27 de março de 2013

você acredita em histórias sem palavras?

Três livros de imagem brasileiros, por Peter O. Sagae


Entre diferentes tipos de livro de imagem, muitos são os títulos a nos trazer uma narrativa sucessiva – segmentando, através de várias páginas, um evento que poderia ser facilmente descrito em uma única frase, com pouquíssimas orações coordenadas ou meramente justapostas.

Por exemplo: uma bola de borracha cai do cesto carregado por um índio, passa diante dos olhos de um menino e vai descendo a ladeira estreita, atraindo a atenção das pessoas, principalmente dos moleques que a querem alcançar.
A narração, assim tirada, soa bastante mecânica a nossos ouvidos até que...  
Até que a bola salta à testa de um negro escravizado e é desviada a outro que amortece sua velocidade no peito, que lança a bola a outro, que a leva adiante 
a mais outro: a descrição desses movimentos rompe a primeira sequência narrativa, mas não demora muito para a bola tornar a rolar pelas ruas com adultos e crianças atrás.


Como a estrutura de um livro de imagem permite ações simultâneas, outros personagens podem integrar a sequência de páginas: surge, pois, um homem louro montado em um cavalo baio no contra-fluxo da turba agitada. O animal se assusta, empina a montaria mas, logo, alguém aparece para controlar a bola nos pés. É nesse jogo de ação e descrição que a narrativa visual vai sendo construída. A bola retoma a descida pelas ruas e já o cavaleiro segue atrás do grupo, até um largo de chão mais plano. O que se vê, então, é uma multidão de movimentos tão típicos de um jogo de bola sob o olhar sorridente do homem sobre o cavalo. A emoção e o esforço para obter o controle da bola são bastante expressivos nos desenhos de Jô de Oliveira, no livro Os donos da bola (Escala Educacional, 2010). De fato, quem inventou os primeiros dribles também inventou um jogo. No entanto, os homens da guarda põem um término na alegria geral, restando no largo apenas o cavaleiro e a bola de borracha...

A narrativa que vinha reduzida à lógica consecutiva de ações atrás de ações, passa a exigir um pouco mais de interpretação sobre as consequências do que virá a acontecer: o homem louro apeia de seu cavalo, observa, aperta, carrega a bola – para onde? Ele embarca em um navio e aparece, dentro da cabine, explicando os movimentos do jogo que viu anonimamente inventado. A última página do livro revela a imagem, atravessando as ondas, de um navio com uma bandeira inglesa.

Ficam as perguntas para o leitor: quem são os donos da bola, quem são os donos do jogo de futebol? Obrigando as relações palavra&imagem ao didatismo verbal, a quarta capa informa que a história aconteceu no antigo Morro do Castelo, no centro do Rio de Janeiro, ponto importante da fundação da cidade. No entanto, nenhum texto esclarece se é História ou fato imaginado toda essa brincadeira com a bola entre os pés de meninos e homens escravos, ante a admiração do estrangeiro inglês... Tudo isso realmente se passou na Corte de D. João VI?


Integrando a mesma coleção, A busca do cavaleiro, de Fernando Vilela (2009), revela ser outra narrativa sucessiva: um cavaleiro medieval, com sua lança, enfrenta um dragão E, montando a fera, com sua espada, enfrenta uma gigantesca cobra amazônica E, montando o monstro, arremete contra um palácio árabe, onde enfrenta muitos soldados E, descendo e subindo escadas, encontra sua princesa E, finalmente, escapa às costas de um pássaro enorme que ganha distância, desaparecendo no céu. Ora, tempos atrás, pensei ver não exatamente uma narrativa, nesta sequência de imagens, mas uma espécie de rapsódia visual – certo fragmento ou composição livre, utilizando processos imagéticos e efeitos variados.


Com bastante humor,
Renato Moriconi nos presenteia com o livro E a mosca foi pro espaço (2011) que narra, de forma sucessiva igualmente, os apuros dessa pequena e pegajosa viajante por alguns lugares da cidade de São Paulo – sim, uma das primeira imagens em página dupla descreve o coração da metrópole com as inconfundíveis referências ao ondulado Edifício Copan, o Terraço Itália, o MASP e o Minhocão, as antenas da Avenida Paulista, entre outros prédios, helicópteros, coberturas e parabólicas.


Entrando por uma janela, a mosca entra também na boca da velha que estava com a boca aberta, mas, imediatamente, é soprada para dentro de um balão vermelho. O vento vem e leva a bexiga para as mãos de um balonista em uma viagem pelas três Américas. Uma águia rouba o balão vermelho e vai pousar... no alto de um foguete em ignição! E a mosca, ainda presa, vai realmente pro espaço... Mas, o desfecho, não conto, não! O trabalho gráfico de Renato Moriconi nos reporta ao ambiente dos desenhos animados, dos intertextos literários e a irreverência de Juarez Machado, na TV ou em seu primeiro livro de imagem ;-)

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