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15 de julho de 2015

o outro problema do Clóvis

Quando o carteiro chegou... 6


Sempre há algo, alguém diferente no meio da repetição. Esta é a primeira dobra que a mim se mostra, quase leitura, diante da capa branca do livro UNIFORME, de Tino Freitas e Renato Moriconi (Edições de Janeiro, 2015). Pinguins, aonde vão assim, sempre tão iguaizinhos no mesmo passo e compasso? Entretanto, entre eles, dentro de sua casaca, confortavelmente estranho, está um velho senhor. Puro disfarce, imitação? Algo ou alguém anda fora do padrão?


Tino vem contar a história de Clóvis, alguém como nós que nasceu livre e pelado, que aprendeu a viver camuflado e sobreviver como todo camaleão. A presença da símile, repetida como um bordão, evidencia a intencionalidade da narrativa logo de início... Clóvis não é um camaleão, mas agirá como um. Até quando? A ilustração também trabalha com a mesma figura retórica através da repetição do desenho e, como um livro-jogo, o leitor vai percebendo e procurando alguma coisa que sempre sai fora da constante uniformidade da ordem da reprodução....


Clóvis vai e vem no meio do rebanho das ovelhas, segundo os interesses e as circunstâncias, algo assim Maria vai com as outras! E Clóvis ouve dizer coisas e faz tudo igual a todo mundo, finge, esconde-se, caminha de cabeça baixa e... E jogou-se aos tubarões, macaqueou-se, dançou conforme a música... Adiantou? O destino, diz Tino, parece ter sido uma aprendizagem para tirar os disfarces, desnudar-se e seguir adiante somente com o próprio coração.

No final do livro, o leitor desdobra uma página e...


vê todos os seus bichos coloridos!

* * *


P.S. A leitura é sempre uma brincadeira por inúmeras obras e aqui desdobro a memória de alguns autores e títulos que constituem a série ou família literária de onde a produção contemporânea se cria e arroja-se em novos passos. É isto o que permite uma tradição para a literatura infantil brasileira! Saudamos Tino Freitas com suas lembranças e possíveis inspirações: O pinguim, poema de Vinícius de Moraes (1977), Maria-vai-com-as-outras, desenhos e história de Sylvia Orthof (1982) e O problema do Clóvis, livro ilustrado de Eva Furnari (1992).

26 de novembro de 2014

olhe o céu encarneirado

Peter O'Sagae, hoje


No cenário dos livros para crianças, quando muito se pensa e discute a respeito de ilustração, textos ilustrados e narrativas visuais (conceitos que se esbarram um tanto, sem contornos), acabamos nos esquecendo de que a imagem não é algo externo aos variados processos criativos e que ela – A IMAGEM – é um elemento constituinte da linguagem literária, independente do código e das relações entre os signos sonoros, visuais e verbais. Repenso e brevemente apresento a questão pois existe um sem-número de autores que reclama a originalidade de suas obras, acreditando estarem eles desobrigados da intertextualidade.

Ora, a Natureza recortada pela linguagem popular costuma oferecer ótimas imagens literárias para a criação de poesia, narrativas e ilustração. Acaso hoje, limpando as estantes, encontrei ovelhas e carneiros nos lençóis de nuvens brancas e cinzentas, criando massas redondas como flocos de algodão, com suas próprias sombras para o olhar mais imaginoso, ainda que esses rebanhos de água sejam cientificamente chamados altos-cúmulos. Então, trouxe para a mesa três livros que se nutrem da mesma imagem, porém motivando narrativas bem diferentes quanto à mensagem que reside ao fundo. O exemplo é didático.


Ana Maria Machado começa a história de Beto, o carneiro (1977) exatamente com um sentimento de insatisfação, o desejo de liberdade do personagem. Cansado de uma vida de carneirices, Bebeto foge do cercado e sobe uma montanha calma e, apenas com um pensamento, resolve virar nuvem. E vira. No entanto, ele se apercebe que as nuvens respondem à vontade dos ventos, como qualquer rebanho às ordens do pastor. Bebeto, então, vira espuma das ondas do mar, na terceira vez em que o tema é apresentado aos leitores.

Originalmente lançado com o título Carneirinho, carneirão, o texto pertence a uma categoria de histórias mais conformadoras, fazendo com que Bebeto abandone suas fantasias, compreendendo quanto a liberdade está em aceitar e obedecer sua própria natureza. O encontro com a ovelha Memélia torna ambíguo o final do percurso narrativo, com a introdução de outros temas e valores que não ousam ir além de limites previamente estabelecidos, ao mesmo tempo que marca o não-lugar de todo artista, nem livre, nem preso às convenções, em seu destino itinerante.


A prosa de Ana Maria Machado já contou com ilustrações de Alberto Llinares (1977), Fernando Nunes (1993), como vemos nas fotografias, e mais recentemente Jean-Claude R. Alphen (Salamandra, 2010).


Comparando textos, Sylvia Orthof com sua Maria-vai-com-as-outras (Ática, 1982) busca demonstrar os perigos de seguir o rebanho de olhos fechados, sem qualquer lampejo de consciência. Liberdade é pensamento. No livro de imagem Branca, criado por Rosinha (Paulinas, 2004), a imagem literária, condensada na ilustração de uma ovelha que deseja ser nuvem, conduz o leitor a um importante enigma. No dizer de Angela Lago: “A história da ovelha Branca não nos ajuda a dormir, mas a acordar. Um belo livro que nos deixa, crianças e adultos, um pouco mais altos: sabedores que a vida – e a morte – é tudo sonho.”


A partir da mesma imagem, diferentes textos revelam camadas do discurso eufórico, crítico ou emancipatório, marcando a posição dos autores frente às crianças. Leia outros comentários sobre os livros de Sylvia Orthof e Rosinha, abaixo, na sequência.

por onde Maria vai

Dobras da Leitura 49, outubro de 2007


O que é necessário para alguém dar uma ‘requebrada’ na vida e modificar todo o seu caminho? Dos textos mais bem comportados de Sylvia Orthof, esta história é uma das primeiras delícias que conheci: Maria-vai-com-as-outras, com desenhos da própria autora (Ática, 1982), uma fábula risonha, cheia de rimas e arejada com a precisão da lengalenga, com um bordão marcando um ritmo e o final de cada cena: Maria ia sempre com as outras.

E ela ia mesmo: pra baixo, pra cima. Ia pro deserto, pro polo sul. Enquanto o rebanho seguia com um sorriso de aceitação e as pestanas fechadas, Maria surge na ilustração de olhos abertos, insatisfeita, constrangida, mesmo assim Maria ia sempre com as outras... No meio da alvura azulada de suas irmãs, Maria era bem parecida com a maioria. Porém, sofria, como sofria. Pegava gripe e insolação.


Até que foram todas comer jiló (e Maria detestava jiló), mas como as outras ovelhas comiam, Maria comia também. Ora, é neste instante que o narrador se manifesta com uma simples e enfática exclamação: “Que horror!” E Maria pensa pela primeira vez. Pensa em si. Bastou? Que nada, Maria continuou seguindo o rebanho... E vão as ovelhas parar no alto do morro do Corcovado e, fofinhas e faceiras, vão saltando pra lagoa abaixo, muito abaixo. Conseguiram? Que nada! E Maria?


Sylvia Orthof dá um desfecho simples à história com seu recado inteligente, leve, gracejando com os leitores, com as ovelhas e com o narrador. Agora, méée, leia você este livro e descubra como caminhar por onde manda o seu pé!

2 de abril de 2012

dia de ervilhas

Dobras da Leitura recebeu...


Irreverência comandada por Sylvia Orthof: Ervilina e o Princês, ou Deu a louca em Ervilina é um reconto de pernas pro ar, publicado originalmente em 1986 com ilustrações da própria autora, agora, com colagens de Laura Castilhos (Editora Projeto, 2009). Princesas delicadas talvez já não existam... apenas umas sirigaitas que saem por aí, aos pulinhos... Quem disse que o príncipe vai conseguir casar?


Pequenas Grandes Histórias é uma coleção bem humorada de recontos de histórias bem conhecidas. Com bastante movimento, Eva Montanari ilustrou A princesa e a ervilha, em uma versão feita por Roberto Piumini e traduzida por Daniela Bunn (Positivo, 2010). Principalmente na imagem, a história ganha um acréscimo no desfecho. Será que alguém teria roubado a ervilha do museu real?


Simone Bibian decidiu subir as cortinas e mostrar o que aconteceu por trás das cenas do conto A princesa e a ervilha, com ajuda dos desenhos de Sandra Ronca (Scortecci, 2011). Enquanto o desastrado lacaio procura o grão de ervilha que deixou cair no chão do museu, Gertrudes, a criada do castelo, narra os fatos enquanto varre a sujeira para debaixo do tapete. Pelo menos, enquanto não é interrompida...

6 de junho de 2009

Uma cambalhota na saudade


Fanny Abramovich
il. Gê Orthof
 

Sylvia sempre surpreendente
Paulinas, 2007


Diante de um livro-homenagem desses, a gente só pode sair pensante, cambalhotante e confiante na amizade transbordadora e bordadeira — assim tão "sem possibilidade de recuar no afeto" — que viveram Sylvia Orthof e Fanny Abramovich. Uma apegadíssima à outra pelo que é da sinceridade, pelas loucuras sempre multiplicadas, pelo objetivo de fazer felicidade aos outros, principalmente às crianças, que até seria pecaminoso pecadante não aderir ao mesmo jogo da linguagem de invencionices exclamativas que a homenageante faz à homenageada.

Fanny, a cigarra ruiva, fia acontecências e admirâncias em torno dos rodopios da autora leve, grandalhona e bailarina que foi toda Sylvia orthofiando na vida... Dividiu o livro em cinco dedos de conversa com o leitor: um prológo, três atos e um encarte no pósfácio, onde estão alguns prefácios preparados para diversos livros publicados da amiga e outras escrevinhações, certos dados biográficos que são do "tipo de informação que, de repente, é só o que a pesquisa escolar quer..." e mais uma lista de memória e coração com os 18 melhores livros de Sylvia Orthof, em sua opinião.

O prólogo encena uma noite chuventa, pelas quatro horas da manhã: Fanny, debruçada em uma carta para a sempre querida escritora, fala a ela da outra carta que escreveu e deletou. Reverencia a amiga como a melhor autora brasileira de textos para crianças. "Claro, claríssimo, depois do Monteiro Lobato", corrige-se Fanny e recorrige mais uma vez: "Única capaz de ser parceria dele." E fala da saudade e também do precurso do livro Sylvia sempre supreendente — que, afinal, já estamos lendo...

Fã sem reservas, Fanny deslumbra e faisca um retrato falado falante, em um ritmo galopado, próprio de quem podia acompanhar La Orthof de perto. Homenageada e homenageante imprevisíveis! No Ato 1 - Se a memória não me falha, Sylvia é pega em seu tumulto criativo, em meio aos textos que escreveu e a relação com os editores, os calotes que levou, os destrambelhamentos nas palestras, alegrias e tristezas, enfim, a feitura da autora com o mundo girando a partir de seu trabalho. No Ato 2 - A velhota cambalhota, Fanny nos dá seus encontros com a amiga e irmã, com suas manias maravilhosas e mais íntimas gostosuras abrançantes. No Ato 3 - Saracotico no céu, Fanny funde visões da chegada de Sylvia nas nuvens e sua bagagem de leituras. Delírio farto e, sem dúvida, um repertório risonhal.
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