15 de novembro de 2013

Minuetos a passos rápidos da alma

Galanterias com Angela Lago – Primeira Parte
por Peter O’Sagae


Sempre há uma possibilidade de comparação entre a música e a literatura, entre um mestre alemão e a autora mineira, entre o violoncelo e os livros ilustrados:
ao Sol Maior dos minuetos da Suíte N.1 de Bach, redescobriremos, então, uma princesa tão linda, que é impossível pintar ou descrever, como narra Angela Lago diante o abismo estrelado de sua Psiquê (Cosac Naify, 2009).


Resgatando o mito formador de todos os contos amorosos do ciclo do noivo invisível ou monstruoso, Angela Lago permite um retorno ao prelúdio dos tempos, à terra de sombras e primeiras imagens. Não é à toa o formato cinematográfico do livro, expondo, platonicamente, as personagens que passam diante dos olhos acorrentados do leitor incauto e cego pela velocidade atual. Angela pede calma, elegância e delicadeza: um volteio por certas palavras que vieram de longe e ela escolheu para celebrar a dança de muitas histórias a passos miúdos... Está lançado o feitiço de seu minueto, na figura da princesa que solitariamente começa alongar-se e girar com se fosse repentinamente cair do chão para o alto céu triste, risonho.

Mas, ao virar de uma página, um vento carrega Psiquê


para um castelo no interior de uma floresta que ilumina e esconde olhos, simetrias e sonhos nas asas de uma borboleta. É preciso segui-la como fizeram tantas outras crianças e princesas afundando no próprio destino... Neste embrião de imagens e literatura, os troncos repetidos das árvores recortam corações e memórias, um violoncelo adormecido em um canto qualquer e mais e mais labirintos que não dizem por onde o amado chegou.

A cama do casal é um oceano na noite escura.
Símbolos que não cansam de correr rente ao olhar do leitor.
Como a bela princesa do reconto, necessitamos de uma lamparina e um punhal para tentar vencer o chamamento da fera. Ou resistir. Ah! Deslumbramento! Uma gota de devaneio se derrama aqui e ali, tão logo qualquer acidente faz tremer a visão e o pensamento, e se sabe que toda aparência aí é enganosa. O minueto alegre transforma-se em um sentimento imenso de angústia.


Ora, tal qual Psiquê, o leitor poderá vagar pela desolação de outros textos. Desventura, desaforo, dias afora, o que se assemelha à vida é desejo de morte. Era uma vez Eros... E trabalho de formiga é inventar uma trilha e separar milhares de grãos. Posso falar de histórias e outras ilustrações tantas, enquanto a autora requisita mesmo um novelo de fios de ouro de ovelhas ferozes, um vaso de água do mais profundo despenhadeiro. Ora, tal qual o leitor, Psiquê busca a beleza intacta guardada no inferno, ou seja, no seu e nosso mundo interior.


Bravamente,
atravessamos o umbral de um lugar não sei onde, indo buscar talvez na alma um quê de presente e esperança: talvez onde as nuvens do céu tocam a terra.

Um comentário:

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