Três livros de imagem brasileiros, por Peter O. Sagae
Entre diferentes tipos de livro de imagem, muitos são os títulos a nos trazer uma narrativa sucessiva – segmentando, através de várias páginas, um evento que poderia ser facilmente descrito em uma única frase, com pouquíssimas orações coordenadas ou meramente justapostas.
Por exemplo: uma bola de borracha cai do cesto carregado por um índio, passa diante dos olhos de um menino e vai descendo a ladeira estreita, atraindo a atenção das pessoas, principalmente dos moleques que a querem alcançar.
A narração, assim tirada, soa bastante mecânica a nossos ouvidos até que...
Até que a bola salta à testa de um negro escravizado e é desviada a outro que amortece sua velocidade no peito, que lança a bola a outro, que a leva adiante
a mais outro: a descrição desses movimentos rompe a primeira sequência narrativa, mas não demora muito para a bola tornar a rolar pelas ruas com adultos e crianças atrás.
Como a estrutura de um livro de imagem permite ações simultâneas, outros personagens podem integrar a sequência de páginas: surge, pois, um homem louro montado em um cavalo baio no contra-fluxo da turba agitada. O animal se assusta, empina a montaria mas, logo, alguém aparece para controlar a bola nos pés. É nesse jogo de ação e descrição que a narrativa visual vai sendo construída. A bola retoma a descida pelas ruas e já o cavaleiro segue atrás do grupo, até um largo de chão mais plano. O que se vê, então, é uma multidão de movimentos tão típicos de um jogo de bola sob o olhar sorridente do homem sobre o cavalo. A emoção e o esforço para obter o controle da bola são bastante expressivos nos desenhos de Jô Oliveira, no livro OS DONOS DA BOLA (Escala Educacional, 2010). De fato, quem inventou os primeiros dribles também inventou um jogo. No entanto, os homens da guarda põem um término na alegria geral, restando no largo apenas o cavaleiro e a bola de borracha...
A narrativa que vinha reduzida à lógica consecutiva de ações atrás de ações, passa a exigir um pouco mais de interpretação sobre as consequências do que virá a acontecer: o homem louro apeia de seu cavalo, observa, aperta, carrega a bola – para onde? Ele embarca em um navio e aparece, dentro da cabine, explicando os movimentos do jogo que viu anonimamente inventado. A última página do livro revela a imagem, atravessando as ondas, de um navio com uma bandeira inglesa.
Ficam as perguntas para o leitor: quem são os donos da bola, quem são os donos do jogo de futebol? Obrigando as relações palavra&imagem ao didatismo verbal, a quarta capa informa que a história aconteceu no antigo Morro do Castelo, no centro do Rio de Janeiro, ponto importante da fundação da cidade. No entanto, nenhum texto esclarece se é História ou fato imaginado toda essa brincadeira com a bola entre os pés de meninos e homens escravos, ante a admiração do estrangeiro inglês... Tudo isso realmente se passou na Corte de D. João VI?
Integrando a mesma coleção, A BUSCA DO CAVALEIRO, de Fernando Vilela (2009), revela ser outra narrativa sucessiva: um cavaleiro medieval, com sua lança, enfrenta um dragão E, montando a fera, com sua espada, enfrenta uma gigantesca cobra amazônica E, montando o monstro, arremete contra um palácio árabe, onde enfrenta muitos soldados E, descendo e subindo escadas, encontra sua princesa E, finalmente, escapa às costas de um pássaro enorme que ganha distância, desaparecendo no céu. Ora, tempos atrás, pensei ver não exatamente uma narrativa, nesta sequência de imagens, mas uma espécie de rapsódia visual – certo fragmento ou composição livre, utilizando processos imagéticos e efeitos variados.
Com bastante humor, Renato Moriconi nos presenteia com o livro E A MOSCA FOI PRO ESPAÇO (2011) que narra, de forma sucessiva igualmente, os apuros dessa pequena e pegajosa viajante por alguns lugares da cidade de São Paulo – sim, uma das primeira imagens em página dupla descreve o coração da metrópole com as inconfundíveis referências ao ondulado Edifício Copan, o Terraço Itália, o MASP e o Minhocão, as antenas da Avenida Paulista, entre outros prédios, helicópteros, coberturas e parabólicas.
Entrando por uma janela, a mosca entra também na boca da velha que estava com a boca aberta, mas, imediatamente, é soprada para dentro de um balão vermelho. O vento vem e leva a bexiga para as mãos de um balonista em uma viagem pelas três Américas. Uma águia rouba o balão vermelho e vai pousar... no alto de um foguete em ignição! E a mosca, ainda presa, vai realmente pro espaço... Mas, o desfecho, não conto, não! O trabalho gráfico de Renato Moriconi nos reporta ao ambiente dos desenhos animados, dos intertextos literários e a irreverência de Juarez Machado, na TV ou em seu primeiro livro de imagem ;-)
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27 de março de 2013
26 de julho de 2012
avó deliciosa
Temporada de Contos e Recontos, 8
Qual a avó mais gostosa que habita os contos folclóricos? Eu apostaria na velha bruxa da floresta que mora, há muitos e muitos recontos, na casinha feita de coisas doces...
Invenção dos colecionadores de histórias alemães do XIX, a casa com telhado de pão de ló e janelas de açúcar não era encontrada por crianças em antigas narrativas, como Nennillo e Nennella, de Giambattista Basile (1635), conto que conta igualmente as desventuras de dois irmãos pelo mundo afora; surgiu, no caminho de Hänsel e Gretel, tão somente em 1812, ano em que Napoleão, com seu famoso cavalo branco, fez campanha nas terras de Baba-Yaga, outra simpática avozinha que mora nos lugares ermos da floresta... Seja lá como for, temos nos habituados a sonhar com este lugar de confeitos e excessos como permitem as deliciosas avós, uma casa onde nos espera uma cama quente e macia, na companhia dos nomes de João e Maria.
Sei que inúmeros intérpretes de contos tradicionais olham para a bruxa da floresta como a contraparte simbólica da madrasta, uma e outra jogando com a promessa e a pressa de não passarem fome juntamente às crianças. Mas, um símbolo não impõe imagens partidas, porque abriga o que é aparentemente oposto em seu interior; do contrário, não teria forma nem força para atuar como símbolo! A velha espelha quem pode substituir a mãe; é a mesma imagem da madrasta, frações de bruxa e fada, em sua maternidade ancestral, um convite nutriz e, ao mesmo tempo, devorador.
É esta ideia que surge na ilustração de Victor Escandell, às primeiras páginas do livro João e Maria, em uma versão espanhola seguindo de perto o conto configurado pelos Grimm, na tradução de Andrea Ponte (Escala Educacional, 2011). Como uma avó inventando parlenda, a voz da velha suave soa:
“Será que é a ratinha que está roendo a minha casinha?”.
O menino responde com inteligência e imaginação:
“É o vento, é o vento, aquele que faz girar o cata-vento!”
A partir dos Grimm também, è giusto, a versão italiana de Roberto Piumini para João e Maria traz Anna Laura Cantone nas expressivas ilustrações coloridas de um humor cômico e cativante; tradução de Daniela Bunn (Positivo, 2010). E vale lembrar que a história não deixa de mostrar o caldo de netos que, por vezes, oferecemos a nossas avós. Diz a velha desgostosa a respeito de João: “Ah! Come, come e não engorda!”. E quanto trabalho na hora de abrir o forno...
Há uma versão brasileira, registrada por Câmara Cascudo (1919) que, quando a velha bate nas brasas e labaredas, queimando-se toda, gritava toda desesperada: “Água, meus netinhos!”, mas os sonsos respondiam: “Azeite, senhora avó!” E, como são muitas as portas que me levam aos contos, tiro da estante...
O indefectível compacto 33 ½ de vinil azul com João e Maria, na adaptação de Elza Fiusa e a orquestração de Radamés Gnattali (1961). Sem madrasta na história, os irmãozinhos perdem-se na floresta na hora de levar o almoço para o pai, conforme se vê na capa do disco. E a velha bruxa-avó era, sim, uma fada!
P.S. Compare as duas produções para a Coleção Disquinho.
Serão uma versão dos anos 40, mais próxima do texto dos Grimm, e outra dos anos 60, com outros elementos introduzidos no conto tradicional? Quem tiver qualquer informação, compartilhe!
Qual a avó mais gostosa que habita os contos folclóricos? Eu apostaria na velha bruxa da floresta que mora, há muitos e muitos recontos, na casinha feita de coisas doces...
Invenção dos colecionadores de histórias alemães do XIX, a casa com telhado de pão de ló e janelas de açúcar não era encontrada por crianças em antigas narrativas, como Nennillo e Nennella, de Giambattista Basile (1635), conto que conta igualmente as desventuras de dois irmãos pelo mundo afora; surgiu, no caminho de Hänsel e Gretel, tão somente em 1812, ano em que Napoleão, com seu famoso cavalo branco, fez campanha nas terras de Baba-Yaga, outra simpática avozinha que mora nos lugares ermos da floresta... Seja lá como for, temos nos habituados a sonhar com este lugar de confeitos e excessos como permitem as deliciosas avós, uma casa onde nos espera uma cama quente e macia, na companhia dos nomes de João e Maria.
Sei que inúmeros intérpretes de contos tradicionais olham para a bruxa da floresta como a contraparte simbólica da madrasta, uma e outra jogando com a promessa e a pressa de não passarem fome juntamente às crianças. Mas, um símbolo não impõe imagens partidas, porque abriga o que é aparentemente oposto em seu interior; do contrário, não teria forma nem força para atuar como símbolo! A velha espelha quem pode substituir a mãe; é a mesma imagem da madrasta, frações de bruxa e fada, em sua maternidade ancestral, um convite nutriz e, ao mesmo tempo, devorador.
É esta ideia que surge na ilustração de Victor Escandell, às primeiras páginas do livro João e Maria, em uma versão espanhola seguindo de perto o conto configurado pelos Grimm, na tradução de Andrea Ponte (Escala Educacional, 2011). Como uma avó inventando parlenda, a voz da velha suave soa:
“Será que é a ratinha que está roendo a minha casinha?”.
O menino responde com inteligência e imaginação:
“É o vento, é o vento, aquele que faz girar o cata-vento!”
A partir dos Grimm também, è giusto, a versão italiana de Roberto Piumini para João e Maria traz Anna Laura Cantone nas expressivas ilustrações coloridas de um humor cômico e cativante; tradução de Daniela Bunn (Positivo, 2010). E vale lembrar que a história não deixa de mostrar o caldo de netos que, por vezes, oferecemos a nossas avós. Diz a velha desgostosa a respeito de João: “Ah! Come, come e não engorda!”. E quanto trabalho na hora de abrir o forno...
Há uma versão brasileira, registrada por Câmara Cascudo (1919) que, quando a velha bate nas brasas e labaredas, queimando-se toda, gritava toda desesperada: “Água, meus netinhos!”, mas os sonsos respondiam: “Azeite, senhora avó!” E, como são muitas as portas que me levam aos contos, tiro da estante...
O indefectível compacto 33 ½ de vinil azul com João e Maria, na adaptação de Elza Fiusa e a orquestração de Radamés Gnattali (1961). Sem madrasta na história, os irmãozinhos perdem-se na floresta na hora de levar o almoço para o pai, conforme se vê na capa do disco. E a velha bruxa-avó era, sim, uma fada!
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P.S. Compare as duas produções para a Coleção Disquinho.
Serão uma versão dos anos 40, mais próxima do texto dos Grimm, e outra dos anos 60, com outros elementos introduzidos no conto tradicional? Quem tiver qualquer informação, compartilhe!
* * *
20 de julho de 2012
para sempre vermelho
Temporada de contos e recontos, 7
Dizem que Chapeuzinho Vermelho não é propriamente um conto folclórico, muito menos conto de fadas, tendo surgido como uma lenda local de âmbito restrito às regiões europeias mais centrais, ao longo do Loire rumo ao Tirol, tão ao norte da Itália, indo à meio caminho dos Alpes, quem sabe, alcançando o que hoje muitos chamam Suíça, quase Eslovênia... E são muitos os estudos sobre as origens, os significados, as aplicações do conto à vida prática ou psicológica, em um volume de notas volúveis entre o anseio infantil e o imaginário, nem sempre freado, dos comentaristas adultos. Pouco importa.
Chapeuzinho Vermelho é dessas matérias literárias de alta plasticidade textual: quem não conheceria um conto, seu reconto, paródia, paráfrase, anedota, caso, chiste, animação, thriller, leitura, tradução, transcrição, ensaio fotográfico, ilustração, roupa, propaganda, jogo que trace o caminho da menina em direção à boca do Leitor, mais faminto e severo que o lobo? Angela-Lago bem definiu o conto-personagem como A Interminável Chapeuzinho Vermelho, dada a avidez que temos de buscar possibilidades para digerirmos a história... E há um insinuante vídeo de Jan Kounen, O Último Chapeuzinho Vermelho (1996), que não é apenas uma versão... Na floresta dos meios de produção de linguagem, Chapeuzinho Vermelho tornou-se um objeto-nexo-contexto de representações. É o que importa.
Mas, vamos aos livros.
I.
Na Espanha, dizem que Caperucita ganhou uma capa de sua mãe e Eva Navarro ilustra seu Chapeuzinho Vermelho de braços abertos para a vida. E o que leva na cestinha? Bolinhos de mel... O livro, com tradução de Andrea Ponte, diz seguir o caminho francês de Charles Perrault (1697), desembocando, no entanto, no final alemão dos Irmãos Grimm (1812): um caçador, mais um lavrador enchem a barriga do lobo com pedras (Escala Educacional, 2011).
II.
O italiano Roberto Piumini reconta Chapeuzinho Vermelho, a partir de J. e W. Grimm, lembrando que a avô dera à menina linda um chapéu de veludo vermelho... E os ingredientes da cesta – bolo e suco de uva – farão parte da ceia para festejar o fim do lobo e do conto! Ilustrado pelas pinceladas de Alessandro Sanna, o texto foi traduzido por Daniela Bunn (Positivo, 2010).
III.
Em uma proposta bem humorada, Chapeuzinho (Anuncie Aqui!) Vermelho pode ser considerado um “livro ilustrado com propaganda”, na concepção de Alain Serres (Scipione, 2011). O autor apostou no texto integral do conto de Charles Perrault, com tradução de Ana Luiza Baesso, e nas ilustrações de Clotilde Perrin, mas convidou diversos outros ilustradores para dar cor e uma linguagem própria a cada anúncio que invade as páginas do livro... Ainda que termine a narrativa, de acordo com a tradição francesa, a publicidade de um aparelho de telefonia móvel garante a reinvenção da velha história. Total cobertura de humor.
Dizem que Chapeuzinho Vermelho não é propriamente um conto folclórico, muito menos conto de fadas, tendo surgido como uma lenda local de âmbito restrito às regiões europeias mais centrais, ao longo do Loire rumo ao Tirol, tão ao norte da Itália, indo à meio caminho dos Alpes, quem sabe, alcançando o que hoje muitos chamam Suíça, quase Eslovênia... E são muitos os estudos sobre as origens, os significados, as aplicações do conto à vida prática ou psicológica, em um volume de notas volúveis entre o anseio infantil e o imaginário, nem sempre freado, dos comentaristas adultos. Pouco importa.
Chapeuzinho Vermelho é dessas matérias literárias de alta plasticidade textual: quem não conheceria um conto, seu reconto, paródia, paráfrase, anedota, caso, chiste, animação, thriller, leitura, tradução, transcrição, ensaio fotográfico, ilustração, roupa, propaganda, jogo que trace o caminho da menina em direção à boca do Leitor, mais faminto e severo que o lobo? Angela-Lago bem definiu o conto-personagem como A Interminável Chapeuzinho Vermelho, dada a avidez que temos de buscar possibilidades para digerirmos a história... E há um insinuante vídeo de Jan Kounen, O Último Chapeuzinho Vermelho (1996), que não é apenas uma versão... Na floresta dos meios de produção de linguagem, Chapeuzinho Vermelho tornou-se um objeto-nexo-contexto de representações. É o que importa.
Mas, vamos aos livros.
I.
Na Espanha, dizem que Caperucita ganhou uma capa de sua mãe e Eva Navarro ilustra seu Chapeuzinho Vermelho de braços abertos para a vida. E o que leva na cestinha? Bolinhos de mel... O livro, com tradução de Andrea Ponte, diz seguir o caminho francês de Charles Perrault (1697), desembocando, no entanto, no final alemão dos Irmãos Grimm (1812): um caçador, mais um lavrador enchem a barriga do lobo com pedras (Escala Educacional, 2011).
II.
O italiano Roberto Piumini reconta Chapeuzinho Vermelho, a partir de J. e W. Grimm, lembrando que a avô dera à menina linda um chapéu de veludo vermelho... E os ingredientes da cesta – bolo e suco de uva – farão parte da ceia para festejar o fim do lobo e do conto! Ilustrado pelas pinceladas de Alessandro Sanna, o texto foi traduzido por Daniela Bunn (Positivo, 2010).
III.
Em uma proposta bem humorada, Chapeuzinho (Anuncie Aqui!) Vermelho pode ser considerado um “livro ilustrado com propaganda”, na concepção de Alain Serres (Scipione, 2011). O autor apostou no texto integral do conto de Charles Perrault, com tradução de Ana Luiza Baesso, e nas ilustrações de Clotilde Perrin, mas convidou diversos outros ilustradores para dar cor e uma linguagem própria a cada anúncio que invade as páginas do livro... Ainda que termine a narrativa, de acordo com a tradição francesa, a publicidade de um aparelho de telefonia móvel garante a reinvenção da velha história. Total cobertura de humor.
Dobras da Leitura O'Blog tem [+]
Alain Serres,
Alessandro Sanna,
angela-lago,
Charles Perrault,
Clotilde Perrin,
Contos e Recontos,
Editora Positivo,
Escala Educacional,
Eva Navarro,
Irmãos Grimm,
Roberto Piumini,
Scipione
3 de novembro de 2011
a ficção tem suas máscaras
peter o'sagae
Demorei um tempo para entender a obra de Juliette Binet – A MÁSCARA, publicada na coleção Histórias sem palavras em 2009, pela Escala Educacional. De fato, uma palavra há. É forte e, de sua presença, emana um feixe de ideias: a máscara, uma máscara, qual máscara? O que ela esconde e igualmente virá revelar? Na capa do livro, crianças de uma beleza já bastante antiquada, rostos de porcelana, olhando vagamente o leitor. E tudo ali tão delicado, um incômodo só.
Então, quando atendi ao convite para o Salão do Livro Infantil de Minas Gerais, em participar de uma mesa a respeito de literatura e diversidade nos livros de imagem, aqueles rostos olharam-me através da memória. A obra de Juliette Binet havia persistido em mim, ainda que à primeira vista não lhe soubesse explicar... Sim, o texto visual possui a doce magia do fazer literário!
A curta e expressiva narrativa recebeu originalmente o título de Edmond, um nome com que podemos melhor identificar o personagem principal: um rato que veste jardineira de listras vermelhas e, detrás dos aros finos de seus óculos, detrás de um alto muro de pedras largas, observa a silhueta de um grupo de sete crianças brincando ativamente com uma bola. A distância amplia o tímido desejo que se revelará sob a máscara retirada secretamente do baú...
E Edmond, compreendendo parecer como os meninos e as meninas que vê – de cabelos encaracolados com raios claros, rostos desabrochando rosados e olhos brilhantes, embora tristes –, alcança figurar entre as novas companhias. Porém, sua máscara acidentalmente cai durante a algazarra... E o rato arrasta-se para casa em passos pesados, seguido apenas pela própria sombra. As crianças olham umas às outras, numa expectativa silenciosa que sugestivamente muito tem a dizer e – então, algo de maior importância desponta. Um chifre, uma orelha comprida, um focinho peludo...
Pertencendo à conduta simbólica desde a fábula às histórias de animais, este é um belo livro de imagem que traz consigo a tensão de uma narrativa bem contada e a mensagem necessária para ser descoberta por leitores de todas as idades, sob todas as máscaras da ficção.
* Outras páginas do livro são apresentadas [aqui] e [aqui]
Demorei um tempo para entender a obra de Juliette Binet – A MÁSCARA, publicada na coleção Histórias sem palavras em 2009, pela Escala Educacional. De fato, uma palavra há. É forte e, de sua presença, emana um feixe de ideias: a máscara, uma máscara, qual máscara? O que ela esconde e igualmente virá revelar? Na capa do livro, crianças de uma beleza já bastante antiquada, rostos de porcelana, olhando vagamente o leitor. E tudo ali tão delicado, um incômodo só.
Então, quando atendi ao convite para o Salão do Livro Infantil de Minas Gerais, em participar de uma mesa a respeito de literatura e diversidade nos livros de imagem, aqueles rostos olharam-me através da memória. A obra de Juliette Binet havia persistido em mim, ainda que à primeira vista não lhe soubesse explicar... Sim, o texto visual possui a doce magia do fazer literário!
A curta e expressiva narrativa recebeu originalmente o título de Edmond, um nome com que podemos melhor identificar o personagem principal: um rato que veste jardineira de listras vermelhas e, detrás dos aros finos de seus óculos, detrás de um alto muro de pedras largas, observa a silhueta de um grupo de sete crianças brincando ativamente com uma bola. A distância amplia o tímido desejo que se revelará sob a máscara retirada secretamente do baú...
E Edmond, compreendendo parecer como os meninos e as meninas que vê – de cabelos encaracolados com raios claros, rostos desabrochando rosados e olhos brilhantes, embora tristes –, alcança figurar entre as novas companhias. Porém, sua máscara acidentalmente cai durante a algazarra... E o rato arrasta-se para casa em passos pesados, seguido apenas pela própria sombra. As crianças olham umas às outras, numa expectativa silenciosa que sugestivamente muito tem a dizer e – então, algo de maior importância desponta. Um chifre, uma orelha comprida, um focinho peludo...
Pertencendo à conduta simbólica desde a fábula às histórias de animais, este é um belo livro de imagem que traz consigo a tensão de uma narrativa bem contada e a mensagem necessária para ser descoberta por leitores de todas as idades, sob todas as máscaras da ficção.
* Outras páginas do livro são apresentadas [aqui] e [aqui]
2 de novembro de 2011
um dia ou um sonho, um menino e o leão
peter o'sagae
Mandana Sadat desenha muito mais que imagens; a autora franco-iraniana desenha relações e, sob um amplo e brilhante céu branco, abre a delicada narrativa visual que atravessa a extensa paisagem arenosa de um ensolarado deserto africano, onde um leão rubro e feroz de olhos amarelos salta sobre um menino, com seus afiados dentes arreganhados para o ataque, mas...
O movimento fatal impõe um inesperado encontro.
Sai o leão com o menino em suas costas e toda aquela imensidão árida cede lugar a uma companhia mansa. Entre as sombras poucas da savana e os animais selvagens sempre em grande número, o menino passeia imponente: o leão é seu amigo. Ninguém, no entanto, parece reconhecer sua natureza pacífica! Os guerreiros e caçadores, valentes, fortes, bravos, lançam alto e longe as lanças... A mãe corre para agarrar o seu filho. Tudo está aparentemente a salvo, em ordem. Como o homem determina.
No entanto, a visão poética de Mandana Sadat nos faz saber da indelével marca que o menino imprimiu na alma do leão. Em sonho, ele mesmo caminha sobre o céu escuro... A noite estende seu manto de segredos: igualmente sonha o menino com o horizonte último da civilização tribal... Quando poderá novamente dizer: este é meu amigo, MEU LEÃO (Escala Educacional, 2009).
Mandana Sadat desenha muito mais que imagens; a autora franco-iraniana desenha relações e, sob um amplo e brilhante céu branco, abre a delicada narrativa visual que atravessa a extensa paisagem arenosa de um ensolarado deserto africano, onde um leão rubro e feroz de olhos amarelos salta sobre um menino, com seus afiados dentes arreganhados para o ataque, mas...
O movimento fatal impõe um inesperado encontro.
Sai o leão com o menino em suas costas e toda aquela imensidão árida cede lugar a uma companhia mansa. Entre as sombras poucas da savana e os animais selvagens sempre em grande número, o menino passeia imponente: o leão é seu amigo. Ninguém, no entanto, parece reconhecer sua natureza pacífica! Os guerreiros e caçadores, valentes, fortes, bravos, lançam alto e longe as lanças... A mãe corre para agarrar o seu filho. Tudo está aparentemente a salvo, em ordem. Como o homem determina.
No entanto, a visão poética de Mandana Sadat nos faz saber da indelével marca que o menino imprimiu na alma do leão. Em sonho, ele mesmo caminha sobre o céu escuro... A noite estende seu manto de segredos: igualmente sonha o menino com o horizonte último da civilização tribal... Quando poderá novamente dizer: este é meu amigo, MEU LEÃO (Escala Educacional, 2009).
1 de novembro de 2011
e quem, um dia, irá dizer...
peter o'sagae
A tranquilidade da manhã foi rompida quando uma raposa de nariz comprido saltou para dentro do terreiro e fugiu com uma galinha! Passado o susto, zás-trás, o galo nervoso e mal humorado agarrou as orelhas do coelho que, elétrico, pulou nos ombros do pacato urso – e partiram, floresta adentro, no encalço do bandido... Os três amigos não desistem, dia e noite, noite e dia, correndo pelo chão ou dormindo no alto das árvores, cansam e descansam, subindo montanhas, descendo as encostas da praia... Eis que lá vai o ladrão de galinha ao mar!
E você pode se perguntar onde essa aventura vai acabar... Respondo: numa ilha distante, além das ondas, muitas ondas, onde chegam o urso, o coelho e o galo exaustos. A lua alta sorri, há um céu de lilás e eles avistam a luz quente de uma janela pequenina. Todos prontos para atacar – porém, neste livro de imagem narrativo de Béatrice Rodriguez, o inesperado parece acontecer, com humor, sensibilidade e inteligência. Assim, contrariando certas expectativas e os olhares mais incautos, veremos que a raposa não é exatamente o vilão da história!
Depois de LADRÃO DE GALINHA (Escala Educacional, 2009), Béatrice Rodriguez produziu mais duas narrativas em livros de imagem: A RAPOSA E A GALINHA (2010) e A REVANCHE DA RAPOSA (2011), ainda inéditos no Brasil.
A tranquilidade da manhã foi rompida quando uma raposa de nariz comprido saltou para dentro do terreiro e fugiu com uma galinha! Passado o susto, zás-trás, o galo nervoso e mal humorado agarrou as orelhas do coelho que, elétrico, pulou nos ombros do pacato urso – e partiram, floresta adentro, no encalço do bandido... Os três amigos não desistem, dia e noite, noite e dia, correndo pelo chão ou dormindo no alto das árvores, cansam e descansam, subindo montanhas, descendo as encostas da praia... Eis que lá vai o ladrão de galinha ao mar!
E você pode se perguntar onde essa aventura vai acabar... Respondo: numa ilha distante, além das ondas, muitas ondas, onde chegam o urso, o coelho e o galo exaustos. A lua alta sorri, há um céu de lilás e eles avistam a luz quente de uma janela pequenina. Todos prontos para atacar – porém, neste livro de imagem narrativo de Béatrice Rodriguez, o inesperado parece acontecer, com humor, sensibilidade e inteligência. Assim, contrariando certas expectativas e os olhares mais incautos, veremos que a raposa não é exatamente o vilão da história!
Depois de LADRÃO DE GALINHA (Escala Educacional, 2009), Béatrice Rodriguez produziu mais duas narrativas em livros de imagem: A RAPOSA E A GALINHA (2010) e A REVANCHE DA RAPOSA (2011), ainda inéditos no Brasil.
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