6 de agosto de 2015

a narração sucessiva e um tipo de lógica verbal nos livros de imagem

peter o'sagae


Existe uma pedagogia do pensamento e dos afetos nos livros de imagem?

É muito extensa a produção de livros de imagem. Conforme o olhar teórico, podemos considerá-los em uma variedade que se inicia com os imagiários ou coleções de figuras com que se ensina o nome de objetos, das cores, das formas – e, bem parece, os franceses foram mestres em fazer-ensinar também os verbos e as locuções adverbiais, as preposições e outras classes de palavras gramaticais... Ora, livros de imagem têm sido tradicionalmente confundidos com álbuns de figurinhas – e por que não seriam agora postos mais próximos dos livros ou cadernos de colorir?

Contudo, os livros de imagem que mais chamam a atenção dos interessados em literatura são ou deveriam ser aqueles que, unidos à palavra, resultam na construção de um texto narrativo ou poético. Palavra que está no título, palavra que germina da imagem, palavra que se abre na mente que lê. E gosto da ideia de uma palavra intransferível que não precisasse sofrer o concurso de vir alinhada em uma frase, pois aponta (ou brilha) em várias direções (ou dimensões).


Ao comentar literatura e livros de imagem, diversas vezes tenho privilegiado as três modalidades da arte narrativa: a narração espacial, a narração sucessiva e a narração causal. A primeira categoria mais próxima dos caracteres visuais e poéticos, enquanto a terceira se entrelaça com fios e acontecimentos subordinados uns aos outros, constituindo uma trama. No entanto, é a narração sucessiva que nos dá exemplos mais numerosos – como a coleção Histórias do Coração, com roteiro de Sonia Junqueira e os desenhos coloridos muito fluidos de Mariângela Haddad (Autêntica, 2008-2013).

São sete livros que trabalham rumo a uma tomada de consciência e a mudança de comportamentos. A imagem torna-se suporte para os valores que se quer transmitir às crianças, mostrando-nos como um argumento orientado para o convencimento do leitor resultará em histórias caracterizadas pela enumeração de cenas que se juntam por um expediente de coordenação verbal. Como isso funciona?


Cada página ou cena ilustra uma situação particular; o conjunto das ações acaba por explicitar um conceito maior. Pensemos na sequência de um desses livros: um grupo de crianças captura um pássaro vermelho em uma arapuca e o prendem numa gaiola para alegria de amigos e vizinhos; ato contínuo, ao caminhar pela rua, um desses meninos vai passando por uma menina que brinca atrás das grades do jardim de sua casa, uma senhora que brinca com seu gato atrás da janela gradeada, outra menina “presa” em uma cadeira de rodas, vários animais “presos” em uma vitrine, um senhor que caminha “preso” a sua bengala, mais um leão, um tigre e um macaco, todos em jaulas puxadas pelo caminhão de um circo... O tema principal mostra-se pela repetição, até que o menino que passeava, entristecido, senta-se no banco da praça – e, como o leitor deve fazer, alcança a ideia maior de liberdade – disparando de volta para soltar o pássaro vermelho.

Este é todo o enredo e também a estrutura do pensamento configurados em O MENINO E A GAIOLA que abre a primeira fase da coleção juntamente aos títulos A VELHINHA NA JANELA e O GATO E A MENINA, todos de 2008. Um texto visual regido pela linearidade do discurso verbal, em que o acúmulo de cenas busca apresentar e despertar uma verdade (ou conceito de liberdade, justiça, solidariedade, etc.) à criança, empregando e exercitando um raciocínio indutivo em sua construção. Obviamente há de ficar visível, no conjunto de histórias, uma preocupação das autoras em apresentar o mais diversificado tecido social – pessoas de várias idades e fisionomias convivendo nos espaços da cidade, casas e apartamentos, ruas e veículos, escolas e praças – com que a intencionalidade não se descose de um contexto urbano, emergente, atual...


Por sua vez, os livros lançados em 2009, ainda condicionados à sucessividade e ao ambiente cotidiano, operam com a quebra de expectativa do leitor, ou seja, lançam mão de um elemento surpresa. OS FEITIÇOS DO VIZINHO envolve uma figura retórica como a gradação, através da estranheza, da curiosidade e da bisbilhotice das pessoas na vida alheia, deflagrando o tema da narrativa: o preconceito que desemboca e desembesta na fofoca. Tal tese ou entrecho remete ao livro de Ricardo Azevedo, Tá vendo uma velhota de óculos, chinelo e vestido azul de bolinha branca, no portão daquela casa? (FTD, 1987, Companhia das Letras, 1998). Porém, o vizinho não era nenhum feiticeiro, mas... um mediador de leitura!


A MENINA E O TAMBOR é o título que melhor traduz o nome da coleção Histórias do Coração; após sucessivas tentativas para animar e alegrar as pessoas que encontra nas ruas, uma menina de tranças descobre de onde tirar toda a força e o ritmo para a vida...


Enquanto linguagem, ambos os títulos começam a utilizar mais explicitamente recursos próprios das histórias em quadrinhos, com ênfase nos balões de fala para representar visualmente o discurso citado e uma série de onomatopeias. Daí que sempre pergunto: e livro de imagem é livro sem palavras?


Por fim, A ÁRVORE DE DINHEIRO, mais O MENINO E O PEIXINHO, lançamentos de 2013, ambicionam contar histórias que revelam os desejos e a psicologia dos personagens. Os conflitos são um pouco mais imediatos ou pontuais – um menino que planta uma moeda no quintal de sua casa e outro que adota um peixinho que ninguém queria por achá-lo feio. Contudo e desnecessariamente, esses dois volumes apresentam nas últimas páginas “a história em palavras” – talvez para não deixar escapar a intencionalidade ou mensagem moral, alinhavando significados na primeira pessoa do discurso, expediente verbal que a imagem, por si só, jamais alcançaria. Vale indagar – um livro de imagem é, ou não, uma narrativa encenada diante dos olhos do leitor?



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