesmo nome: nascera Dorotéia e, com as águas do batismo, tornou-se Catarina. Nomes aí que configuram um anagrama, Teodora e Dorotéia significam igualmente ‘dádiva divina, pequena deusa, jovem de Deus’.
um enigma na teia de histórias, III
E quem está no livro de Angela-Lago? Uma princesa, a Divinha – diminutivo de Diva, divina e deusa, dádiva... E, do som que se transforma na relação da boca ao ouvido, seja ela princesa ou donzela, mesmo santa ou alteza, a personagem conquista a simpatia não apenas pela sabedoria-que-sabe, mas igualmente pela vitória inesperada, de que tanto gostamos nas histórias, do mais frágil sobre o mais forte. Em uma personagem, estão todas as outras em potência e possibilidades do passado: Tawaddoue, Teodora e Catarina-Dorotéia, cuja vitória se fez proclamar sobre o tribunal de sábios doutores; contrariamente, Turandot – ai, seu coração de gelo tremerá sob o fogo de uma paixão, quando o amado revelar seu nome em um beijo pousado em seus lábios... E o que acontece à Divinha, então?
Ora, a adivinha... Está por toda parte, nos jogos de linguagem d’o que é, o que é, nas palavras cruzadas, nos enigmas imaginados desde o tempo da Esfinge, entremeando-se, desde as rodas infantis aos fios da novela e do romance policial. O ponto de partida é sempre a pergunta. Contudo, mais que alcançar a resposta, importa o caminho-exercício para desvelar o que foi cifrado em segredo. Algumas adivinhas admitem dupla solução, são ricas na experiência com a linguagem, diga-se: uma linguagem especial, como nas famosas perguntas capciosas. Neste jogo, quem pergunta sempre oferece uma alternativa diferente, rebatendo a resposta que lhe foi dada. É, por isso, uma armadilha à qual o adivinhador deve esforçar-se para não cair. Decifrar significa, portanto, salvar a dignidade, escapar com vida. Como em um antigo ritual, ter a solução é encontrar o caminho da aceitação pública.
Pois bem: o jovem Príncipe da Tartária conquista a Princesa de Pequim, derrotando-a nos desafios que ninguém mais ousara adivinhar. As três respostas são: a esperança, o sangue e Turandot! E qual nome que ela mesma ignorava? Soam longamente os trompetes no palco da ópera e a moça, em frente a todo seu povo, responde: “Descoberto o segredo do estrangeiro. Seu nome é... Amor!” De fato, somente ele fora o único a dar as respostas-vida à princesa que tinha os sentimentos petri-trancafiados em seu coração frio... Enquanto ninguém dormia na cidade de Pequim, ele, Calaf, entrou em seu quarto para roubar-lhe o mais sincero beijo.
E a Divinha que é princesa, que é sabida, que é trocadilho no nome, também faz suas adivinhas e acaba adivinhada por Louva-a-deus, moço simplório que vai tentar a sorte no castelo... E que sorte encontra o rapaz por terras brasileiras! Há diversas variantes que apresentam o herói como João-de-Deus, o Matuto João, o Amarelo... Às vezes, esperto como ele só, parente mesmo de Pedro Malasartes, outras vezes, totalmente ingênuo, o tolo de bom coração que irá se casar com uma figura de alta importância, pondo fim à arrogância de qualquer princesa...
um enigma na teia de histórias, IV
O livro de Angela-Lago atualiza o jogo e o velho ritual, não apenas na linguagem especial das adivinhas, expressa nas falas da Divinha e de Louva-a-deus. A brincadeira amplia-se para as imagens que completam frases, substituindo palavras pela presença dos personagens, objetos, elementos da paisagem e demais ações da narrativa.
Se a escrita é um desenho, a autora não se faz de rogada ao jogar com a diagramação das letras sobre a página: são as vogais das palavras ‘rei, ‘soldado, ‘capitão e ‘ladrão’ que puxam a corda que prende os pretendentes pelo pescoço; a palavra ‘montanha’ é diagramada de tal forma que obriga o olhar do leitor a subir pela frase; aparecem sete ooooooovos enfileirados com a letra O e há muitos outros recursos que coloca o livro todo em movimento.
Forma e conteúdo se encontram na felicidade de um livro que não é meramente um livro, mas um artefato, objeto de papel invocando o teatro: é a presença da moldura que não fecha o foco apenas sobre o palco, mas abre espaço para o público entrar em cena, participando da torcida e da expectativa. É também o gestual do flagrante, a entonação da voz, humor e ritmo, sutilezas descortinadas a cada página virada.
* Peter O‘Sagae, em Dobras da Leitura 1, abril de 2000. Publicado anteriormente com o título “Um enigma na teia de estórias: a princesa que adivinha” In: O Balainho - Boletim de Literatura Infantil e Juvenil. São José SC, (3) : fev. 2000. Texto revisto e ampliado em 2012.
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