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25 de setembro de 2014

ouvindo conversa alheia

Peter o.O'Sagae


É interessante observar como, na criação de textos para crianças, uma mesma cena pode gerar ou promover narrativas completamente diversas. Ou não?

Eva Furnari conta:
Era uma vez uma cidade bem pequena. Tinha seis habitantes. Todo fim de tarde eles iam para a praça conversar. Sentavam-se sempre no mesmo lugar e diziam as mesmas coisas: 
— Puxa, que calor! 
— Calor horrível! 
— Como vão os negócios? 
— Vão mal. 
— O ano que vem vai ser pior. 
— Vai. 
E conta Hermes Bernardi Jr...
Morria a árvore no centro do vilarejo. De pés descalços, os habitantes do lugar desfrutavam do conforto de suas casas. Nunca pisavam do lado de fora. Temiam machucar os pés. Todos os dias, as janelas das casas se abriam. 
— Vai chover. 
— Acho que vai. 
— Vai nevar. 
— Talvez. 
— Mãe, posso passear? 
— Vem aí uma tempestade. 
— Se vem! 
— Até outro dia! 
— Até!


A sátira dá o tom. As personagens de Eva Furnari são cômicas e a ilustração contribui para completar e ampliar o efeito da mensagem – em suas banquetas de assento baixo, pés paralelos, pernas cruzadas, mãos no joelho ou no colo, braços fechados, mãos segurando a cabeça, o pescoço torto, um ouvido espichado, o nariz virado de lado, os olhos procurando alguma coisa, o silêncio, um fio de cabelo fora do lugar etc. Existe, na cena, um equilíbrio incômodo: seis personagens em busca de um assunto, debaixo de uma árvore de galhos simétricos, debaixo de seis passarinhos sentados... O que eles contam? Uma piada?


Pois o livro COCO DE PASSARINHO (Companhia das Letrinhas, 1999, Moderna, 2013) pertence ao gênero das anedotas.


Entre o ridículo e o desânimo, a crítica de Hermes Bernadi Jr. é contrabalanceada por uma ilustração sem figuras definidas, ou definitivas. A árvore voa da tinta para o papel, mostrando-se aos poucos. Hermes lançou mão dos pincéis e do movimento rápido para sugerir uma árvore que página a página vai ganhando seu colorido: sapatos ou flores? O texto de PÉ DE SAPATO (Biruta, 2011) conta-se como uma sugestão de lenda.


* Conheça a história na [postagem anterior]...

23 de setembro de 2014

das árvores textuais

Peter O'Sagae


Diferentes histórias para crianças lançam suas raízes sobre os gêneros da literatura oral, na forma de apropriação ou estilização dos velhos esquemas textuais. Sentemos à sombra das palavras e das alegorias, por favor...


KAMAZU é o reconto de uma lenda angolana, com texto e ilustrações de Carla Caruso (Mundo Mirim, 2012). Órfão e escravo entre os negros de sua terra, após ter sido empenhado como pagamento por um tio, Kamazu sonha e muito trabalha para libertar-se. Ao final do dia, descansa protegido por um baobá, árvore robusta de imensa força simbólica: longevidade, paciência, permanência... Então, veio, uma noite, uma voz que o levaria à visão de um rio. Porém, Kamazu não deu a devida importância à mensagem da natureza que sempre penetra o sonho dos homens. A voz voltou para acordá-lo e, então, o fez caminhar para o curso de seu próprio destino: conhecer os segredos das plantas para curar a dor dos animais e dos homens, libertando o próximo para libertar a si.


Nesta apropriação de uma narrativa tradicional, Carla Caruso deu um nome ao herói e acrescentou outros elementos da cultura mágica africana, como as sombras que se movem alimentando os bosques de mistério e uma verde pedra calubungo, espécie de pedra filosofal que potencializa as propriedades medicinais das ervas combinadas.


SABELÁONDE é um livro ilustrado de Cristiana Valentini e Philip Giordano, com tradução de Maria Amália Camargo (Caramelo, 2012). Trata-se de um apólogo a respeito do amadurecimento interior: enquanto muitas sementes esperam a passagem do vento para caírem no mundo, e virarem árvores, e começarem a falar, sabeláonde, sabeláquando, uma semente pequenina preferiu agarrar-se à copa de uma cerejeira no alto de uma montanha deserta, ou melhor, quase deserta. Lá permaneciam a árvore e sua semente, recebendo abrigo e agasalho contra a chuva, o sol ardido, as ventanias frias, por mais um dia, um dia, um dia... A sementinha no entanto não aprendia a falar. Confiante e contente, apenas sorria a todas as perguntas que a árvore perguntava, até que um pássaro roubou a companhia entre ambas em uma manhã de outono. Seria o fim, ou o começo de uma nova estação, em outra montanha, não muito distante, sabeláonde, do outro lado da campina?


No diálogo com o passado fabular, o apólogo moderno ainda se concentra em temas do cotidiano, humanizando uma aprendizagem. Contudo, a figura do ouvinte tradicional, preocupado em defender-se dos interesses e das imposturas sociais, passa a reviver uma relação mais íntima, familiar e existencial.


PÉ DE SAPATO, com texto e ilustrações de Hermes Bernadi Jr. (Biruta, 2011), traz uma alegoria ou uma história de muitas histórias. Enquanto uma árvore morria, bem no centro de um vilarejo, os habitantes recusavam-se a sair do conforto de suas casas. Eles viviam descalços, verdadeiramente presos, com medo de machucar os pés. Por isso, bem pouco conversavam na hora que um e outro abria ou fechava a janela. Um sapateiro chegou ao lugar, sem que ninguém lhe desse atenção, tão bem pareciam viver as pessoas descalças dentro de casa... Mas o sapateiro fez tamancos bordados, chinelas de seda e fitas, sapatos de couro, botas pintadas, sapatilhas e sandálias de várias feitios que se acumulavam sob a árvore, depois em seus galhos ao modo de flores coloridas – e, como os pássaros da ilustração, Hermes conta que os olhos viriam espiar e pousar sobre os sapatos através da fresta das janelas.


O clima pertence à natureza dos contos mágicos, com vocação para a lenda: uma menina se achega da árvore e escolhe calçar o primeiro par de sapatos! Ela é uma espécie de Cinderela abrindo caminho para as pessoas daquele lugar, inventando histórias e voando por outras estradas porque os pés jamais viverão nus, dentro de casa, outra vez.

31 de maio de 2011

distraídos, como quem olha e não vê

peter fios & pensamentos

“Ando com vontade de vir ficar para sempre aqui com você [...] Para sempre. Feliz para sempre. Que nem nas histórias. Aqui é que eu faço tudo o que eu quero.” É o que falou Lucas, O menino que espiava para dentro, no conto de Ana Maria Machado de 1983, agora com ilustrações de Alê Abreu (Global, 2008). “Pelo tempo que Tata levou para responder, parecia que estava era procurando e ainda não tinha achado nada.

Mas, finalmente, disse:
— Eu acho que para sempre é demais.”

“Lucas acabou concordando:
— É... passar o resto da vida espiando pra dentro pode não ser uma boa.
Mas eu podia fazer isso, digamos, durante uns cem anos.
Feito a Bela Adormecida.”


Meninos que brincam e sonham.
Um nó, quando acontece sonho ruim.

“Você aparece com um fio escapando de dentro de ti. Pede pra eu puxar a ponta. Eu tento, mas quando vou pegar a ponta do fio, minhas mãos viram pedra. Eu viro todo pedra.” Pois é um só O emaranhado da maçaroca, livro-situação de Hermes Bernardi Jr. com imagens de Renan Santos (Larousse, 2009). “Paulo estende suas mãos em concha para mim.

— Põe o pé aqui e sobe, Pedro.
Vamos ouvir o mundo lá em cima da árvore?”

Depois, bem depois.
Numa tarde de sol de um dia
qualquer, Pedro e Paulo.

[...] puxei um fio escapado teu e tem coisa escrita nele.
— O que é?
— Que você nunca teve um amigo como eu.

14 de julho de 2009

Como esconder um rinoceronte num livro


O primeiro rinoceronte no colofon: é Angela Lago quem equilibra o paquiderme gravado pelo renascentista Albrecht Dürer, na quarta-de-capa do livro De morte! (1992); dedicatória de Hermes Bernardi Jr. (E um rinoceronte dobrado, 2008) e uma página ilustrada por Dave Santana (O pequeno crocodilo, 2008).

E um ri-no-ce-ron-te... dobrado?


Hermes Bernardi Jr.
il. Guto Lins

E um rinoceronte dobrado
Projeto, 2008

ISBN 9788585500696
25 x 25 cm 28p.


Mais do que guardar brinquedos, uma caixa de sapatos guarda brincadeiras e badulaques, todo um tesouro que é um verdadeiro mundo. Para qualquer criança. Numa caixa de sapatos, cabem objetos concretos, pedaços de objetos e também muita imaginação — e, lá no futuro, tais pedacinhos de sonho nos ajudarão a compor valiosas lembranças. Assim, mais do que guardar poesia num livro, Hermes Bernardi Jr. guarda a fantasia do própria infância em seu poema.

O que eu colocaria numa caixa de sapatos? é a pergunta que se faz o poeta, antes de abrir uma enumeração de elementos vários e díspares: um macaco de patins, trinta e sete quindins, a dentadura de uma tia, uma radiografia, todos os sabores de picolé... É esta flutuação, entre elementos grandes e pequenos, leves e pesados, que permite encontrar

na caixa de Hermes um cílio e um trilho, lado a lado, ao que é assim e o que é assado, pensamentos embalados em mel... E um rinoceronte dobrado!

Enquanto os trecos reais e imaginários guardados numa caixa de sapato são piruetas poéticas, como diz o autor, permitindo o livre mergulho num tempo sem cronologia definida, o trabalho de ilustração contrariamente impõe a precisão de imagens presas na embalagem da cultura popular e midiática do último século. São lembranças particulares de Guto Lins que abriu suas próprias caixas de referências, lá encontrando brinquedos, anúncios e motivos decorativos para combiná-los com desenhos e grafismo de cores num pop-arte retrô para crianças.

E em sua caixa de sapatos o que você colocaria? é o convite que fica para o leitor pensar os tesouros que deseja guardar consigo e carregar vida afora.

8 de junho de 2009

De um planeta distante...


Hermes Bernardi Jr.
il. André Neves
Planeta Caiqueria
Projeto, 2003

ISBN 9788585500511
22 x 26 cm 32p.


Uma histórica (e poética) fuga das histórias está para acontecer, em um planeta opaco e distante. Lá, uma estranha criatura entrega-se ao trabalho diário de regar frases no jardim...


Frases curtinhas, assanhadas,
frases tristes, gorduchas, zangadas,
frases faceiras, frases ligeiras,
frases magras, breves, frases arteiras.


Frases de todos os feitios, tiradas à terra adubada com pó de imaginação — parlampampam, pensará o leitor, vingará a colheita para nossa diversão...

Não, nada disso acontece: pois a estranha criatura de curta memória só sabe colher e feixar frases em ramalhetes de história que, zelosamente, guarda dentro de caixas, muito bem guardadas, empilhadas como seu mais precioso tesouro. E tudo vai bem, seguindo a ordem da espera, a acomodação dos dias, o giro de luas, astros e cometas — que beleza — naquele planeta! Até que, ops! Um acidente de percurso se aproxima... O que acontecerá? Como se sentirá a pequena e estranha criatura?

Hermes Bernardi Jr. trama metáfora e metalinguagem para falar a respeito do fazer literário, em uma história mui simples, regada por artifícios da poesia enumerativa: são nesses ritmados intervalos que o jardim brota, cresce e floresce, — e as caixas vão tomando volume no cenário da imaginação. Nas ilustrações, a criatura de Caiqueria cintila cores diversas, de acordo com seu desejo, ânimo e emoção. Sempre iguais, no entanto, são seus grandes olhos castanhos à espreita: e André Neves mostra-se outra vez incansável-incurável com "aquela" infinidade de letras recortadas em quadradinhos, impondo ao leitor um jogo de caça-forma-palavras.
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