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22 de julho de 2015

deram os peixes a voar II

Quando o carteiro chegou... 8
O'ABRE ASPAS com Ilustrações Comparadas


Começo a pensar que gosto bastante de peixes
ou tenho me tornado repetitivo no título das postagens, pois já escrevi e mostrei como deram os peixes a voar nos livros de literatura para crianças [aqui]. Agora recebi e comecei a ler CÉU DE FUNDO DO MAR e outras histórias, um lançamento recente de Janaína Michalski, bolsista de criação literária pela Funarte/Ministério da Cultura, com ilustrações de abertura de capítulo e delicadas vinhetas de Aline Abreu (Autêntica, 2015). É a capa, no entanto, que honestamente me pesca e me enreda na imageria de André Neves confabulando espelhos e sonhos para AH! MAR, um texto de 1985 escrito por Bartolomeu Campos de Queirós (RHJ, 2007) [leia+].

Mas, vejam: esses peixes que se levam na cara das personagens, também me fazem lembrar de uma descrição arguta de Alice Vieira. Tive minhas tias-avós espanholas, Maria, Petra, Escolástica, Isabel, Lola mas nenhuma que fosse Josefa. No entanto, minha mãe vivia cantando (ela também se repetia, quando encontrava alguém de espírito amuado) que às vezes andávamos à moda de Josefa “Pepa” Bandera...
Pepa, no me des tormento
Pepa, no me hagas sufrir
Pepa, vivo de tu aliento
Pepa, y muero por ti [leia+].
Ora, uma broma era o que era porque é una canción (como dizer?) muy hortera [aquí] y [aquí]. Bendito seja! Voltemos à literatura – O’ABRE ASPAS* com Alice Vieira, em OS OLHOS DE ANA MARTA (Edições SM, 2005):
D. Pepa usava na cara todos os produtos de beleza anunciados na televisão, e todos eram sempre melhores que os anteriores, “como no me dé cuenta antes?”, e todos eram milagrosos e prometiam juventude eterna. Lábios vermelhos, pálpebras verdes ou azuis, bochechas em tom de ocre e, para culminar a obra de arte, um artístico sinal muito preto do lado esquerdo do queixo. Às vezes D. Pepa ainda pegava num lápis e com ele fazia dois traços escuros (geralmente tremidos, pois a mão já lhe faltava) a sublinhar os contornos dos olhos. Então os olhos de D. Pepa pareciam peixes a navegar no mar colorido do seu rosto [...] ao olhar para ela, nas tardes de sexta-feira, só via peixes desenhados na poeira dos caminhos.
* (Alice Vieira, 2005: 35-6)

19 de setembro de 2014

verde para ver todas as cores

Peter O.o'Sagae


“Quem espera”, diz Christina Dias, “logo vê que a cor que arromba a visão não é o verde. É o vermelho.” Pois era vermelho o fruto que se destina a chama a atenção do Uirapuru – não era, porém, macio ou maduro como qualquer pássaro poderia supor, tinha uma casca de pedra!


Uirapuru cantou e convocou para o alto o Bicho-pau que chamou o Rei e a Rainha Cupim que foram buscar o Tamanduá de Colete que, enfim, conseguiu, com o próprio peso, derrubar o fruto redondo e duro. Mas a bola como pedra não se partiu... O MISTÉRIO DA BOLA CASTANHO-AVERMELHADA, com ilustrações de Aline Abreu (Frase e Efeito, 2009, Jujuba, 2010) é uma narrativa em lengalenga inventada por Christina Dias, ao sabor dos contos acumulativos tradicionais, com um fraseado bonito e elegante para o pequeno leitor habituar-se com o colorido da linguagem literária.


Os animais da floresta vão se reunindo para abrir e descobrir quê fruto é esse. Pouco pode a Preguiça, também pode pouco quem tem quatro pés, Paca, Tatu-galinha, Anta ou Quati. Nem a suçuarana de pelagem vermelha que não teme confusão. Nem Jacaré-açu, Boto ou Pirarucu. Fruto redondo e duro! Bichos do ar, da terra e da água nada conseguem e o fruto castanho-vermelho vai rolando pela floresta, enrolando o leitor pelo emaranhado de traços e rastros da fauna brasileira até as mãos de uma menina Kaiapó. Ela pega do facão e, num golpe só... estará resolvido o mistério!


Nas planícies da África, contra o vento seco, crescia uma árvore maravilhosa, carregada de frutos também vermelhos, bem vermelhos, redondos como melões, suculentos como tâmaras e o aroma... Ah! o aroma das mais doces mangas. Porém, uma enorme serpente vivia enrolada ao tronco e apenas cederia passagem àquele que dissesse o nome da árvore.

O Elefante, a Girafa, a Zebra, o Macaco e a Tartaruga andavam famintos – mas, você sabe, a fome dá coragem, garra, velocidade e persistência. Um a um, eles vão consultar o Rei dos Animais que muito longe morava a fim de descobrirem o nome da árvore e do fruto cobiçado.


BOJABI, A ÁRVORE MÁGICA, de Dianne Hofmeyr e Piet Grobler, tradução de Carolina Maluf (Biruta, 2012), é outra narrativa em lengalenga. O perigo não estava no caminho a ser desenrolado debaixo do sol, que é rei de calor, nem na força do monarca da floresta africana que é o Leão... A Zebra tropeçou na língua e disse: Bongani! O Macaco coçou a cabeça: Munjani? O Elefante, justo ele: Umfani! Quem haveria de guardar consigo e lembrar-se do nome da árvore mágica, a Tartaruga ou a Girafa? Pois saiba, o perigo à conservação da vida sempre é perder a memória!