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12 de junho de 2017

novos e velhos ramos, verdes

peter O sagae


O tempo passa depressa, diz um verso de Eloí Elisabet Bocheco – no poema “Uni... Duni... Téia”, publicado em seu primeiro livro de poesia para crianças, com o mesmo título, e que recebi naqueles anos em que me via escondido online com O Caracol do Ouvido. Clique vai, clique vem, na palma da nossa mão, muitas alegrias se desenrolaram. Poucos sabem quanto Eloí foi madrinha das aulas de literatura infantil em minhas andanças no oeste de Santa Catarina, entre 1999 e 2004; poucos sabem da intimidade do nosso primeiro encontro, atravessando doze, quinze horas diretas de conversa admirada à porta da cozinha de sua casa enquanto André cozinhava, Luiz mexia um canto e outro no jardim, na horta, e os filhos iam e voltavam e a gente lá falando livros pelos cotovelos, se encantava.
"O tempo passa depressa...
Só não passa a roda
de bem-querer
e amizade,
brincadeira de
esconde-esconde
com a saudade."
E amizade com Eloí é feita de promessas de continuar um dia, após distância e algum silêncio. Um dia, então, a gente descobre o poema do uni, duni musicado por Priscila Schaucoski e Bruno Andrade, descobre Téia na página de outro livro: TÁ PRONTO, SEU LOBO? com ilustrações de outra amigaluna, a Suryara Bernardi (Formato, 2014). Na dedicatória em letras miúdas, Eloí escreve que o livro é “um feixe poético, formado por novos e velhos ramos – verdes, espero”.


Vou imediatamente inventariando. Das páginas de UNI... DUNI... TÉIA (Papa Livro, 1998), saíram também a antiga flauta floreada, agora “Flauta florida”, e o teimoso “Cavalinho da alvorada”. Do livro Ô DE CASA (Grifos, 2000), o poema “Tá pronto, seu lobo?” que empresta o título à nova antologia e a parlenda “Martina” com suas sementes beijadas de sol. “Posso entrar?” e “Segredos” foram originalmente publicados online pelo Jornal de Poesia, de Soares Feitosa. Ao todo, conto sete poemas que alinhavam a escrita constante de Eloí Elisabet Bocheco, cuja obra poética inspirada nas tradições orais incluem A DE AMOR, A DE ABC (1999), o premiado BATATA COZIDA, MINGAU DE CARÁ no I Concurso Literatura para Todos, do Ministério da Educação (2005), POMAR DE BRINQUEDOS (2009) e CANTORIAS DE JARDIM (2012), recentemente comentado, até chegarmos ao ano de 2014 – e já parece que temos mais dois, três livros de Eloí com poesia para crianças.


Considerando cada livro como um projeto que ladrilha o caminho da autora, o brilho de TÁ PRONTO, SEU LOBO? e outros poemas, perpassa inicialmente os brinquedos encenados através da palavra falada – como as parlendas com perguntas e respostas, os contratos de escolha que se apresentam em meio às cantigas de roda. Deste modo, as perguntas tornam-se chaves grandes, chaves mestras e fundamentais para estabelecer um contato afetivo entre as crianças, nas situações de texto-vida, entre a voz lírica e seus leitores, nas situações de leitura.

O poema que abre a antologia nos indaga, por três vezes – Posso entrar no seu reino, meu rei? E nossa memória intertextual, do leitor mais novo ao leitor mais velho, pode propor inúmeras respostas, cadenciadas e próximas das possibilidades que Eloí Elisabet oferece... O jogo do faz de conta vem nos levar para o lugar distante dos contos de fadas, para o reino das adivinhas e das tarefas cheias de ardis, do caminho que se inventa com três obstáculos etc. A primeira resposta tirada pelo poema é –
"Só se ocupar todas
as pausas, reinando
sobre as palavras."
Leitura e reinações aí se equivalem; gramaticalidade e brinquedo, pausas são reticências de coisas que nunca terminam ou parada para o outro continuar? O lobo, cantado antes de começar a brincadeira de pega-pega, no jogo do livro, é um lobo azul de gravata e chapéu de Fernando Pessoa, vaidoso, alguém quase a perder a hora para a festa no céu que começou faz séculos...


A criação poética de Eloí Elisabet Bocheco vem das tradições orais, das raízes da fala até o ouvido, mas vai também às páginas da literatura infantil e universal. Nenhum escritor, nenhum poeta pode alegar, perante seus leitores, ignorância da existência dos livros. A isso se diz consciência de metalinguagem, porque os textos novos sabem ler os textos antigos. E então, qual a melhor marca da literatura para crianças? Jogar com os segredos, com a transparência da leitura!


Dos poemas novos – ao todo, catorze – “O que é que eu faço?” – que Suryara ilustrou com olhos de sonho, cinza, jeans rosa pespontado, amarelo e cabelo no gramado – é uma canção límpida e preguiçosa ao sol da tarde. Assim termina:
"Um arco
de neblina
para o cabelo
da menina."
Depois das brincadeiras, poesia é devaneio. Eis a segunda marca desta antologia e encontraremos Eloí envolvida com descrições da natureza em quadros coloridos e canoros, festejando peixes, lagartos, fios prateados, renda, efeitos, infância, meses do ano, como se tudo pertencesse, de forma ininterrupta, ao mesmo céu. A riqueza de seus poemas está bem menos nas coisas do pensamento e reside, sem categorias, no toque sensível dos olhos e das mãos. Não leio, nem ouço símbolos. Pego extravagâncias, como um lago que se muda de lugar, pirilampo que esconde queijo no mato, uma sombrinha feita de flores, gato que engole letra sem mastigar – tudo isso e outras coisas mais – como coisas mais reais, objetos do conhecimento que a imaginação verbal pode manipular. E isso, esse processo, transmite uma sensação de alegria e leveza. Por isso, aqui temos poesia para crianças.


Eloí Elisabet Bocheco toma algo de José Paulo Paes, Elias José e Sérgio Capparelli, hoje parece mais liberta de Cecília Meireles ou Vinícius de Moraes, como li nos seus primeiros livros. Assim, com outra chave, entendo, quando minha amiga escreve avisando o feixe que abraça novos e velhos ramos – verdes, espero, ela disse – o significado que sua obra possui. As sementes começaram a brotar faz tempo e cresceram. Cresceram, verdejaram, deram perfume, grãos e frutos: velhos versos que ainda podem ser colhidos com frescor por alguém que não conheça este ou aquele poema, versos novos ainda verdes semeando esperança.
“Se a poesia bater à porta,
abra como a um amigo.
Poesia é luz,
alimento e abrigo.”

8 de junho de 2017

não mandem flores para as crianças

peter O sagae


Vasculhando os livros guardados na memória, não encontro antologias que falem de flores para crianças, integralmente, fora um ou outro poema de exceção que não insista em suspirar a pétala perdida com a cor de rosa da infância ou repetir rimas óbvias por entre ingênuas borboletas, cores e olores. Realmente é uma temática difícil, quando pensamos que a generalidade das flores se tornou arranjo ou objeto de contemplação, símbolos de alegrias e desastres amorosos, inspirando bem poucos versos animistas, amigos, animados. Realmente, pensemos, para quê mandar flores para as crianças?

Claramente não concordo com o que diz o título dessa postagem, apenas sinto realmente um vazio de referências e corro aos livros que dormem na estante. Vez ou outra abro UM POUCO DE TUDO, de Elias José (1982), e encontro UM POUCO DE FLORES, em diálogo bem humorado com o leitor – a hortênsia, rainha da paciência, toda gordura, a triste violeta, a rosa que não é flor para qualquer poeta, o girassol aluado e as algas que embalam as criaturas do mar. Também tomo o irregular POETANDO FLOR, de Lúcia Pimentel Góes (1991), como um ramalhete de experimentações com a sonoridade e a espacialidade das palavras na página.


Uns vinte anos passariam para podermos colher e ouvir as CANTORIAS DE JARDIM, de Eloí Elisabet Bocheco com ilustrações de Elma (Paulinas, 2012). O livro traz temas e formas inspiradas na poesia de origem folclórica – quadrinhas e jogos dialogados, principalmente – junto aos textos que nascem na cabeceira ou na escrivaninha, entre a visão e a escrita particular da autora. São diferentes aromas que se mesclam nesse jardim de palavra e brinquedo.


Tem origem na fala popular os poemas dedicados às flores de nome e aparência às vezes mais simples, como camomila, margarida, cravo e rosa de todas as cores, açucena, jasmim branco, flor-de-maio e palma-flor – com um pé fixo nas cantigas e nos recortados das cirandas. Com a forma característica da trova, ocorre volta e meia a justaposição de dois versos iniciais com outros dois que vêm assinalar uma ruptura temática, mas também o forte paralelismo tão comum aos jogos da memória e do improviso. A terceira estrofe do primeiro poema, nesse sentido, é exemplar:
“O fogo quando se apaga
na cinza deixa o calor.
Camomila quando balança
esmalta o chão de flor.” (p.07)
Daí encenar o diálogo, como:
“— Rosa encarnada,
quem te incendiou?
— Foi o sol nascente
que aqui chegou.” (p.12)
Ou então fazer um cruzadinho com as figuras nos dois primeiros versos para fechar os dois últimos com uma provocação:
“Flor-de-maio no canteiro,
passarinho na janela.
O que espera, passarinho,
para beijar flor tão bela?” (p.38)
Da inspiração enraizada no folclore, passamos a ouvir cantorias da música popular brasileira. São três ou mais homenagens. O eu-lírico de Eloí Elisabet Bocheco diz assim: “Este lírio quem me deu foi Yara” aludindo à ciranda de Lia do Itamaracá; no mesmo poema, sai um verso, sai uma quadra inteira, para os irmãos Tonico e Tinoco:
“Sereno caiu no lírio
Sereno deixa cair
Sereno da meia-noite
faz tempo que foi dormir.” (p.24)
Talvez alguém se lembre ainda de uma marchinha de 1939 composta por Benedito Lacerda e Humberto Porto, A jardineira, ao ler o poema que fala da camélia que suspira no galho. Segundo Eloí, cai orvalho, cai perfume, cai nosso coração no laço, mas a flor continua lá, branca, roxa, arco-íris e luar... A ilustração de Elma, nesta abertura de páginas, dá conta de mostrar como as flores se animam e se agitam com asas de elfo, jeito de fada, cara de sílfide – uma alma, uma criatura florida é, ela mesma, a jardineira com regador na mão e a flor.


Em outros poemas, o ouvido sonoro da autora se distrai com ecos – e as marcas da poesia popular vão se diluindo. Estou a ler e a reler o tremor da hortênsia, o jasmim sonhador, delicadas as begônias, a petúnia breve e o hospitaleiro amor-perfeito. Se eu fosse um peixinho, talvez usasse apenas o verbo no pretérito imperfeito, porém morava num lugar onde vivem os sábios insetos – a borboleta, o grilo, a joaninha e outros, um lugar onde parece existir um “único amor sem defeito”.

Por fim, é preciso colher flores que nascem da experiência com a linguagem escrita, em que a estrutura e a divisão em estrofes mostram-se em formas variadas, com ritmos e dizeres também variados. É o caso dos poemas “Rei do jardim” e “O preferido” que dividem a mesma abertura das páginas em espelho; “Qual é a flor?”, pergunta Eloí, que são contas azuis, colares de luz, fino bordado... Temos aí nomes que deixo para o leitor descobrir.

Há ainda “Viva a sempre-viva!” que brinca com repetições de palavras e o deslocamento delas sobre o eixo sintagmático dos versos, por isso, o efeito venha a soar mais frio ou calculado do que todos os demais. Eixo sintagmático, eu sei, soa igualmente estranho e nem se preocupe se agora você não entender. É um festim de palavras pra lá e pra cá, lembrando cantorias da Tropicália em seus momentos de exaltação. É preciso estar atento e forte (porque) a sempre-viva só tem cores vivas!

E quase me esqueço do copo-de-leite em duas quadras que falam do luar e mereciam realmente o branco mais branco de uma página quase silenciosa de ilustrações. Ponto alto, no entanto, para quem conheceu Eloí cronista e tecelã de casos fantásticos nas colunas do jornal, é o poema que narra como surgiu a violeta: uma história que o eu-lírico traz gravada nas linhas da mão, uma história leve que fala de um velho profeta penteando as longas barbas na janela do céu, e fala também de um vento forte, de um riacho e seus peixes, de uma catadora de sementes e gotas, muitas gotas.


CANTORIAS DE JARDIM, o livro, tem projeto gráfico de André Neves. Muitas vezes as páginas funcionam em um ritmo quaternário, isto é, a cada duas aberturas, a ilustração impõe uma breve narrativa visual. Após a folha de rosto e o índice que trazem flores de pétalas brancas e miolos amarelos, vemos uma página sem desenhos e mais outra com duas dessas flores ao vento, emoldurando o primeiro poema; são flores de camomila ou são margaridas que se apresentam ainda na abertura seguinte, já o fundo amarelo, onde um personagem com pétalas e asas permanece em pé sobre o miolo da flor. Outro flagrante é a sequência pp.20-23. Elma desenhou um jardineiro com um imenso balaio às costas, caminhando da esquerda para direita, olhando rumo ao poema “Delicadas” – e viramos a página para encontrá-lo ao pé da namorada com um buquê de hortênsias nas mãos.

Outra narrativa também se revela nas imagens de Elma. Na abertura das pp.34-35, flores de jasmim-manga decoram os poemas “Petúnia” e “Jasmim”. Sentada à beira do rio que parece transformado em lagoa, uma menina de vestido azul e pássaro na cachola. Você pode dizê-la com nome próprio – Petúnia. Ou ler seu gesto de Ofélia, ou desconfiar que seja uma ninfa – Eco, enamorada de Narciso, invisível ao olhar e ao reflexo que deita na água.


Ora, não mandem flores para as crianças.
Elas poderão gostar.

21 de março de 2014

da cor de amoras e âmbar, infinito mar

Peter O. Sagae


No mar de páginas, o que mais quer o leitor é encontrar uma história. Uma história com movimento irresistível de ondas e episódios que pouco a pouco o vão puxando para longe do primeiro parágrafo. Bem o efeito desse balanço mágico tem a prosa de Eloí Bocheco que há muito tempo não lia, nem comentava. E agora andei à RUA ÂMBAR (Formato, 2013) com delicadas ilustrações, quadrinhos e vinhetas de Márcia Cardeal. A escritora permite a todos saborear a sua linguagem carregada de amoras, miniaturas e novas moradas, sempre dentro de um projeto literário que se definiu muito antes dos livros caminharem aí afora publicados.

Há mais de quinze anos, Eloí escrevia crônicas investidas de narrativa e capricho poético, no jornal A Notícia, de Santa Catarina. Seus poemas para crianças possuem a voz de acalanto e brinquedos brasileiros. A ficção que sai do seu lápis, ou das letras tamboriladas no teclado do computador (na verdade, eu nunca soube o seu segredo), reafirma sua representação de mundo que é o processo de descoberta e encantamento das personagens com a lembrança de coisas vividas e inventadas, suas feridas felizes, o ritmo cotidiano a manter as boas afeições...


Na Praia do Mariscal, a Rua Âmbar acolhe diferentes visitantes, o leitor e o personagem Miro e outras personagens que saem de velhos contos, aposentos e apólogos. Miro, Valdomiro Silveira, é um menino que mora na rua Ametista e tem uma fábrica de miniaturas escondida debaixo da cama... Em uma caixa, ele guarda as ferramentas. Em outra, as réplicas de panela, chaleira, bule, frigideira, caneca de três asas, objetos e brinquedos feitos de latinhas de alumínio que saem a falar, a confabular sabedorias e dúvidas, filosofias da vida. E saem a correr mundo também. Onde o menino poderia reencontrar seu jarro, o balde e uma panela que sumiram?

Pois na Rua Âmbar tem uma casa: a casa do poço onde morou gente e já não mora mais ninguém. Diziam, assombrada! Miro encontra uma formiga-ruiva à janela, olhando a paisagem à espera de uma prosa. E, nas sombras de um quarto, o menino conhece uma figura que há muito se transforma, como Nereu e lagarta, tipo coisa para viver a vida dos outros, sempre azul e gaivota no futuro. E tem, ou tinha, uma tainha. Então, uma bruxa – que é igual e diferente às outras bruxas que conhecemos, a bruxa da Costa Esmeralda, com o bem e o mal misturados nas entranhas... Ah, as bruxas de Eloí Bocheco viram e reviram seus textos, desde os primeiros! Na poeira do assoalho aberta em ilhas com os passos do menino, os diálogos se iluminam.
— Você acha ruim nascer falando?
— Não. Acho normal. Ainda mais no seu caso que, com todo o respeito, tem a boca grande.
— É mesmo, eu me acabo em boca. Mas, mudando de assunto, me conte sobre sua vida.
— Ah, eu era um pensamento...
— Um pensamento?!
— Isso mesmo. O Miro estava andando à beira-mar e pensando. Andando e pensando. Aí, um pensamento do Miro caiu no mar e virou concha. Essa concha sou eu.
Outras pessoas igualmente passam pela Rua Âmbar. Como gente de ficção, os veranistas vão e vem, uns voltam, outros não, como ondas, famílias, cotidianos a cada estação. Por exemplo, as três crianças da família Trololó da casa número 109. Este é o pé da história que passeia na realidade, com Isa, Matita e Quim, envolvidos na divisão de tarefas, notícias da televisão e sonhos que buscam o futuro. Mas a vida aí não se limita, imita o pulo do saci, vê rã voando feito borboleta sobre um pé de jasmim.


A prosa de Eloí é cheia de figuras e diálogos, é prosa feita de lenga-lenga na sua estrutura e costura. E acompanhe Miro pedalando a bicicleta pelas ruas em busca de amigos, Miro o menino de água do mar e maré. E tempestade que se arma nos sentimentos. É quando estronda a velha voz de um pescador, como que vinda de longe, anunciando o “encantamento” do pai. Foi o gigante que despertara em seu sonho, dias antes, que afundou o barco em alto-mar, fora ele, apenas ele, a quem podemos chamar pressentimento...

Eloí Elisabet Bocheco está segura dos segredos da vida, a sua verdade pessoal, e a compartilha com poesia: a transformação dos objetos em coisas novas, do carbono que vibra inteligentemente às plantas, da resina aos polímeros longevos do âmbar, da água aos animais, do humano em humanidade. E assim é bonito como o sol se elevando manhãzinha, sempre, mesmo sem a gente ver sua verdadeira cor.

* * *

24 de novembro de 2012

boreais, coração dentro dos livros

Peter O. Sagae*


Alguns livros são feitos de 
pura emoção, acrescentando, aos poucos, ao discurso, em fogo brando, um suspiro e mais outro, descobertas boreais e úmido sangue correndo esperançoso às veias do leitor.
 E o primeiro título juvenil de Eloí Elisabet Bocheco, BEATRIZ EM TRÂNSITO, vencedor da terceira edição do Prêmio Casa de Cultura Mário Quintana
 (Porto Alegre, 2005), assim se entrega: sem medo de invadir a distância, tocar os afetos, tomar nossa respiração (meu coração viu tudo, alerta a narradora) e você — você vai se emocionar!


Beatriz e seus parentes vivem de muitas mudanças pela vida, de cidade em cidade. Por isso, tem sempre casa nova pelo caminho e a necessidade maior de se desacostumar do costume dos mesmos lugares. E das paisagens internas que só para quem não quer ver parecem quase sempre iguais, mas movendo se vão com o talismã do tempo e da compreensão, ao vento do próprio destino. Ora, essa coisa de mudar é gosto que nasce dentro de certas pessoas. O avô curtia viagens e, de silêncio bem curtido, virou tropeiro de bois celestiais.
 A família, a família estacionou em Santo Antônio dos Campos e, desde então, a avó cuida da menina como se criança sem mãe fosse de vidro. Moravam juntos e juntos mudavam, de tanto em tanto, a tia Leonor, tia Rosana, tio Pedro, Eduardo, Lia...

Numa das escolas que conheceu, Biazinha (detesto que me chamem de Biazinha) ficou de olho assim grudado no armário bege de livros guardados de Guiomar, uma professora que sabia 
misturar aula e vida. Foi quando conheceu Samuel, um menino
 em trânsito sobre sua cadeira de rodas com jeitão de quem havia lido montanhas de livros, tantas paisagens ele conhecia! Depois, será Samuel seu melhor amigo correspondente. Melhor não fosse, nós até poderíamos pensar. Melhor seria não tê-lo conhecido, Beatriz até poderia pensar. Porque a saudade também existe para doer. E perdoar. Em outra escola, chegará Mariana de longe, com 
medo trancado que não pode abrir feito pote de barro que “dentro tinha coisa que chacoalhava, tilintava, farfalhava”.

Capítulo a capítulo, a história de Beatriz se descobre em um verdadeiro ‘livro de admirações’ por outro livres, como inventaram a menina e seu grande amigo, e coube à Autora realizar, obediente ao desejo dos personagens, através da urdidura da palavra. Tem momentos para suspirar um jardim inteiro (Sento na escada da varanda pra esperar a boca da noite soltar os pirilampos.) No entanto, melhor que contar o segredo dessas pessoas, é contar que essas pessoas todas têm segredos: vivos, dentro e fora da ficção. BEATRIZ EM TRÂNSITO encerra-se com um aceno
 de adeus e amizade, texto de encantos e asperezas em equilíbrio, denso e leve como a vida, mais uma pitada de umas coisas que se repetem e outras que nunca mais acontecerão.


« Devagarinho fomos saindo. Decerto a alma de minha mãe ficou contente com tanta flor bonita
 só pra ela. Me deu medo que as outras almas ficassem com ciúme porque não ganharam flor e viessem me pegar no meio da noite pra reclamar. Tinha tanta alma ali que era preciso um campo inteiro de flor. Nem olhei pra trás de medo desse pensamento não me largar mais até em casa e depois de chegar em casa também. Acho que a minha mãe me protegeu porque,
 dum ponto em diante da estrada, o pensamento se foi não sei pra onde. » 


* Resenha extraída do site Dobras da Leitura, por ocasião da publicação do texto pela editora Nova Prova, 2005, com a capa de Thanara Schonardie. A obra foi reeditada com ilustrações de João Lin (Dimensão, 2007).

20 de agosto de 2011

a felicidade de versos que brincam

peter o.sagae


A poética brasileira para a infância tem íntima e fortemente seguido em duas direções: a tradição popular em versos, com suas trovas e quadrinhas cantadas em roda, ou a liberdade apregoada pelos já centenários poetas do modernismo, produzindo frutos de variados sabores, uns bons, outros nem tanto, para os livros e para os discos, em páginas impressas ou nos arquivos.mp3. Mas ainda são poucos os escritores que se saem bem sucedidos ao entrelaçar conscientemente esses dois caminhos – e aqui cochicho o nome de Eloí Bocheco.

É preciso reconhecer que o folclore impõe uma métrica constante, seja trissílabos, heroico quebrado, raras vezes mais que uma redondilha maior. Também é preciso saber que, a despeito do cumprimento irregular dos versos livres, a poesia modernista caracteriza-se por um rigoroso padrão rítmico-melódico. Ambos os projetos artísticos exigem apurados ouvidos... E dicção e fôlego e desejo de soar ingenuamente, mesmo depois de exaustiva elaboração. E Eloí E. Bocheco consegue, mais e mais, transmitir de forma fácil a felicidade de versos que brincam como nossos velhos conhecidos.


Neste POMAR DE BRINQUEDO, ilustrado por Taline Schubach (Larousse, 2009, fora de catálogo), dança o limão o bota-aqui, ai bota ali o teu pezinho, um passo pra frente, um passo pro lado, com a tangerina; saboreamos um céu inteiro de estrelas de carambola ou abrimos uma caixinha com lenço bordado, quando sentimos vontade de chorar pitangas... Frutas em cores, caroço na terra, em voo, da árvore no quintal à janela, frutas em versos, beleza em penca, quem pensa, com tanto humor e disparate esse baile? Pela cerca que não há, a imaginação da autora catarinense arruma sonoridades bem jeitosas de lá pra cá e, mesmo quando abre mão da rima, não perde o requebrado lúdico do seu fazer musicado.



1 de julho de 2010

Magia com cheiro e sons de hortelã

por Peter O'Sagae

Eloí Elisabet Bocheco renova com muita suavidade as velhas fórmulas e brinquedos falados da poesia oral de tradição popular; suas narrativas soam como se saíssem do imaginário de nosso folclore.


De doce doce, regalou-se o leitor com a primeira história da bruxinha Elisa — que ganhou um baú que foi da mãe da mãe da mãe de sua mãe... Um baú de longa posse que varia cores, conforme as artimanhas de Eloí Elisabete Bocheco: num dia, é verde salpicado, depois amarelo quindim, lilás estrelado, até mesmo cor de concha recém-encontrada! E dentro do baú está uma caixa com outra caixa dentro. E, dentro, um saco de algodão. E um pote... E um pacote!

Começa assim o mistério do livro O POTE QUE TAVA NO POTE (2003) que traz uma narrativa no embalo da lenga-lenga que faz a história crescer, crescer, crescendo também a curiosidade de quem ouve ou lê. Começa assim o caminho de Elisa que só pode abrir o pacote com a ajuda de uma andorinha, em véspera de lua cheia. Atravessando o Ribeirão do Araçá, a bruxinha pergunta aos animais da mata quem a poderá ajudar. Mas, a Rainha das Abelhas, a Rainha das Corujas, o Rei dos Pardais, o Rei dos Saguis, a Rainha das Borboletas, sempre mandam a menina adiante... “Ai de mim, Rainha da Mina D’água, onde posso encontrar a andorinha Lica em véspera de lua cheia?” Quem é a Rainha da Mina D’água? O que é que ela vai responder?


A bruxinha Elisa precisa ajudar a aranha Tita a organizar uma exposição de tapetes tecidos com finos fios prateados sobre a árvore mais frondosa da mata. Tanta beleza é motivo de alegria para gentes e bichos, mas incomoda, como incomoda Alcina, ai que sina! Por três vezes, a desaforada tenta sabotar a exposição. Por três vezes, Elisa recorre ao baú que pertenceu a sua tatataravó. Do meio dos guardados mágicos, ela encontra uma flauta, um assobio de bambu, uma gaitinha de boca e sopra para longe as artimanhas de Alcina, ai que sina!

CONTRA FEITIÇO, FEITIÇO E MEIO (2006) é o segundo livro de histórias da bruxinha Elisa e ganha apresentação de Elias José que nos pergunta qual o segredo de Eloí Elisabet Bocheco para prender e conquistar leitores. O poeta frisa os recursos buscados pela autora junto aos contos acumulativos, às parlendas e quadras populares, além do fato de a bruxinha não vir descrita na narrativa, caminhando às soltas por nossa imaginação e assim permanecer na “memória afetiva” de quem a conhece. No entanto, há a ilustração: a bruxa-menina ganha fisionomia e cores na aquarela de Mari Ines Piekas — e torna-se interessante notar como a personagem espichou centímetros, cresceu uns pares de anos, de um para outro livro.


Com leveza das palavras, Eloí Elisabet Bocheco oferece ao leitor A CHAVE QUE O VAGA-LUME ALUMIOU (2006) e acende a paisagem do Ribeirão do Araçá onde brinca a bruxinha Elisa. Ela não se cansa, tentando pegar o ligeiro brilho dos insetos que pirilampejam aqui e ali, e mais acolá... Certo dia, um vaga-lume vaga-longe e leva a menina a encontrar uma chave mágica que abre três portas encantadas no Vale dos Jacarandás. Atrás de cada porta, um segredo, uma adivinha, um feitiço que Elisa diligentemente desvenda, adivinha, desata — e, mais uma vez, abrindo suas aventuras, a bruxa-mocinha vai até chegar lá: em cima do morro: na casa com quadros na parede da sala e dos quartos muito arrumados: uma casa com varanda, flor-de-maio, gato dormindo no assoalho e...

Nos contos da bruxinha Elisa, a simplicidade sempre sonora, a estrutura acumulativa da lengalenga; o texto de Eloí é poesia só: polvilhado de jogos lúdicos com as figuras de linguagem — principalmente, figuras de construção e de harmonia que dão acento e ritmo para a voz que conta. Há, pois, um caprichado trabalho de texto para simples ficar. E o ouvido vai ouvindo, vai indo, vai indo, por estes percursos de repetição!


Elisa sabe tocar em sua gaitinha cantigas folclóricas tão ricas e canções que se ouvia no rádio, no tempo dos lampiões. Mas, será que foi vento ou distração? Lá foi a gaitinha pro chão... Bem na touceira da cobra que se desenrola, assanhada só, para cantar e dançar o maçanico. E quem disse que ela arruma namorado? O que ela quer é música com versinho recortado! E canta uma, canta duas, canta quantas nem sei, até que a bruxa se cansa e diz que vai embora. Vai nada, a cobra levada pegou de volta a gaitinha e só devolve fazendo negócio.

Na quarta e última história da bruxinha — GAITINHA TOCOU, BICHARADA DANÇOU (2008), aparece Corina, a cobra criada que cobra o preço de três romãs para devolver o instrumento musical à menina. E sai Elisa pela mata e pisa no rabo de uma escada... E escada lá tem rabo? Ora, tem. Ora, não! Depois, o que tem é brincadeira do meu bule, minha caçarola, minha tigela e meu pé de marmelo, com parlenda daquelas de perguntar e responder. Eloí faz assim mais uma aventura para os pequenos pegarem gosto pela palavra, juntando a espontaneidade dos brinquedos falados com sua pitada de non-sense.


Quanta saudade, assim, a série da bruxinha Elisa vai deixando pelas paisagens mágicas do Ribeirão do Araçá por onde, literariamente, passeamos! É todo o mundo de conto que Eloí encerra feito concha de plantas e bichos guardados num'alma que muito quer se divertir pelas matas e lugarejos brasileiros — apesar dos traços claros, do vestidinho comprido e do chapéu pontudo com que a personagem se mostra nas ilustrações. Debaixo do sol, debaixo da sombra das árvores frondosas, Elisa é uma florzinha brejeira com ânimos de saci solícito ;-) E permanece de um tamanhinho singelo para cada leitor! O reencontro é certo, porque boa lengalenga é coisa pra ir e querer voltar.



* Texto composto para Dobras da Leitura O’Blog. Os livros de Eloí Elisabet Bocheco foram originalmente comentados em quatro resenhas da Vitrine Literária, publicadas no site Dobras da Leitura 20, 31, 42 e 52.
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