A respeito do livro O REI DO ESPETÁCULO, de Elias José, com ilustrações Mariana Massarani (Paulinas Editora, 2005), escrevi no velho site-revista Dobras da Leitura Ano VI - N.º 30, São Paulo: fevereiro de 2006 :-)
Se o rei da confusão é João, e o rei da brincadeira é José... ê Elias, quem você é? Poeta e contador de histórias que agora inventa um livro-homenagem com um lápis apontadinho — o verdadeiro 'rei do espetáculo' — nosso amigo soberano que, quando “em boas mãos, pode fazer coisas de endoidar, de mudar a cara deste mundo algumas vezes chato.”
Neste livro, vinte poemas como se juntasse os dedos das mãos e dos pés, sobre as alegrias e as inquietações do ato criativo, das primeiras letras ao escritor, o desenhista, o professor e o intelectual... o compositor, o arquiteto, o jornalista, o cientista, a costureira e o agricultor, o matemático e o turista. O índio e o lápis? Você nem mesmo esquece o anjo, a velhinha, a adolescente apaixonada e a criança desenhista! Quem poderá dizer que o poeta tem memória curta?
E como o livro-espetáculo não pode parar, vem então seu convite: “leitores virarão poetas e passarão a criar novos poemas para mostrar o poder do nosso rei.” E seus versos já andam soltos por aí, na métrica livre, rimando muito mais ideias do que sílabas... Ora, ora é assim que faz nascer encantadas gentes e continentes na vida que se reconstrói sobre o papel. O ritmo, a harmonia e os sons / dos sentimentos humanos são aqui plantados.
E, para completar seu espetáculo, Elias, vem Mariana Massarani responder à brincadeira com um livro-circo feito de lápis, borracha e cores!
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5 de outubro de 2018
13 de junho de 2017
encantamentos de Elias
peter O sagae
No ano passado, ao visitar o Instituto Cultural Elias José, durante a VI semana literária promovida na cidade de Guaxupé MG em homenagem ao escritor, Silvinha me perguntou qual livro de Elias eu gostaria de levar como presente. Respondi apressado: CANTOS DE ENCANTAMENTO, que me atraía pela capa com desenhos tão cheios de detalhes com traços delicados de Mariângela Haddad (Formato, 1996, 12.ed. 2012) e pela proposta de releituras sobre os mitos brasileiros. Eu sempre via e ouvia, saltando pelas sacolas dos programas de formação de professores, de escola em escola, o poema “Os sonhos do Saci” que abre a antologia, com seu jeito bem mais risonho, bem mais moleque, e durante muitos anos ficava a imaginar quais e como seriam os outros perfis retratados com o carisma de Elias José.
É fácil dizer que a gente se encanta apenas com as criaturas que conhece bem, mas preferimos algumas surpresas, como o Cavalo-Fantasma com seu galopar onomatopaico “em triste trotre trote trote”, em três patas apenas, asas e vulto, cabeça nenhuma, pelas ruas de pedra de um lugarejo qualquer, ou o papa-menino chamado Chibamba que dança nas folhas de bananeira fazendo chiado e tambor, com o peso do próprio corpo e dos próprios pés. Mas há também no livro a Cobra-Caninana que voa “mais veloz que passarinho” envolvida nas dobras de muitos ritmos – frevo, xaxado, calango – que o poeta fez coincidir os mitos com outros aspectos da cultura popular.
Inspirado em textos lendários e informativos, Elias José apresenta com leveza o que os estudiosos poderiam reconhecer como poesia didática, cuja tradição remonta a busca e a transmissão da verdade entre os filósofos, tal a intenção de Parmênides. Porém, com o poeta das crianças, o resultado é bem diverso – e divertido, ao combinar muitas vozes em uma leitura-ciranda dos mitos populares brasileiros, como aparece na segunda estrofe do longo poema dedicado ao Curupira:
O preciosismo está nesse cuidado. Sabedor que as histórias folclóricas admitem muitas verdades, Elias José descreve, a sua maneira, a alma quente do Negrinho do Pastoreio agasalhando os meninos desamparados no frio das ruas e dos viadutos nas grandes cidades; Pedro Malasartes a espantar verdadeiramente os males do mundo, convivendo com gente que só faz artes, como os poetas.
O livro é dividido em ENCANTAMENTOS DA TERRA, incluindo ainda poemas sobre o brilho das Cavalhadas; a guerra-dança dos Caiapós, cujo entrecho dramático encerra o rapto da bugrinha bonita por um homem branco; o bate-pé querido do Cateretê ao som da viola, finalizando com a “Oração de São Longuinho” e um causo “À moda caipira” – talvez esses três últimos mais próximos das manifestações ao sul de Minas Gerais, norte do estado de São Paulo, até alcançar as tradições litorâneas, donde desconfio o caminho beira-rio, beira-mar, na direção dos ENCANTAMENTOS DAS ÁGUAS.
Na segunda parte, vem a Iara de mansinho, vem no feitiço da repetição das palavras, na hora do sol se pôr, vem Iara para levar um noivo embora... E vêm moradores sobrenaturais do Velho Chico, como o Cavalo do Rio e o Cachorrinho d’Água. Em “O Pescador Encantado”, a voz de eu-lírico-Elias se faz voz de pescador em dedo de prosa com os leitores.
Livro-ciranda, como expressou o autor, CANTOS DE ENCANTAMENTO recebeu o selo "Altamente Recomendável" FNLIJ 1996, o Prêmio de Incentivo no Concurso NOMA para Ilustradores, no Japão, em 1996, e o Prêmio Adolfo Aizen, da União Brasileira dos Escritores, para Melhor Livro Infantojuvenil em 1997, além de ter sido selecionado pela Fundação Luís Eduardo Magalhães, pelo Salão Capixaba - ES e pelo Programa Fome de Livro, da Fundação Biblioteca Nacional.
No ano passado, ao visitar o Instituto Cultural Elias José, durante a VI semana literária promovida na cidade de Guaxupé MG em homenagem ao escritor, Silvinha me perguntou qual livro de Elias eu gostaria de levar como presente. Respondi apressado: CANTOS DE ENCANTAMENTO, que me atraía pela capa com desenhos tão cheios de detalhes com traços delicados de Mariângela Haddad (Formato, 1996, 12.ed. 2012) e pela proposta de releituras sobre os mitos brasileiros. Eu sempre via e ouvia, saltando pelas sacolas dos programas de formação de professores, de escola em escola, o poema “Os sonhos do Saci” que abre a antologia, com seu jeito bem mais risonho, bem mais moleque, e durante muitos anos ficava a imaginar quais e como seriam os outros perfis retratados com o carisma de Elias José.
É fácil dizer que a gente se encanta apenas com as criaturas que conhece bem, mas preferimos algumas surpresas, como o Cavalo-Fantasma com seu galopar onomatopaico “em triste trotre trote trote”, em três patas apenas, asas e vulto, cabeça nenhuma, pelas ruas de pedra de um lugarejo qualquer, ou o papa-menino chamado Chibamba que dança nas folhas de bananeira fazendo chiado e tambor, com o peso do próprio corpo e dos próprios pés. Mas há também no livro a Cobra-Caninana que voa “mais veloz que passarinho” envolvida nas dobras de muitos ritmos – frevo, xaxado, calango – que o poeta fez coincidir os mitos com outros aspectos da cultura popular.
Inspirado em textos lendários e informativos, Elias José apresenta com leveza o que os estudiosos poderiam reconhecer como poesia didática, cuja tradição remonta a busca e a transmissão da verdade entre os filósofos, tal a intenção de Parmênides. Porém, com o poeta das crianças, o resultado é bem diverso – e divertido, ao combinar muitas vozes em uma leitura-ciranda dos mitos populares brasileiros, como aparece na segunda estrofe do longo poema dedicado ao Curupira:
“Quem já viu o CurupiraMesmo sabendo tanto (ou parecendo que sabe tanto), o poeta como tonto, pelos passos às avessas do Curupira elétrico que solta mil choques e luzes, o poeta termina seus versos com reticências e dúvidas... A resposta para esse procedimento, abertura para quem lê, está no prefácio que Elias José escreveu. “Livro pronto e em suas mãos, caro leitor, fica o convite para você ler, vibrar e brincar de modificar os poemas. Como os mitos, quero que os meus poemas sejam de todos nós. Cante, corte, acrescente, misture, mude o ritmo e o rumo.”
cai sempre em contradição:
uns falam que ele é gigante,
outros, que é um curumim
e outros, que é um anão.
Uns falam que ele se mostra,
outros dizem que se esconde
bem dentro do breu da noite.”
O preciosismo está nesse cuidado. Sabedor que as histórias folclóricas admitem muitas verdades, Elias José descreve, a sua maneira, a alma quente do Negrinho do Pastoreio agasalhando os meninos desamparados no frio das ruas e dos viadutos nas grandes cidades; Pedro Malasartes a espantar verdadeiramente os males do mundo, convivendo com gente que só faz artes, como os poetas.
O livro é dividido em ENCANTAMENTOS DA TERRA, incluindo ainda poemas sobre o brilho das Cavalhadas; a guerra-dança dos Caiapós, cujo entrecho dramático encerra o rapto da bugrinha bonita por um homem branco; o bate-pé querido do Cateretê ao som da viola, finalizando com a “Oração de São Longuinho” e um causo “À moda caipira” – talvez esses três últimos mais próximos das manifestações ao sul de Minas Gerais, norte do estado de São Paulo, até alcançar as tradições litorâneas, donde desconfio o caminho beira-rio, beira-mar, na direção dos ENCANTAMENTOS DAS ÁGUAS.
Na segunda parte, vem a Iara de mansinho, vem no feitiço da repetição das palavras, na hora do sol se pôr, vem Iara para levar um noivo embora... E vêm moradores sobrenaturais do Velho Chico, como o Cavalo do Rio e o Cachorrinho d’Água. Em “O Pescador Encantado”, a voz de eu-lírico-Elias se faz voz de pescador em dedo de prosa com os leitores.
“Nas noites de sexta-feira,O rio é um lugar realmente cheio de interdição para a pescaria em dias santos e na Quaresma; seus seres encantados são uma profusão da mestiçagem brasileira. Entre caboclos e caiçaras, mais todos os mulatos, surge também “O Barba-Ruiva da Lagoa Paranaguá” que foi menino e criado nas águas foi, cresceu, virou moço que jamais envelhecia para namorar as lavadeiras. Rememorando a Semana Santa, neste mito encontradiço no interior do Piauí, Elias José vai cantando outros festejos da nossa religiosidade. Para a passagem de ano, o poeta louva e reza
eu não pesco, não.
Pode até dar lua cheia,
que eu não pesco, não.
Pode a morena pedir,
que eu não pesco, não,
podem me dar um milhão,
que eu não pesco, não.”
“Nossa mãe, Iemanjá,Lembrando, no poema final, que
ajude pretos e brancos
– todos são filhos de Deus –
a acharem um só caminho
que os leve à liberdade.”
“A Senhora AparecidaE canta Elias encantos das lendas à própria crença nas forças superiores, unindo-nos em laços de humildade perante as bênçãos divinas numa ciranda. Também as ilustrações de Mariângela Haddad ensinam e inspiram o olhar, com suas figuras e suas molduras em torno, em torneio, no sentido de elegância no desenho de folhas, pássaros, peixes, casas, tramas, cenas, bandeiras, diálogos, repetições e iluminuras de um jeito diferente, desenho feito à mão, aquarela e nanquim de bico fino, de um jeito brasileiro.
apareceu nas águas
do Paraíba
e veio abençoar
nossa gente tão sofrida.”
Livro-ciranda, como expressou o autor, CANTOS DE ENCANTAMENTO recebeu o selo "Altamente Recomendável" FNLIJ 1996, o Prêmio de Incentivo no Concurso NOMA para Ilustradores, no Japão, em 1996, e o Prêmio Adolfo Aizen, da União Brasileira dos Escritores, para Melhor Livro Infantojuvenil em 1997, além de ter sido selecionado pela Fundação Luís Eduardo Magalhães, pelo Salão Capixaba - ES e pelo Programa Fome de Livro, da Fundação Biblioteca Nacional.
8 de junho de 2017
não mandem flores para as crianças
peter O sagae
Vasculhando os livros guardados na memória, não encontro antologias que falem de flores para crianças, integralmente, fora um ou outro poema de exceção que não insista em suspirar a pétala perdida com a cor de rosa da infância ou repetir rimas óbvias por entre ingênuas borboletas, cores e olores. Realmente é uma temática difícil, quando pensamos que a generalidade das flores se tornou arranjo ou objeto de contemplação, símbolos de alegrias e desastres amorosos, inspirando bem poucos versos animistas, amigos, animados. Realmente, pensemos, para quê mandar flores para as crianças?
Claramente não concordo com o que diz o título dessa postagem, apenas sinto realmente um vazio de referências e corro aos livros que dormem na estante. Vez ou outra abro UM POUCO DE TUDO, de Elias José (1982), e encontro UM POUCO DE FLORES, em diálogo bem humorado com o leitor – a hortênsia, rainha da paciência, toda gordura, a triste violeta, a rosa que não é flor para qualquer poeta, o girassol aluado e as algas que embalam as criaturas do mar. Também tomo o irregular POETANDO FLOR, de Lúcia Pimentel Góes (1991), como um ramalhete de experimentações com a sonoridade e a espacialidade das palavras na página.
Uns vinte anos passariam para podermos colher e ouvir as CANTORIAS DE JARDIM, de Eloí Elisabet Bocheco com ilustrações de Elma (Paulinas, 2012). O livro traz temas e formas inspiradas na poesia de origem folclórica – quadrinhas e jogos dialogados, principalmente – junto aos textos que nascem na cabeceira ou na escrivaninha, entre a visão e a escrita particular da autora. São diferentes aromas que se mesclam nesse jardim de palavra e brinquedo.
Tem origem na fala popular os poemas dedicados às flores de nome e aparência às vezes mais simples, como camomila, margarida, cravo e rosa de todas as cores, açucena, jasmim branco, flor-de-maio e palma-flor – com um pé fixo nas cantigas e nos recortados das cirandas. Com a forma característica da trova, ocorre volta e meia a justaposição de dois versos iniciais com outros dois que vêm assinalar uma ruptura temática, mas também o forte paralelismo tão comum aos jogos da memória e do improviso. A terceira estrofe do primeiro poema, nesse sentido, é exemplar:
Em outros poemas, o ouvido sonoro da autora se distrai com ecos – e as marcas da poesia popular vão se diluindo. Estou a ler e a reler o tremor da hortênsia, o jasmim sonhador, delicadas as begônias, a petúnia breve e o hospitaleiro amor-perfeito. Se eu fosse um peixinho, talvez usasse apenas o verbo no pretérito imperfeito, porém morava num lugar onde vivem os sábios insetos – a borboleta, o grilo, a joaninha e outros, um lugar onde parece existir um “único amor sem defeito”.
Por fim, é preciso colher flores que nascem da experiência com a linguagem escrita, em que a estrutura e a divisão em estrofes mostram-se em formas variadas, com ritmos e dizeres também variados. É o caso dos poemas “Rei do jardim” e “O preferido” que dividem a mesma abertura das páginas em espelho; “Qual é a flor?”, pergunta Eloí, que são contas azuis, colares de luz, fino bordado... Temos aí nomes que deixo para o leitor descobrir.
Há ainda “Viva a sempre-viva!” que brinca com repetições de palavras e o deslocamento delas sobre o eixo sintagmático dos versos, por isso, o efeito venha a soar mais frio ou calculado do que todos os demais. Eixo sintagmático, eu sei, soa igualmente estranho e nem se preocupe se agora você não entender. É um festim de palavras pra lá e pra cá, lembrando cantorias da Tropicália em seus momentos de exaltação. É preciso estar atento e forte (porque) a sempre-viva só tem cores vivas!
E quase me esqueço do copo-de-leite em duas quadras que falam do luar e mereciam realmente o branco mais branco de uma página quase silenciosa de ilustrações. Ponto alto, no entanto, para quem conheceu Eloí cronista e tecelã de casos fantásticos nas colunas do jornal, é o poema que narra como surgiu a violeta: uma história que o eu-lírico traz gravada nas linhas da mão, uma história leve que fala de um velho profeta penteando as longas barbas na janela do céu, e fala também de um vento forte, de um riacho e seus peixes, de uma catadora de sementes e gotas, muitas gotas.
CANTORIAS DE JARDIM, o livro, tem projeto gráfico de André Neves. Muitas vezes as páginas funcionam em um ritmo quaternário, isto é, a cada duas aberturas, a ilustração impõe uma breve narrativa visual. Após a folha de rosto e o índice que trazem flores de pétalas brancas e miolos amarelos, vemos uma página sem desenhos e mais outra com duas dessas flores ao vento, emoldurando o primeiro poema; são flores de camomila ou são margaridas que se apresentam ainda na abertura seguinte, já o fundo amarelo, onde um personagem com pétalas e asas permanece em pé sobre o miolo da flor. Outro flagrante é a sequência pp.20-23. Elma desenhou um jardineiro com um imenso balaio às costas, caminhando da esquerda para direita, olhando rumo ao poema “Delicadas” – e viramos a página para encontrá-lo ao pé da namorada com um buquê de hortênsias nas mãos.
Outra narrativa também se revela nas imagens de Elma. Na abertura das pp.34-35, flores de jasmim-manga decoram os poemas “Petúnia” e “Jasmim”. Sentada à beira do rio que parece transformado em lagoa, uma menina de vestido azul e pássaro na cachola. Você pode dizê-la com nome próprio – Petúnia. Ou ler seu gesto de Ofélia, ou desconfiar que seja uma ninfa – Eco, enamorada de Narciso, invisível ao olhar e ao reflexo que deita na água.
Ora, não mandem flores para as crianças.
Elas poderão gostar.
Vasculhando os livros guardados na memória, não encontro antologias que falem de flores para crianças, integralmente, fora um ou outro poema de exceção que não insista em suspirar a pétala perdida com a cor de rosa da infância ou repetir rimas óbvias por entre ingênuas borboletas, cores e olores. Realmente é uma temática difícil, quando pensamos que a generalidade das flores se tornou arranjo ou objeto de contemplação, símbolos de alegrias e desastres amorosos, inspirando bem poucos versos animistas, amigos, animados. Realmente, pensemos, para quê mandar flores para as crianças?
Claramente não concordo com o que diz o título dessa postagem, apenas sinto realmente um vazio de referências e corro aos livros que dormem na estante. Vez ou outra abro UM POUCO DE TUDO, de Elias José (1982), e encontro UM POUCO DE FLORES, em diálogo bem humorado com o leitor – a hortênsia, rainha da paciência, toda gordura, a triste violeta, a rosa que não é flor para qualquer poeta, o girassol aluado e as algas que embalam as criaturas do mar. Também tomo o irregular POETANDO FLOR, de Lúcia Pimentel Góes (1991), como um ramalhete de experimentações com a sonoridade e a espacialidade das palavras na página.
Uns vinte anos passariam para podermos colher e ouvir as CANTORIAS DE JARDIM, de Eloí Elisabet Bocheco com ilustrações de Elma (Paulinas, 2012). O livro traz temas e formas inspiradas na poesia de origem folclórica – quadrinhas e jogos dialogados, principalmente – junto aos textos que nascem na cabeceira ou na escrivaninha, entre a visão e a escrita particular da autora. São diferentes aromas que se mesclam nesse jardim de palavra e brinquedo.
Tem origem na fala popular os poemas dedicados às flores de nome e aparência às vezes mais simples, como camomila, margarida, cravo e rosa de todas as cores, açucena, jasmim branco, flor-de-maio e palma-flor – com um pé fixo nas cantigas e nos recortados das cirandas. Com a forma característica da trova, ocorre volta e meia a justaposição de dois versos iniciais com outros dois que vêm assinalar uma ruptura temática, mas também o forte paralelismo tão comum aos jogos da memória e do improviso. A terceira estrofe do primeiro poema, nesse sentido, é exemplar:
“O fogo quando se apagaDaí encenar o diálogo, como:
na cinza deixa o calor.
Camomila quando balança
esmalta o chão de flor.” (p.07)
“— Rosa encarnada,Ou então fazer um cruzadinho com as figuras nos dois primeiros versos para fechar os dois últimos com uma provocação:
quem te incendiou?
— Foi o sol nascente
que aqui chegou.” (p.12)
“Flor-de-maio no canteiro,Da inspiração enraizada no folclore, passamos a ouvir cantorias da música popular brasileira. São três ou mais homenagens. O eu-lírico de Eloí Elisabet Bocheco diz assim: “Este lírio quem me deu foi Yara” aludindo à ciranda de Lia do Itamaracá; no mesmo poema, sai um verso, sai uma quadra inteira, para os irmãos Tonico e Tinoco:
passarinho na janela.
O que espera, passarinho,
para beijar flor tão bela?” (p.38)
“Sereno caiu no lírioTalvez alguém se lembre ainda de uma marchinha de 1939 composta por Benedito Lacerda e Humberto Porto, A jardineira, ao ler o poema que fala da camélia que suspira no galho. Segundo Eloí, cai orvalho, cai perfume, cai nosso coração no laço, mas a flor continua lá, branca, roxa, arco-íris e luar... A ilustração de Elma, nesta abertura de páginas, dá conta de mostrar como as flores se animam e se agitam com asas de elfo, jeito de fada, cara de sílfide – uma alma, uma criatura florida é, ela mesma, a jardineira com regador na mão e a flor.
Sereno deixa cair
Sereno da meia-noite
faz tempo que foi dormir.” (p.24)
Em outros poemas, o ouvido sonoro da autora se distrai com ecos – e as marcas da poesia popular vão se diluindo. Estou a ler e a reler o tremor da hortênsia, o jasmim sonhador, delicadas as begônias, a petúnia breve e o hospitaleiro amor-perfeito. Se eu fosse um peixinho, talvez usasse apenas o verbo no pretérito imperfeito, porém morava num lugar onde vivem os sábios insetos – a borboleta, o grilo, a joaninha e outros, um lugar onde parece existir um “único amor sem defeito”.
Por fim, é preciso colher flores que nascem da experiência com a linguagem escrita, em que a estrutura e a divisão em estrofes mostram-se em formas variadas, com ritmos e dizeres também variados. É o caso dos poemas “Rei do jardim” e “O preferido” que dividem a mesma abertura das páginas em espelho; “Qual é a flor?”, pergunta Eloí, que são contas azuis, colares de luz, fino bordado... Temos aí nomes que deixo para o leitor descobrir.
Há ainda “Viva a sempre-viva!” que brinca com repetições de palavras e o deslocamento delas sobre o eixo sintagmático dos versos, por isso, o efeito venha a soar mais frio ou calculado do que todos os demais. Eixo sintagmático, eu sei, soa igualmente estranho e nem se preocupe se agora você não entender. É um festim de palavras pra lá e pra cá, lembrando cantorias da Tropicália em seus momentos de exaltação. É preciso estar atento e forte (porque) a sempre-viva só tem cores vivas!
E quase me esqueço do copo-de-leite em duas quadras que falam do luar e mereciam realmente o branco mais branco de uma página quase silenciosa de ilustrações. Ponto alto, no entanto, para quem conheceu Eloí cronista e tecelã de casos fantásticos nas colunas do jornal, é o poema que narra como surgiu a violeta: uma história que o eu-lírico traz gravada nas linhas da mão, uma história leve que fala de um velho profeta penteando as longas barbas na janela do céu, e fala também de um vento forte, de um riacho e seus peixes, de uma catadora de sementes e gotas, muitas gotas.
CANTORIAS DE JARDIM, o livro, tem projeto gráfico de André Neves. Muitas vezes as páginas funcionam em um ritmo quaternário, isto é, a cada duas aberturas, a ilustração impõe uma breve narrativa visual. Após a folha de rosto e o índice que trazem flores de pétalas brancas e miolos amarelos, vemos uma página sem desenhos e mais outra com duas dessas flores ao vento, emoldurando o primeiro poema; são flores de camomila ou são margaridas que se apresentam ainda na abertura seguinte, já o fundo amarelo, onde um personagem com pétalas e asas permanece em pé sobre o miolo da flor. Outro flagrante é a sequência pp.20-23. Elma desenhou um jardineiro com um imenso balaio às costas, caminhando da esquerda para direita, olhando rumo ao poema “Delicadas” – e viramos a página para encontrá-lo ao pé da namorada com um buquê de hortênsias nas mãos.
Outra narrativa também se revela nas imagens de Elma. Na abertura das pp.34-35, flores de jasmim-manga decoram os poemas “Petúnia” e “Jasmim”. Sentada à beira do rio que parece transformado em lagoa, uma menina de vestido azul e pássaro na cachola. Você pode dizê-la com nome próprio – Petúnia. Ou ler seu gesto de Ofélia, ou desconfiar que seja uma ninfa – Eco, enamorada de Narciso, invisível ao olhar e ao reflexo que deita na água.
Ora, não mandem flores para as crianças.
Elas poderão gostar.
24 de agosto de 2015
histórias navegam na voz
peter O.o.O.o...
Comece procurando uma sereia nos livros, pois ler não é somente uma viagem a outras eras, outras terras, mas igualmente a outras histórias e textos, mitos revisitados e travestidos em imagens que fascinam o leitor curioso. Comece encontrando um homem, velho talvez, que deite palavras ao vento... Tem esse homem que mora no banco da praça, aponta Luiz Bras, esse homem feito de sonhos, risadas, primaveras e ideias engraçadas.
O compromisso com a leveza é algo para nós muitas vezes estranho, não é mesmo? Quem lê, ouve e compartilha histórias corre sempre o risco de parecer o habitante de um lugar estrangeiro, alguém que sempre desperta alguma desconfiança, alguém sem juízo, um louco, sempre. Experimente você subir com os pés no banco da praça e confessar que tem mil anos de idade e venturas para contar... Pois era um homem de roupa surrada, voz áspera, de barbas brancas, encurvado sobre o próprio coração maltrapilho que Aline viu e ouviu contar façanhas de outras vidas, outros mares, outros amores...
No livro PROCURA-SE UMA SEREIA, com ilustrações de Alexandre Camanho (SESI-SP Editora, 2014), Luiz Bras faz da voz uma onda gigante empurrada pelo vento e, assim, vai mesclando, através do discurso, a realidade do mundo narrado pelo velho da praça às possibilidades do mundo vivido de todos nós. É doce saber que o leitor/ouvinte habituando-se à imaginação, um dia, poderá dizer – chovia demais dentro da gente, ventava demais dentro da gente... e descobrir muito mais coisas. Para sonhar, correr o risco. De viver.
E amanhã será o aniversário de um velho amigo, voz que retumbava trovões, sem barbas brancas, mas poeta e prosador de muita imaginação, dialogando entre gentes de muitas idades. Entrava mês, saía mês e a nossa cidade era a mesma, sem novidade alguma, começa escrevendo Elias José no livro que voa da estante, agorinha, A CIDADE QUE PERDEU O SEU MAR, com ilustrações de Marilda Castanha (Paulus, 1998). Entrava ano, saía ano, já não éramos crianças pequenas, nem éramos moços ainda.
E do tempo que se plantava serviço com os pés de café e as casas recebiam visita de parentes para os festejos do padroeiro, a quermesse de São Francisco, desse tempo quando as noites se enchiam com bandeirolas, sons de banda e a música de antigos discos girando na agulha até os alto-falantes, Elias José trouxe o estranho encantado da memória, com palavras que ondejam em nossos ouvidos. Em uma praça, encontramos a figura de Manuelão Marinheiro com irrevogáveis olhos de céu e rugas multiplicadas por todo rosto. São suas histórias o vasto mar às vezes manso, às vezes raivoso, tomando conta das ruas e das pessoas...
Ambos os textos atestam o amor sobre as coisas um mar que desejamos fiquem dentro de nós, enquanto o sonho for mistério e imensidão e venha contar e recontar as suas histórias.
[+] mar de sons de cores
[+] imagens de mar e ar
[+] deram os homens a sonhar
[+] caiu na rede, é sonho
Comece procurando uma sereia nos livros, pois ler não é somente uma viagem a outras eras, outras terras, mas igualmente a outras histórias e textos, mitos revisitados e travestidos em imagens que fascinam o leitor curioso. Comece encontrando um homem, velho talvez, que deite palavras ao vento... Tem esse homem que mora no banco da praça, aponta Luiz Bras, esse homem feito de sonhos, risadas, primaveras e ideias engraçadas.
De onde ele veio?
De outro país? De outro planeta?
Semana passada foi aniversário dele.
— Hoje eu faço mil anos — ele disse muito sério, mas também muito feliz.
Não estava brincando, não.
O compromisso com a leveza é algo para nós muitas vezes estranho, não é mesmo? Quem lê, ouve e compartilha histórias corre sempre o risco de parecer o habitante de um lugar estrangeiro, alguém que sempre desperta alguma desconfiança, alguém sem juízo, um louco, sempre. Experimente você subir com os pés no banco da praça e confessar que tem mil anos de idade e venturas para contar... Pois era um homem de roupa surrada, voz áspera, de barbas brancas, encurvado sobre o próprio coração maltrapilho que Aline viu e ouviu contar façanhas de outras vidas, outros mares, outros amores...
No livro PROCURA-SE UMA SEREIA, com ilustrações de Alexandre Camanho (SESI-SP Editora, 2014), Luiz Bras faz da voz uma onda gigante empurrada pelo vento e, assim, vai mesclando, através do discurso, a realidade do mundo narrado pelo velho da praça às possibilidades do mundo vivido de todos nós. É doce saber que o leitor/ouvinte habituando-se à imaginação, um dia, poderá dizer – chovia demais dentro da gente, ventava demais dentro da gente... e descobrir muito mais coisas. Para sonhar, correr o risco. De viver.
E amanhã será o aniversário de um velho amigo, voz que retumbava trovões, sem barbas brancas, mas poeta e prosador de muita imaginação, dialogando entre gentes de muitas idades. Entrava mês, saía mês e a nossa cidade era a mesma, sem novidade alguma, começa escrevendo Elias José no livro que voa da estante, agorinha, A CIDADE QUE PERDEU O SEU MAR, com ilustrações de Marilda Castanha (Paulus, 1998). Entrava ano, saía ano, já não éramos crianças pequenas, nem éramos moços ainda.
Já queríamos ser gente séria, sem esquecer as bolas de meia, as pipas e os brinquedos de pique. Meio escondidos, fazíamos a infância voltar e era bom segurar o tempo [...] Em nossa cidade, todos eram mais ou menos iguais. Ninguém muito rico nem muito pobre.
E do tempo que se plantava serviço com os pés de café e as casas recebiam visita de parentes para os festejos do padroeiro, a quermesse de São Francisco, desse tempo quando as noites se enchiam com bandeirolas, sons de banda e a música de antigos discos girando na agulha até os alto-falantes, Elias José trouxe o estranho encantado da memória, com palavras que ondejam em nossos ouvidos. Em uma praça, encontramos a figura de Manuelão Marinheiro com irrevogáveis olhos de céu e rugas multiplicadas por todo rosto. São suas histórias o vasto mar às vezes manso, às vezes raivoso, tomando conta das ruas e das pessoas...
Ambos os textos atestam o amor sobre as coisas um mar que desejamos fiquem dentro de nós, enquanto o sonho for mistério e imensidão e venha contar e recontar as suas histórias.
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18 de janeiro de 2015
não qualquer palavra
O’ABRE ASPAS de um livro a outro
“Preocupada com as crianças que atualmente recebem tantos rótulos (e mesmo diagnósticos) negativos – hiperativos, impulsivos, desatentos, indisciplinados, entre outros –, Gloria Kirinus propõe uma mudança de enfoque. Para ela, a criança é um ser em estado puro de linguagem e é preciso escutá-la melhor para perceber os ‘sintomas’ de criatividade e inteligência que estão por trás de um comportamento à primeira vista inadequado.” Expõe Angela Leite de Souza no primeiro capítulo da série que compõe o livro Poesia para crianças: conceitos, tendências e práticas, org. Leo Cunha, no qual participam juntamente Carlos Augusto Novaes, Gláucia de Souza e Maria Antonieta Antunes Cunha. “Uma das causas desse descompasso estaria no fato de que o fascínio que a criança sente pela palavra e pela multiplicidade de imagens que ela lhe suscita costuma ser reprimido na sala de aula.” (2013: 22-23)
II
“O que eu pediria para pais e professores é que, entre espaços e horários fechados, deixem a porta entreaberta para a escuta da poesia.” É o que responde Gloria Kirinus, no livro Synthomas de poesia na infância, observando e refletindo sobre casos de rimite aguda, delírio verbal, estado contemplativo, devaneio crônico, analogia intensa, isolamento fabuloso, surtos de genial ingenuidade, abundante riso, acesso de perguntas e catapora inventiva... “Quando fechamos a porta da sala de aula ou qualquer outra porta da vida privada, ocupando todos seus vazios, normalmente bloqueamos também a possibilidade de escuta da poesia. Pais e professores de crianças pré-alfabetizadas teriam muito a ganhar se soubessem receber a poesia de viva voz, aquela poesia que inventa seus ritos recuperando a unidade do homem primordial que cantava e dançava a palavra. Não qualquer palavra, mas aquela que pulsa no ritmo de sístole e diástole numa intenção de se organizar no mundo.” (2011: 68)
III
“Agora que caminhamos para o fim, quero lhe contar um segredo e fazer uma confissão.” Escreveu Elias José, nas páginas de Poesia pede passagem: um guia para levar a poesia às escolas. “Antes, eu tinha um caderno de poesia com espaços para cópias e anotações, vários cheios. Hoje, tenho programas no computador para copiar tudo o que leio e gosto. Gosto de enviar cartões, cartas e e-mails com poemas, meus e alheios. É uma forma bonita de presentar e até de elogiar os amigos. Poesia bonita é para ser multiplicada, distribuída, com nome do autor, editora e sem erros. Que tal entrar em mais esse jogo gostoso?” (2003: 97)
“Preocupada com as crianças que atualmente recebem tantos rótulos (e mesmo diagnósticos) negativos – hiperativos, impulsivos, desatentos, indisciplinados, entre outros –, Gloria Kirinus propõe uma mudança de enfoque. Para ela, a criança é um ser em estado puro de linguagem e é preciso escutá-la melhor para perceber os ‘sintomas’ de criatividade e inteligência que estão por trás de um comportamento à primeira vista inadequado.” Expõe Angela Leite de Souza no primeiro capítulo da série que compõe o livro Poesia para crianças: conceitos, tendências e práticas, org. Leo Cunha, no qual participam juntamente Carlos Augusto Novaes, Gláucia de Souza e Maria Antonieta Antunes Cunha. “Uma das causas desse descompasso estaria no fato de que o fascínio que a criança sente pela palavra e pela multiplicidade de imagens que ela lhe suscita costuma ser reprimido na sala de aula.” (2013: 22-23)
II
“O que eu pediria para pais e professores é que, entre espaços e horários fechados, deixem a porta entreaberta para a escuta da poesia.” É o que responde Gloria Kirinus, no livro Synthomas de poesia na infância, observando e refletindo sobre casos de rimite aguda, delírio verbal, estado contemplativo, devaneio crônico, analogia intensa, isolamento fabuloso, surtos de genial ingenuidade, abundante riso, acesso de perguntas e catapora inventiva... “Quando fechamos a porta da sala de aula ou qualquer outra porta da vida privada, ocupando todos seus vazios, normalmente bloqueamos também a possibilidade de escuta da poesia. Pais e professores de crianças pré-alfabetizadas teriam muito a ganhar se soubessem receber a poesia de viva voz, aquela poesia que inventa seus ritos recuperando a unidade do homem primordial que cantava e dançava a palavra. Não qualquer palavra, mas aquela que pulsa no ritmo de sístole e diástole numa intenção de se organizar no mundo.” (2011: 68)
III
“Agora que caminhamos para o fim, quero lhe contar um segredo e fazer uma confissão.” Escreveu Elias José, nas páginas de Poesia pede passagem: um guia para levar a poesia às escolas. “Antes, eu tinha um caderno de poesia com espaços para cópias e anotações, vários cheios. Hoje, tenho programas no computador para copiar tudo o que leio e gosto. Gosto de enviar cartões, cartas e e-mails com poemas, meus e alheios. É uma forma bonita de presentar e até de elogiar os amigos. Poesia bonita é para ser multiplicada, distribuída, com nome do autor, editora e sem erros. Que tal entrar em mais esse jogo gostoso?” (2003: 97)
16 de dezembro de 2014
quadras para o verão
Dobras da Leitura recebeu
Marco Haurélio nasceu no sertão baiano e reuniu quadras, umas poucas adivinhas rimadas e cantigas do ciclo natalino, celebrando a poesia popular e o verde que renasce na estação das chuvas, durante dezembro. Saborosas, as quadrinhas foram quase sempre organizadas pela repetição do primeiro verso, variando depois as sequências. LÁ DETRÁS DAQUELA SERRA, il. Taisa Borges (Peirópolis, 2013).
Lenice Gomes, que nasceu no agreste pernambucano, juntou-se ao paulista Giba Pedroza e colheram, improvisaram e arranjaram quadrinhas com quem inventa um diálogo, lembrança de moços enamorados e meninas em roda, no livro ALECRIM DOURADO E OUTROS CHEIRINHOS DE AMOR, il. Cláudio Martins (Cortez, 2011).
E Elias José convida os leitores para conhecer o cancioneiro simples e amoroso de Fernando Pessoa, a partir de exemplos colhidos do livro Quadras ao gosto popular, publicado postumamente em 1965. Elias selecionou os versos mais próximos da sintaxe, do vocabulário e da sonoridade da língua portuguesa falada e escrita no Brasil, e assim surgiu FERNANDO PESSOA: O AMOR BATE À PORTA (Paulus, 2007).
Marco Haurélio nasceu no sertão baiano e reuniu quadras, umas poucas adivinhas rimadas e cantigas do ciclo natalino, celebrando a poesia popular e o verde que renasce na estação das chuvas, durante dezembro. Saborosas, as quadrinhas foram quase sempre organizadas pela repetição do primeiro verso, variando depois as sequências. LÁ DETRÁS DAQUELA SERRA, il. Taisa Borges (Peirópolis, 2013).
Lenice Gomes, que nasceu no agreste pernambucano, juntou-se ao paulista Giba Pedroza e colheram, improvisaram e arranjaram quadrinhas com quem inventa um diálogo, lembrança de moços enamorados e meninas em roda, no livro ALECRIM DOURADO E OUTROS CHEIRINHOS DE AMOR, il. Cláudio Martins (Cortez, 2011).
E Elias José convida os leitores para conhecer o cancioneiro simples e amoroso de Fernando Pessoa, a partir de exemplos colhidos do livro Quadras ao gosto popular, publicado postumamente em 1965. Elias selecionou os versos mais próximos da sintaxe, do vocabulário e da sonoridade da língua portuguesa falada e escrita no Brasil, e assim surgiu FERNANDO PESSOA: O AMOR BATE À PORTA (Paulus, 2007).
Um novo ano + poético para você!
16 de abril de 2010
Diálogos com Alice
Dobras da Leitura recebeu...
A VERDADEIRA HISTORIA DE ALICE, de Rita Taborda il. Thais Beltrame (Girafinha, 2008). Esta Alice bem que tentou falar a língua difícil dos adultos. Mas aquilo não fazia muito sentido. Pediam-lhe que não se pendurasse nos braços da cadeira. E cadeira tem braços? Diziam-lhe que não riscasse as pernas da mesa da sala. E por acaso as mesas têm lá pernas? A língua dos adultos precisava mesmo ser melhorada... Esta é a verdadeira história da pequena Alice, uma miúda que ainda não era uma pessoa grande, mas já era, isso sim, uma grande pequena pessoa.

ALICE NO PAÍS DA POESIA, de Elias José, il. Taísa Borges (Peirópolis, 2009, fora de estoque). No primeiro poema do livro, Alice é "flagrada" no momento em que descobre o mundo das palavras, enquanto vivia no país das maravilhas. Esse é o ponto de partida para 33 poemas repletos de encantamento: o leitor segue em companhia de Sherazade, Peter Pan e Dom Quixote, além de um séquito de fadas e feiticeiras, duendes e sereias, reis e rainhas, príncipes e princesas, pássaros e cavalos mágicos. As ilustrações de Taisa Borges se encarregam de estilizar esses sonhos de criança.

LEWIS CARROLL NA ERA VITORIANA: outras histórias de Alice, de Kátia Canton, il. Adriana Peliano (DCL, 2010). O livro resgata o contexto de criação das narrativas de Alice, na segunda metade do século XIX, revelando os costumes de época e como Lewis Carroll criou seus personagens, em um momento de paz e prosperidade na história inglesa — a Era Vitoriana. O leitor saberá quem foi a Rainha Victoria, o que ela fez em benefício ao povo inglês e como tudo isso se relaciona com as histórias de Alice e a vida do autor, cujo nome verdadeiro era Charles Dogdson. Com colagens digitais de Adriana Peliano, a obra faz parte da coleção Arte conta História.

[textos condensados a partir do catálogo e do press-release]
A VERDADEIRA HISTORIA DE ALICE, de Rita Taborda il. Thais Beltrame (Girafinha, 2008). Esta Alice bem que tentou falar a língua difícil dos adultos. Mas aquilo não fazia muito sentido. Pediam-lhe que não se pendurasse nos braços da cadeira. E cadeira tem braços? Diziam-lhe que não riscasse as pernas da mesa da sala. E por acaso as mesas têm lá pernas? A língua dos adultos precisava mesmo ser melhorada... Esta é a verdadeira história da pequena Alice, uma miúda que ainda não era uma pessoa grande, mas já era, isso sim, uma grande pequena pessoa.
ALICE NO PAÍS DA POESIA, de Elias José, il. Taísa Borges (Peirópolis, 2009, fora de estoque). No primeiro poema do livro, Alice é "flagrada" no momento em que descobre o mundo das palavras, enquanto vivia no país das maravilhas. Esse é o ponto de partida para 33 poemas repletos de encantamento: o leitor segue em companhia de Sherazade, Peter Pan e Dom Quixote, além de um séquito de fadas e feiticeiras, duendes e sereias, reis e rainhas, príncipes e princesas, pássaros e cavalos mágicos. As ilustrações de Taisa Borges se encarregam de estilizar esses sonhos de criança.

LEWIS CARROLL NA ERA VITORIANA: outras histórias de Alice, de Kátia Canton, il. Adriana Peliano (DCL, 2010). O livro resgata o contexto de criação das narrativas de Alice, na segunda metade do século XIX, revelando os costumes de época e como Lewis Carroll criou seus personagens, em um momento de paz e prosperidade na história inglesa — a Era Vitoriana. O leitor saberá quem foi a Rainha Victoria, o que ela fez em benefício ao povo inglês e como tudo isso se relaciona com as histórias de Alice e a vida do autor, cujo nome verdadeiro era Charles Dogdson. Com colagens digitais de Adriana Peliano, a obra faz parte da coleção Arte conta História.
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um pouco de Portugal
7 de agosto de 2009
Carinho também é uma forma de obediência

Elias José
AS HORROROSAS MARAVILHOSAS
l. Rosinha, bordados de Iane Costa
DCL, 2009
ISBN 9788536802435
20,6 x 27,5 cm 40p.
AS HORROROSAS MARAVILHOSAS
l. Rosinha, bordados de Iane Costa
DCL, 2009
ISBN 9788536802435
20,6 x 27,5 cm 40p.
Haveria ela de casar, um dia, tanto que rezava e pedia para Santo Antonio. Contudo, parecia mesmo que o santinho propositalmente deixava para atender seus pedidos depois. Por isso, a moça chorava. E chorava... E a mãe resolveu ajudar. Ajudou? Pôs olho no mundo, procurando moço bonito e trabalhador, encontrou Tonico, dono da loja do lugarejo e pôs-se, então, a prosear com o escolhido para genro.
Porém, saiba já, mãe que fala demais atrai pra filha muitos ais... E deu no que deu: a mulher alardeou que não havia quem bordasse tão perfeito e tão rapidamente como sua filha — e isso chamou a atenção do rapaz que ofereceu para ela o melhor linho e meadas de cor variada. Mas, a moça! A moça não sabia nada. Tentou, bem que tentou. Furou os dedos inutilmente. Mal aprendeu a enfiar a linha na agulha e a dar um nó. Deu pontos grandes, desajeitados, e acabou sujando o linho com tanta lágrima. Correu, enfim, para pedir ajudar a três velhinhas horrorosas, bordadeiras maravilhosas...
Elias José empresta seu jeito de minerar histórias a um velho conto da tradição européia que aqui chegou nalguma caravela portuguesa, tendo sido também compilado nas coletâneas feitas por Teófilo Braga e Consiglieri Pedroso. Classificado como um conto de exemplo, pelo folclorista Câmara Cascudo, esta é a mesma história das três fiandeiras que ajudam uma mocinha em troca de um favor:
um convite para o casamento que irá ser celebrado proximamente e ser recebida como tias da noiva. O que parece apenas uma prova ingênua acaba transformando a sorte da jovem, pela magia do reconhecimento do favor prestado e pelo fervor de uma obediência carinhosa. Nas ilustrações, obediente à temática, Rosinha Campos divide o traço de seus desenhos com retalhos de linho colorido e os bordados de Iane Costa. O livro transforma-se quase todo numa toalha de cenas e florzinhas emoldurando o texto com delicadeza.
Desenrolando diferentes histórias
Linho: a viúva deseja o melhor para a filha bordar, na perspectiva de Rosinha para o reconto de Elias José, As Horrorosas Maravilhosas (2009) [saiba+]. Seda tecida por Lúcia Hiratsuka em duas versões de O Passáro do Poente (1993 e 2007).

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