24 de agosto de 2015

histórias navegam na voz

peter O.o.O.o...


Comece procurando uma sereia nos livros, pois ler não é somente uma viagem a outras eras, outras terras, mas igualmente a outras histórias e textos, mitos revisitados e travestidos em imagens que fascinam o leitor curioso. Comece encontrando um homem, velho talvez, que deite palavras ao vento... Tem esse homem que mora no banco da praça, aponta Luiz Bras, esse homem feito de sonhos, risadas, primaveras e ideias engraçadas. 
De onde ele veio?
De outro país? De outro planeta?
Semana passada foi aniversário dele.
— Hoje eu faço mil anos — ele disse muito sério, mas também muito feliz.
Não estava brincando, não.

O compromisso com a leveza é algo para nós muitas vezes estranho, não é mesmo? Quem lê, ouve e compartilha histórias corre sempre o risco de parecer o habitante de um lugar estrangeiro, alguém que sempre desperta alguma desconfiança, alguém sem juízo, um louco, sempre. Experimente você subir com os pés no banco da praça e confessar que tem mil anos de idade e venturas para contar... Pois era um homem de roupa surrada, voz áspera, de barbas brancas, encurvado sobre o próprio coração maltrapilho que Aline viu e ouviu contar façanhas de outras vidas, outros mares, outros amores...


No livro PROCURA-SE UMA SEREIA, com ilustrações de Alexandre Camanho (SESI-SP Editora, 2014), Luiz Bras faz da voz uma onda gigante empurrada pelo vento e, assim, vai mesclando, através do discurso, a realidade do mundo narrado pelo velho da praça às possibilidades do mundo vivido de todos nós. É doce saber que o leitor/ouvinte habituando-se à imaginação, um dia, poderá dizer – chovia demais dentro da gente, ventava demais dentro da gente... e descobrir muito mais coisas. Para sonhar, correr o risco. De viver.


 E amanhã será o aniversário de um velho amigo, voz que retumbava trovões, sem barbas brancas, mas poeta e prosador de muita imaginação, dialogando entre gentes de muitas idades. Entrava mês, saía mês e a nossa cidade era a mesma, sem novidade alguma, começa escrevendo Elias José no livro que voa da estante, agorinha, A CIDADE QUE PERDEU O SEU MAR, com ilustrações de Marilda Castanha (Paulus, 1998). Entrava ano, saía ano, já não éramos crianças pequenas, nem éramos moços ainda. 
Já queríamos ser gente séria, sem esquecer as bolas de meia, as pipas e os brinquedos de pique. Meio escondidos, fazíamos a infância voltar e era bom segurar o tempo [...] Em nossa cidade, todos eram mais ou menos iguais. Ninguém muito rico nem muito pobre.

E do tempo que se plantava serviço com os pés de café e as casas recebiam visita de parentes para os festejos do padroeiro, a quermesse de São Francisco, desse tempo quando as noites se enchiam com bandeirolas, sons de banda e a música de antigos discos girando na agulha até os alto-falantes, Elias José trouxe o estranho encantado da memória, com palavras que ondejam em nossos ouvidos. Em uma praça, encontramos a figura de Manuelão Marinheiro com irrevogáveis olhos de céu e rugas multiplicadas por todo rosto. São suas histórias o vasto mar às vezes manso, às vezes raivoso, tomando conta das ruas e das pessoas...


Ambos os textos atestam o amor sobre as coisas um mar que desejamos fiquem dentro de nós, enquanto o sonho for mistério e imensidão e venha contar e recontar as suas histórias.

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Um comentário:

  1. Tem muitos bons autores hoje por aqui, mas adoro o Elias José, suas histórias têm um tom incrível de "infância esquecida".

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