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5 de outubro de 2018

... e a vi(d)a se reconstrói todos os dias

A respeito do livro O REI DO ESPETÁCULO, de Elias José, com ilustrações Mariana Massarani (Paulinas Editora, 2005), escrevi no velho site-revista Dobras da Leitura Ano VI - N.º 30, São Paulo: fevereiro de 2006 :-)


Se o rei da confusão é João, e o rei da brincadeira é José... ê Elias, quem você é? Poeta e contador de histórias que agora inventa um livro-homenagem com um lápis apontadinho — o verdadeiro 'rei do espetáculo' — nosso amigo soberano que, quando “em boas mãos, pode fazer coisas de endoidar, de mudar a cara deste mundo algumas vezes chato.”

Neste livro, vinte poemas como se juntasse os dedos das mãos e dos pés, sobre as alegrias e as inquietações do ato criativo, das primeiras letras ao escritor, o desenhista, o professor e o intelectual... o compositor, o arquiteto, o jornalista, o cientista, a costureira e o agricultor, o matemático e o turista. O índio e o lápis? Você nem mesmo esquece o anjo, a velhinha, a adolescente apaixonada e a criança desenhista! Quem poderá dizer que o poeta tem memória curta?

E como o livro-espetáculo não pode parar, vem então seu convite: “leitores virarão poetas e passarão a criar novos poemas para mostrar o poder do nosso rei.” E seus versos já andam soltos por aí, na métrica livre, rimando muito mais ideias do que sílabas... Ora, ora é assim que faz nascer encantadas gentes e continentes na vida que se reconstrói sobre o papel. O ritmo, a harmonia e os sons / dos sentimentos humanos são aqui plantados.

E, para completar seu espetáculo, Elias, vem Mariana Massarani responder à brincadeira com um livro-circo feito de lápis, borracha e cores!

2 de dezembro de 2014

e a vida, o que é?

Dezembro, tempo de verso


Na dedicatória do livro a seus três filhos, Ninfa Parreiras recorda que
O Tempo nos ensina
a fotografar as horas
a escutar os lugares
a escrever os anos
a colher com os filhos
os versos dos tempos.
E ela faz poesia com fragmentos de histórias compartilhadas no ambiente doméstico, tirando o pó das imagens que guardou em caixas no sótão da própria memória, como instantes vivos, presentes em um velho álbum de fotografias. Talvez, por isso, cada verso termine em um ponto final para separar cada coisa em sua fragrância e lugar...
“A pescaria da semana atrasada. 
O dente de leite caído.
O abraço do dia dos pais.
O aniversário do anos passado.”
E entre o tempo das coisas que são e o tempo das coisas que não voltam, cada momento amarrota o coração, diz Ninfa, com dois lagos de águas cintilantes nos olhos. Mas existe também um tempo das coisas que repetidamente ou repentinamente chegam, entre descobertas e desentendimentos, tempo bom para acertar as contas e os ponteiros do relógio. Os trinta poemas dessa coletânea são marcados pelo tique-taque cotidiano, como o achocolatado que a mão ou a mãe dissolve no leite, as brigas e brincadeiras entre irmãos, tempo de ser cada um, cada um, e tempo de ser todos juntos, uma família.


O livro é assim uma espécie de diário onde tudo se registra e cada um pode encontrar uma emoção particular. Ninguém estranhe, portanto, os versos pouco a pouco virando frases mais e mais longas a fim de estender igualmente a duração de cada minuto, mesmo pertencente a dor ou um desagrado qualquer, tempo de despedidas, tempo das pessoas que se foram...

Em seu conjunto, os poemas que começavam construídos com imagens quase inarticuladas, vão se acomodando na forma de uma breve narrativa, uma pequena crônica, silêncio que se ouve e conta no sorvete derretido, na sombra do corpo refletida no chão: tudo transformando-se conforme passam as horas do dia. O tempo, pode o leitor descobrir, é como um brinquedo que se perde, mas não se esquece, sabendo manter as cores e a magia, os sentimentos que importam. As imagens pessoais conquistam uma continuidade através da palavra. Sim, era um livro de poesia, de histórias... é agora, uma tese, quase talvez.


Um novo ano + poético para você: 2015
com Ninfa Parreiras, POEMAS DO TEMPO
il. Mariana Massarani (Paulinas, 2009).

6 de setembro de 2013

o esboço do pensamento

setembro na mesa 1


É a palavra sobre a imagem no livro ilustrado para crianças que encontramos em TRAÇO E PROSA, entrevistas com ilustradores de livros infantojuvenis por Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu (Cosac Naify, 2012), recontando uma história íntima da literatura infantil brasileira sob a perspectiva que mais atende ao interesse de leitores entre adultos e crianças: a ilustração, em primeira pessoa, em primeiro plano, nas conversas registradas dentro dos ateliês de doze grandes nomes.

Eliardo França, Rui de Oliveira, Eva Furnari, Alcy Linares, Ricardo Azevedo, Helena Alexandrino, Nelson Cruz, Marilda Castanha, Graça Lima, Mariana Massarani, Roger Mello e Angela Lago delineiam a ambição do livro ilustrado como uma linguagem única em nosso cenário editorial, abrindo os bastidores de seus sonhos e todo o esforço criativo para estabelecer laços de comunicação e afetos com os leitores. “Para o preparo das entrevistas”, afirmam os organizadores, “consultamos a bibliografia existente sobre o assunto. Apesar de escassa, achamos alguns temas comuns nessas fontes, o que nos levou a dividir em três os tipos de abordagem que seriam de grande ajuda para nosso projeto. Elas foram denominadas por nós de histórico-sociológica, pedagógica e formalista. Essa classificação, mesmo não sendo completa, demonstrou-se suficientemente abrangente e útil para o propósito de definir as perguntas para as entrevistas.” Dentre os muitos desafios de recorte e método, os autores necessitaram eleger a geografia editorialmente demarcada por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e o curso da década de 1970 aos dias atuais, no generoso diálogo com quatro representantes de cada estado.


Em quase 250 páginas de espontaneidade, riso fácil, segredos, formação profissional, vidas envolvidas com livros e imagens, TRAÇO E PROSA oferece um panorama compreensivo a respeito da dinâmica de processos artísticos que, muitas vezes, ultrapassa o depoimento personalíssimo e vai esboçando ordens mais gerais da produção contemporânea. Um exemplo instigante que lá encontramos é o tema da autoria em três diferentes articulações – quando um autor escreve, depois outro ilustra; a parceria entre escritor e ilustrador; e, por fim, escritor-ilustrador como um só criador –, que implicam nas relações convencionais, contratuais e contextuais da leitura que se transportam para dentro livro ilustrado para crianças. Ora, se o conjunto das entrevistas não responde por uma formulação teórica única, positivamente enseja ser o objeto de análise e reflexão junto a muitos pesquisadores de editoração, teoria literária, pedagogia ou crítica genética, interessados em rever o estatuto da literatura infantil brasileira, no reconhecer a transformação da leitura entre palavras e imagens, redesenhando o conceito sobre o que é livro ilustrado para crianças.

7 de abril de 2013

macacos me abracem

peter o.sagae... escafedeu-se!


O que as pessoas não sabem é que já fui macaco. Não em outra vida, Deus me livre de acreditar numa coisas dessas... Foi mesmo no rádio, há vinte anos, enfrentando onça no meio do mato – e, no jogo estereofônico, ela de um lado, eu do outro, alertando que, logo, logo, ia dar a pior tempestade. Só mesmo se amarrando nas árvores com cordas e cipós, nó bem forte, pra vento não levar bicho ou gente voando pelos ares. Coisa terrível! Toda a família já estava amarrada, mas, se a comadre quisesse, arrumava corda para amarrá-la também. Ninguém podia imaginar quem era o macaco na caixa do alto-falante como, na fábula, dona onça mal desconfiou da verdadeira identidade do guri disfarçado de Bicho-Folharal.


Trocando macaco por gato, coelho, raposa, esta história universal tão ao gosto brasileiro do Bicho-Folhas, Folha-Seca ou Folharascal do Monte, já foi contada por muita gente africana, europeia, espanholeta, portuguesa, costa-riquenha, mexicana, chiquitita e panchita bacana... Constantemente reencontro o macaco esperto e extravagante nos livros, como O bicho folharal, de Angela-Lago (Rocco, 2005), ou


Dona Onça é muito sonsa, de Maurício Veneza (Prumo, 2009). Nesta pequena coletânea de três fábulas, o ilustrador surpreende pelo contorno... das frases! O texto é extremamente agradável para leitura em voz alta, balançando o macaco bem humorado de fala em fala... Pula depressa o macaco pro galho, desmascarando onça que se fazia defunta: “Ué, vocês não sabem? Minha avó, quando morreu, deu três espirros. Só aí todo mundo teve garantia do falecimento.” Pula também depressa o gato que dá ares da graça na última narrativa do livro. Agora, quem gosta de texto com acentos ligeiros, vogais abertas, consoantes fortes, ritmo de baião com foxtrote e – além de tudo, pensa que é macaco na leitura para pular vírgulas, sem errar, nem tomar fôlego – você, meu amigo, minha amiga, não pode deixar de conhecer A onça e a cabaça, de Daniela Chindler com ilustrações de Mariana Massarani (Paulinas, 1998). A confusão assim começa:

O macaco, que, cá entre nós, não é flor que se cheire, se meteu numa encrenca das boas. Foi mangar da onça, apoquentar-lhe o juízo a troco de nada, ou melhor, a troco de uma piada e umas boas gargalhadas. A onça estava lá, deitadinha, tomando a fresca, aproveitando a gostosura que é o final da tarde, quando apareceu o macaco com a cabeça cheia de ideias. Ele foi logo anunciando, para quem quisesse ouvir:

__ Dizem que sou pequeno, mas assanhado como o demo. Perturbo igual mosquito no ouvido de quem quer dormir. Atazano tanto quanto marido ciumento, incomodo mais que tachinha na cadeira. A ruindade é minha vocação. Adoro mexer em casa de marimbondo, jogar água em formigueiro e perturbar onça dorminhoca.

Depois, mirou bem miradinho e tum...



19 de agosto de 2009

Um parafuso a mais para a literatura






Tino, substantivo masculino, um quê de instinto, certo discernimento: juízo natural. É isso o que ensina o dicionário. Um menino sem tino é um menino sem juízo, sem o senso do perigo, com um parafuso a menos: assim dizem as pessoas. Quando acorda esse menino, o dia todo se entorta com ele: do quarto bagunçado ao banheiro, onde está o juízo do menino que contente, contente, penteia os cabelos com uma escova de dente?

Tino também é um tipo de roedor. Em especial, um roedor de livros ;-) um menino sem juízo, naturalmente. Aí se escreve o nome dele com letra maiúscula: Tino. E um Tino sem tino é o mesmo que um menino sem parafuso? Ou um parafuso sem menino? Porque, neste livro em que o Tino Freitas poetou, Mariana Massarani afrouxou parafusos por todas as páginas para o leitor encontrar. Está dentro do armário, no frio da geladeira ou guardado na mochila? Por onde o menino passa, vai deixando sua marca, sua idiossincrasia, sua mania de fazer as coisas a seu modo... Podem falar à vontade, comentar, reclamar, criticar, chiar: o menino passa. Passa adiante.

Quando chega a noitinha, o menino — que é míope para a ordem ordinária do mundo — aventura-se. Num livro... E a ilustração abre o diálogo do presente com os textos da tradição literária para crianças e jovens, desparafusando mais horizontes para a leitura de O gênio do crime, de João Carlos Marinho, Pluf, o fantasminha, de Maria Clara Machado, Drácula, de Bram Stoker, O patinho feio, de Andersen, Robson Crusoé, de Daniel Defoe, Alice no país das maravilhas, de Carroll, obras de Monteiro Lobato e Júlio Verne.

Em seu livro de estreia, Tino Freitas compõe trovas bem quadradinhas para cantar a história de um menino sem juízo — e aparece ele próprio, Tino, todo colorido com seu violão, ajuizando o parafuso da leitura bem lá no final do texto. A voz narrativa cede lugar à mensagem do autor, transformando o livro em uma peça de atividade leitora: é necessário recomeçar e procurar os parafusos soltos na ilustração. Mas, será que a gente não tinha visto, não?



Com os Roedores de Livros: sacola e juízo.

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