Peter O’Sagae
No mesmo ano em que chegava para todos a imagem crispada do primeiro homem a pisar na lua, partia para lá uma cor sem par, nem pátria. Uma cor chamada Flicts, diferente e extravagante, sem a força do Vermelho, a luz do Amarelo ou a paz do Azul, uma cor que ninguém quer na caixa dos lápis de cor, nas brincadeiras da primavera, após a chuva, nas bandeiras... Aflito, triste e feio, tão só, mas cheio de it, Flicts desiste da realidade que o repele e vai subindo, sumindo, subindo, sumindo... até que a lua tornou-se toda flicts!
Lançado em 1969, o livro de Ziraldo recebeu comentários de Carlos Drummond de Andrade a Nelly Novaes Coelho que, a despeito da colorida beleza gráfica, não viu o endereçamento da obra para crianças, mas um texto de simplicidade enigmática para jovens e adultos. Uma alegoria, talvez, presa ao contexto de uma época: o narrador diz tudo o que Flicts não é, e parece-se muito com alguém que se viu e partiu num rabo de foguete, isto é, com todas as dificuldades para cumprir algo a que estava programado ou prometido.
Em outras leituras, já tentamos ser convencidos a respeito da paráfrase sobre Andersen e o Patinho Feio, tão triste e sofredor quanto Flicts. Contudo, no final, uma contradição frente ao conto do escritor dinamarquês: se o patinho ascende e voa, ao descobrir sua verdadeira natureza de cisne, com a afirmação da convivência entre iguais, Flicts vai subindo e sumindo rumo ao isolamento fantástico sobre si mesmo, à negação da convivência entre iguais... Ora, esta não é, não seria uma mensagem oportuna ou muito otimista para o público infantil, com uma imagem valorativa tão voltada para si mesmo, centrada e centralizadora, que a velha (e boa) pedagogia esforça-se por modificar. O simbolismo da lua é muito bonito e mágico, em diversas culturas, tanto representa o inatingível, quanto o admirável – e o satélite lá no alto, sozinho e insondável para o comum das pessoas. Mas... Oh, lua no golfão de cismas e solipsismo!
No entanto, ‘inda ontem, um detalhe necessário do texto novamente se apresentou: Flicts transforma-se em flicts, de personagem a uma coisa ou qualidade, ao duplo it que nos é permitido reconhecer nos exercícios de leitura. E, se queremos Andersen, ao modo das comparações imperfeitas, a Andersen havemos de recorrer mais uma vez:
“..., com olhar triste, ela fitou o príncipe, e depois atirou-se do navio ao mar, sentindo como seu corpo se desfazia em espuma.
“O sol ergueu-se sobre o mar. Seus raios quentes caíram sobre a espuma. A pequena sereia não sentia a morte. Viu o sol claro, e, a voar por cima dela, centenas de formosas e diáfanas criaturas. Através delas, a sereia viu as velas brancas do barco e as rubras nuvens do céu. As vozes daquelas criaturas soavam como lindas melodias, mas nenhum olho humano podia ver quem cantava. Sem asas, eram tão leves que esvoaçavam no espaço. A pequena sereia percebeu então que seu corpo era como o delas, a elevar-se cada vez mais da espuma.
“– Para onde vou? – perguntou ela.”
P.S.1 Sim, a postagem anterior me inspira a retomar o tema da postura solipsista dentro da produção literária para crianças; deveríamos diferenciar os estados de solidão dolorosa, contemplativa ou voluntária que alguns personagens sofrem como acossamento ou acabam por impor a si mesmos como busca de beleza ou desprendimento dos motivos de sua aflição.
P.S.2 A lua e as demais cores de Ziraldo reverberam na ilustração de André Neves: a capa é flicts, mas levo o olhar atento para o guarda-chuva. São as recorrências que permitem reconhecer as imagens ou representações, umas nas outras, como emblemas ou estigmas da literatura para crianças.
P.S.3 A tradução de “A pequena sereia” por Guttorm Hanssen, com a revisão estilística de Herberto Sales, do livro Contos de Andersen (Paz e Terra, 1978).
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21 de outubro de 2013
14 de outubro de 2010
com a palavra, o ilustrador

Livro organizado por Ieda de Oliveira, O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra, o ilustrador (DCL, 2008) é uma coletânea de artigos e depoimentos; graficamente caprichado, 216 páginas em couché brilhante e reproduções em cores, índice remissivo e orelha assinada por Nelly Novaes Coelho, assinalando, “nesta fabulosa, caótica, progressista e alienadora era da imagem”, uma irrevogável funcionalidade pedagógica da ilustração: “A palavra cria o texto, o qual serve de fonte para a criação da imagem, cuja tarefa é dialogar e expandir os sentidos do texto de modo a provocar, no leitor-aprendiz (a criança e o adolescente), o ‘olhar de descoberta’ que fará dele um leitor criativo.” É a imagem uma estratégia para materializar e mostrar os caminhos da interpretação?

Ponto alto, a simplicidade com que nos ensinam Odilon Moraes, o projeto gráfico do livro para crianças, e Ciça Fittipaldi, a narratividade da imagem. Eis um bom começo para a leitura dos artigos. Ambos apontam quais os vínculos que se produzem de um a outro código, num jogo incessante de construção e decifração: “Os temas estão colocados, em princípio, pela linguagem literária: uma história dá origem a uma imagem”, afirma Ciça, “a imagem, por sua vez, dá origem a uma história que, por sua vez, apresenta-se por meio de uma nova imagem, esta permitindo uma outra história e mais outra, alternativa que logo se transforma em outras imagens...” (2008: 103)
Os demais capítulos vêm nos trazendo ora informações mais técnicas, ora horizontes que sugerem novas pesquisas — um histórico da ilustração fechado ao século XIX, com Rui de Oliveira, as diferentes técnicas, com Renato Alarcão, e o uso das cores, com Cristina Biazetto; a relação palavra e imagem, por Marcelo Ribeiro, questões a respeito do pensamento, da leitura de imagens e do livro de imagens, por Marilda Castanha... São sete artigos, enfim.
E depois: as visadas pessoais sobre a ilustração e o livro ilustrado, no fazer e pensar de Ana Raquel, Ana Terra, André Neves, Angela Lago, Márcia Széliga, Maurício Veneza, Nelson Cruz, Regina Yolanda, Ricardo Azevedo, Rosinha Campos, Thais Linhares e três ilustradores portugueses: Gémeo Luís, João Vaz de Carvalho e Teresa Lima.
Nas fotos: capa, contracapa e dobras do livro organizado por Ieda de Oliveira: dupla página com Edvard Munch intertextualizado por Marilda Castanha, uma ilustração com recortes em papel craft de Gémeo Luís e a abertura do artigo de Renato Alarcão.
Dobras da Leitura O'Blog tem [+]
Ciça Fittipaldi,
Cristina Biazetto,
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Marilda Castanha,
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Odilon Moraes,
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Rui de Oliveira,
Vitrine de Estudos
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