Quando o carteiro chegou... 5
O tempo é um dos meus temas mais queridos, poético em essência, porque carrega consigo as disparidades do mundo sensível e do pensamento, pertence ou mostra-se em um número concreto de coisas, mas também possui algo das coisas imateriais como são os sentimentos, como não deixam de ser a felicidade e a tristeza. No tempo, tudo emparelha-se. Querem saber?
No livro de Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso, Com o tempo (Peirópolis, 2015), as autoras brincam com a compreensão que todos nós, crianças ou adultos, podemos ter a respeito do tempo. Partem do sentido do olhar, comparando as medidas e as mudanças com cada pessoa e com as pessoas a nossa volta, aos alimentos que se transformam de instante a instante, de um dia para o outro, durante uma estação. A experiência vai se transformando em regras, intervalos e períodos, tempo feito de temporadas.
Como as páginas de um livro que amarelecem, o tempo passa a ser percebido em suas qualidades mais subjetivas, nesse caminhar entre verbal e imagens. O feio transforma-se em bonito, contam as autoras, o difícil se torna fácil, a experiência do dia-a-dia vai adensando o conhecimento de cada um de nós. E tudo isso é dito de um modo lúdico, bem humorado, lúcido, bem retratado. O tempo da leitura exige então que se completem as lacunas pois nem tudo está dito, nem tudo está ilustrado...
Quase o tempo todo, o tempo é um ritmo de complementação. Ainda que venhamos a opor a palavra e a imagem, elas são, quando bem casadas, um só texto, quando se pensa os avanços da literatura endereçada à infância. E infância aqui adquire o sentido múltiplo de alcançar crianças e leitores adultos.
Com o tempo, perdemos algumas coisas, por exemplo, um dente que nos impede de sorrir – mas, se perdemos um sabonete dentro da banheira, sempre encontrávamos um motivo para brincar e rir com essa lembrança... e ganhamos outras! Uma medalha que outra coisa não é que uma vitória, após anos e anos de esforço e trabalho dentro da água. As ideias passam de uma a outra através da evocação, e a emoção de um acontecimento a outro flui continuamente...
Então, esse texto, esse livro que tenho em mãos torna-se difícil de classificar, mas tão fácil descrevê-lo como um texto enumerativo, uma lista de impressões, comparações, jogos de marcadas oposições, contrários, paradoxos, espantos, admiração... É um velho álbum de imagens, um imagiário, mas também é um poema novo que vai se construindo para nossa diversão e fazer refletir. Ali está o tempo do relógio, o tempo da ciência e da filosofia, o tempo do conhecimento, o tempo fora e o tempo dentro da gente. E assim vamos passando as páginas, como o tempo.
Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso, levam-nos juntamente Com o tempo da vida e da leitura. Um livro sem idade.
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13 de julho de 2015
16 de maio de 2011
ideia ou imagem, um pê de pai
p.o'sagae
À primeira vista, Pê de pai, uma pequena e singela obra de Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho (Cosac Naify, 2009), pode parecer um livro de palavras, desde o título escrito em estilo cursivo como “letra de professora” à relação de contiguidade entre o nome da letra e um substantivo comum, como fazem as crianças quando aprendem a escrever. Porém, tem um outro feitio a obra dos autores portugueses: é todo ele um poema transformado em livro...
O texto brinca com expressivas metáforas e antíteses que estabelecem um lúdico trânsito de significados, enquanto um inteligente projeto gráfico dispõe suas rimas a cada quatro páginas. Vale a pena conferir como são construídas curiosas relações, numa sequência como esta:
É pois, a partir de ideias aparentemente disparatadas, que o leitor descortina um jogo afetivo igualmente encenado pelas ilustrações esquemáticas, em cores chapadas, tornando semelhantes pai e filho em suas silhuetas. Nesse brincar, temos poesia que se manifesta em diferentes níveis: da palavra à imagem ilustrada e desta para a imagem evocada pela palavra, uma obra para leitores de qualquer idade com mente produtiva e criadora.
P.S. Num lance só, entrando ou saindo pelas páginas de guarda, a lembrança sem esforço das palavras de Wordsworth, o poeta pescado por Brás Cubas, entre magnólias e gatos ;-) uma ideia entrevista, imagens que se fazem diagramar tal como “o menino é o pai do homem”.
À primeira vista, Pê de pai, uma pequena e singela obra de Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho (Cosac Naify, 2009), pode parecer um livro de palavras, desde o título escrito em estilo cursivo como “letra de professora” à relação de contiguidade entre o nome da letra e um substantivo comum, como fazem as crianças quando aprendem a escrever. Porém, tem um outro feitio a obra dos autores portugueses: é todo ele um poema transformado em livro...
O texto brinca com expressivas metáforas e antíteses que estabelecem um lúdico trânsito de significados, enquanto um inteligente projeto gráfico dispõe suas rimas a cada quatro páginas. Vale a pena conferir como são construídas curiosas relações, numa sequência como esta:
pai guindaste / pai trator
pai sofá / pai motor
pai sofá / pai motor
É pois, a partir de ideias aparentemente disparatadas, que o leitor descortina um jogo afetivo igualmente encenado pelas ilustrações esquemáticas, em cores chapadas, tornando semelhantes pai e filho em suas silhuetas. Nesse brincar, temos poesia que se manifesta em diferentes níveis: da palavra à imagem ilustrada e desta para a imagem evocada pela palavra, uma obra para leitores de qualquer idade com mente produtiva e criadora.
P.S. Num lance só, entrando ou saindo pelas páginas de guarda, a lembrança sem esforço das palavras de Wordsworth, o poeta pescado por Brás Cubas, entre magnólias e gatos ;-) uma ideia entrevista, imagens que se fazem diagramar tal como “o menino é o pai do homem”.
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