23 de fevereiro de 2010
olhar manso, coração intenso
por Peter O'Sagae

Emily Dickinson
UM LIVRO DE HORAS
seleção, tradução e
iluminuras de Angela-Lago
Scipione, 2008
ISBN 9788526267671
17 x 24 cm 64p.
Em 1896, com um olhar de extremo zelo, Walter Crane descreveu o encantamento que a ele provocava a delicadeza dos livros de horas, contendo orações e salmos, ornamentados por competentes mãos medievais: “Um livro de horas não era apenas um livro de preces”, dizia ele, “mas um picture-book, um santuário, um pequeno espelho do mundo, um templo em meio a um jardim de flores.” É esta admiração devotada que me sobrevém à mente, pois
tenho as mãos sobre um livro de capa dura, revestido de um impressionante tecido vermelho ao toque... É um presente de Angela-Lago que, ao modo dos antigos mestres artesãos no exílio do scriptorium, enclausurou-se na beleza dos poemas de Emily Dickinson — e a ela serve majestosamente, nos dias atuais, como decoradora e copista.
Leitora afeita, Angela traduziu-lhe também os versos, colhendo minúcias de nossa língua para uma nova rima e dicção que a jovem inglesa jamais suspeitaria. Ganhamos duas dúzias de poemas-pensamentos. Mais do que um espelho caprichoso, a linguagem reflete a alma de quem ama e observa o campo, o jardim, a folhagem, breves rosas e pequeninas coisas que voam — contra um fundo imutável de montanhas e eternidade. Podemos imaginar como fora intenso e manso o coração de Emily Dickinson — para quem, em prece, Angela escolheu bordar páginas de rendilhado fractal azul, vermelho, verde e amarelo envelhecido.
A decoração floral evolui exuberante — e, do meio de seus contornos, o tempo é anunciado:
do botão a despertar às pétalas, em cálice, já encorpadas numa outra estação... Contudo, Angela-Lago não tomou de antigas tintas e ouro; usou recursos digitais para imitar um trabalho de agulha e paciência — o que exige igualmente paciência ao leitor: horas, recolhimento e loucura “para um olho inteligente” que aí descortina e se interroga: afinal, Angela ilustrou ou iluminou esses lindos poemas?
Nunca é demais nos abandonarmos à dúvida, pousados, em meio a um jardim de flores, frente a um templo particular. E apenas Angela nos poderia abrir um convite consolador para adentrá-lo, agora e sempre
— “Desde menina costumo declamar poemas nas horas de aflição. Deus, que vive em toda parte, lá no fundo de mim, escuta. E me dá de imediato o conforto da beleza.”


Emily Dickinson
UM LIVRO DE HORAS
seleção, tradução e
iluminuras de Angela-Lago
Scipione, 2008
ISBN 9788526267671
17 x 24 cm 64p.
Em 1896, com um olhar de extremo zelo, Walter Crane descreveu o encantamento que a ele provocava a delicadeza dos livros de horas, contendo orações e salmos, ornamentados por competentes mãos medievais: “Um livro de horas não era apenas um livro de preces”, dizia ele, “mas um picture-book, um santuário, um pequeno espelho do mundo, um templo em meio a um jardim de flores.” É esta admiração devotada que me sobrevém à mente, pois
tenho as mãos sobre um livro de capa dura, revestido de um impressionante tecido vermelho ao toque... É um presente de Angela-Lago que, ao modo dos antigos mestres artesãos no exílio do scriptorium, enclausurou-se na beleza dos poemas de Emily Dickinson — e a ela serve majestosamente, nos dias atuais, como decoradora e copista.
Leitora afeita, Angela traduziu-lhe também os versos, colhendo minúcias de nossa língua para uma nova rima e dicção que a jovem inglesa jamais suspeitaria. Ganhamos duas dúzias de poemas-pensamentos. Mais do que um espelho caprichoso, a linguagem reflete a alma de quem ama e observa o campo, o jardim, a folhagem, breves rosas e pequeninas coisas que voam — contra um fundo imutável de montanhas e eternidade. Podemos imaginar como fora intenso e manso o coração de Emily Dickinson — para quem, em prece, Angela escolheu bordar páginas de rendilhado fractal azul, vermelho, verde e amarelo envelhecido.A decoração floral evolui exuberante — e, do meio de seus contornos, o tempo é anunciado:
do botão a despertar às pétalas, em cálice, já encorpadas numa outra estação... Contudo, Angela-Lago não tomou de antigas tintas e ouro; usou recursos digitais para imitar um trabalho de agulha e paciência — o que exige igualmente paciência ao leitor: horas, recolhimento e loucura “para um olho inteligente” que aí descortina e se interroga: afinal, Angela ilustrou ou iluminou esses lindos poemas?
Nunca é demais nos abandonarmos à dúvida, pousados, em meio a um jardim de flores, frente a um templo particular. E apenas Angela nos poderia abrir um convite consolador para adentrá-lo, agora e sempre— “Desde menina costumo declamar poemas nas horas de aflição. Deus, que vive em toda parte, lá no fundo de mim, escuta. E me dá de imediato o conforto da beleza.”

leituras de escritor
Dobras da Leitura recebeu...
Clique na foto para saber quem são os autores preferidos de Ana Maria Machado, Luiz Ruffato e Moacyr Scliar. Informações extraídas da apresentação de capa.

Leituras de escritor, org. Ana Maria Machado (2008). Em uma festa à fantasia, um misterioso camelo casa com a encantadora de serpentes e arma uma confusão; indignada, uma matriarca octagenária, no dia de seu aniversário, vê sua infeliz descendência e xinga os frutos de seu ventre; escondida de modo improvável, uma carta desafia os métodos de investigação convencionais de um chefe de polícia. Essas e outras histórias você encontra nesse volume de contos especialmente escolhidos pela premiada Ana Maria Machado.

Leituras de escritor, org. Luiz Ruffato (2008). Arrastada por uma enchente, uma vaca destrói os sonhos de uma família quanto ao futuro da filha mais nova; dois irmãos ociosos, cuja casa é inexplicavelmente invadida, se acuam sem esboçar reação; um jejuador profissional assiste impotente ao declínio de sua arte num mundo onde nada mais apetece. Eis algumas histórias desta antologia de contos organizada por um dos mais destacados ficcionistas brasileiros atuais.

Leituras de escritor, org. Moacyr Scliar (2008). Uma família tranca a mãe doente em um mundo de faz-de-conta para protegê-la; outra às voltas com a memória de um pai avesso ao prazer. Um professor de araque torna-se celebridade; e uma jóia, emprestada e perdida, arruína um casal. Para essa coletânea, Scliar traz ainda histórias de suspense e terror ambientadas nos mais diversos cenários, como os pampas rio-grandenses, as planícies geladas do Canadá e um palácio italiano.
Clique na foto para saber quem são os autores preferidos de Ana Maria Machado, Luiz Ruffato e Moacyr Scliar. Informações extraídas da apresentação de capa.
Leituras de escritor, org. Ana Maria Machado (2008). Em uma festa à fantasia, um misterioso camelo casa com a encantadora de serpentes e arma uma confusão; indignada, uma matriarca octagenária, no dia de seu aniversário, vê sua infeliz descendência e xinga os frutos de seu ventre; escondida de modo improvável, uma carta desafia os métodos de investigação convencionais de um chefe de polícia. Essas e outras histórias você encontra nesse volume de contos especialmente escolhidos pela premiada Ana Maria Machado.

Leituras de escritor, org. Luiz Ruffato (2008). Arrastada por uma enchente, uma vaca destrói os sonhos de uma família quanto ao futuro da filha mais nova; dois irmãos ociosos, cuja casa é inexplicavelmente invadida, se acuam sem esboçar reação; um jejuador profissional assiste impotente ao declínio de sua arte num mundo onde nada mais apetece. Eis algumas histórias desta antologia de contos organizada por um dos mais destacados ficcionistas brasileiros atuais.

Leituras de escritor, org. Moacyr Scliar (2008). Uma família tranca a mãe doente em um mundo de faz-de-conta para protegê-la; outra às voltas com a memória de um pai avesso ao prazer. Um professor de araque torna-se celebridade; e uma jóia, emprestada e perdida, arruína um casal. Para essa coletânea, Scliar traz ainda histórias de suspense e terror ambientadas nos mais diversos cenários, como os pampas rio-grandenses, as planícies geladas do Canadá e um palácio italiano.
2 de outubro de 2009
naquela floresta de abraços
por Peter O'Sagae


Taisa Borges, no livro de imagem A BELA ADORMECIDA (Peirópolis, 2007), remonta a versão de Charles Perrault, em meio à estamparia floral que evoca os longos braços de folhas e espinhos que circundaram o velho castelo.
São finíssimos os traços que detalhadamente desenham rostos e vão contornando os volumes todo-brancos do cenário e do rico figurino. Como que assinalando faltas e ausências, as imagens surgem tingidas por um vazio de cores — um amarelo apenas esmaece ao fundo do casal real; um vermelho pouco rubro mancha a toalha da mesa, onde se reúnem sete fadas elegantes, durante a celebração do nascimento da princesa; mais adiante, existe um verde que a esperança do príncipe exige sobre seu manto... E branca será a floresta por onde o amado há de passar. Somente o vestido de Bela tem sempre cores, da ansiedade juvenil ao sono irrevogável: vermelho, azul, amarelo, o corpete, o recortado das mangas, a saia, a floração que ali se insinua em giros e onde mesmo há de brotar um novo matiz para a sua história.
Pois bem: ao escolher a versão francesa do conto, Taisa Borges reserva as páginas centrais para uma seqüência, por vezes, desconhecida dos pequenos leitores. Sob a proteção do castelo, no aconchego da floresta de abraços, Bela e o príncipe tiveram dois filhos — e é mais do que chegado o momento dele apresentar a nova família, em outro reino, perante seus pais. E as cores, as vestes escuras, o rosto mal iluminado da Rainha-Mãe antecipam o destino sombrio que está para acontecer!
Neste trabalho, que encerra uma trilogia de homenagens aos contos de fadas, Taisa Borges enfrenta o desafio de cenas mais estáticas e estancadas, principalmente na primeira parte do livro, como se os personagens estivessem posando para um quadro ou parados à beira de um palco. As páginas são verdadeiramente rememorativas, exibindo certos momentos do conto, sem encadeamento de ações, o que exige conhecimento e esforço da memória para o leitor completar a narração.
São finíssimos os traços que detalhadamente desenham rostos e vão contornando os volumes todo-brancos do cenário e do rico figurino. Como que assinalando faltas e ausências, as imagens surgem tingidas por um vazio de cores — um amarelo apenas esmaece ao fundo do casal real; um vermelho pouco rubro mancha a toalha da mesa, onde se reúnem sete fadas elegantes, durante a celebração do nascimento da princesa; mais adiante, existe um verde que a esperança do príncipe exige sobre seu manto... E branca será a floresta por onde o amado há de passar. Somente o vestido de Bela tem sempre cores, da ansiedade juvenil ao sono irrevogável: vermelho, azul, amarelo, o corpete, o recortado das mangas, a saia, a floração que ali se insinua em giros e onde mesmo há de brotar um novo matiz para a sua história.
Pois bem: ao escolher a versão francesa do conto, Taisa Borges reserva as páginas centrais para uma seqüência, por vezes, desconhecida dos pequenos leitores. Sob a proteção do castelo, no aconchego da floresta de abraços, Bela e o príncipe tiveram dois filhos — e é mais do que chegado o momento dele apresentar a nova família, em outro reino, perante seus pais. E as cores, as vestes escuras, o rosto mal iluminado da Rainha-Mãe antecipam o destino sombrio que está para acontecer!
Neste trabalho, que encerra uma trilogia de homenagens aos contos de fadas, Taisa Borges enfrenta o desafio de cenas mais estáticas e estancadas, principalmente na primeira parte do livro, como se os personagens estivessem posando para um quadro ou parados à beira de um palco. As páginas são verdadeiramente rememorativas, exibindo certos momentos do conto, sem encadeamento de ações, o que exige conhecimento e esforço da memória para o leitor completar a narração.
Assinar:
Postagens (Atom)

